A Crença de que Deus resolve tudo

Entregando a Deus ou ao Diabo?

Desde o Êxodo, quando Moisés conduziu os hebreus pelo deserto por quarenta anos, a Bíblia conta que Deus enviava maná todos os dias. Além disso, Moisés batia na rocha, e a água jorrava para matar a sede do povo. Esse é o berço de A Crença de que Deus resolve tudo.

Essa crença chegou aos nossos dias. Afinal, é muito comum ouvir frases como “Deus proverá”, “se Deus quiser” e “Deus no comando”. Neste artigo, vamos refletir sobre o ponto em que a fé termina e a responsabilidade humana começa.

O Brasil e a fé da maioria

O Brasil é um país de maioria cristã. Em determinado momento da história recente, chegou a ostentar o rótulo de maior país católico do mundo. Ou seria o país mais católico do mundo? Afinal, a diferença importa.

Em número de fiéis, o Brasil é o maior. Todavia, em proporção da população, outros países o superam. Aliás, os católicos já são pouco mais da metade dos brasileiros, segundo o Censo 2022.

Durante muitas décadas, também foi comum ouvir que “Deus é brasileiro”. Em parte, isso se deve ao Cristo Redentor, de braços abertos sobre um dos pontos mais altos do Rio de Janeiro. Contudo, será que braços abertos dispensam braços trabalhando?

O custo da ignorância

A falta de conhecimento tem preço, e o Brasil o paga todos os dias. Sobretudo, a pouca leitura e a educação formal precária geram um custo altíssimo para o povo brasileiro.

Quem desconhece a história do Brasil e a história geral tende a repetir erros do passado. Além disso, fica mais exposto a narrativas prontas, venham de onde vierem.

Consequentemente, o país convive com insegurança jurídica, instituições abaladas e uma democracia frágil e ainda imatura. A Crença de que Deus resolve tudo ajuda a manter esse quadro, pois dispensa o esforço de aprender.

A Crença de que Deus resolve tudo

Quando a desconfiança vira rotina

A eleição de 2026 ilustra esse cenário. O candidato derrotado não reconheceu o resultado e anunciou que pedirá a anulação do pleito. Por outro lado, o TSE proclamou a reeleição do atual presidente, com 51,79% dos votos válidos.

Uma pesquisa Meio/Ideia, divulgada em agosto, mostrou 35,3% dos eleitores confiando nas urnas e 24,3% desconfiando. Portanto, o país chegou ao fim da disputa dividido também na confiança nas instituições. Seja qual for o lado, a falta de conhecimento torna esse debate mais emocional do que racional. Dai a polarização acirrada.

Confundindo fé com zona de conforto

Fé é confiança ativa, enquanto zona de conforto é a comodidade de não decidir. Contudo, as duas costumam se confundir. Nesse caso, o cidadão transfere a Deus, ou à liderança religiosa, uma responsabilidade que é dele.

Por isso, os números ajudam a enxergar o tamanho do problema. No segundo turno de 2026, abstenções, votos brancos e nulos somaram 34,66 milhões, ou 21,84% do eleitorado apto.

Esse contingente equivale a mais da metade dos 64,26 milhões de votos do vencedor. Portanto, quem não escolhe também influencia o resultado, ainda que sem querer.

Fé que não substitui a cidadania

Em contrapartida, houve avanço: a abstenção de 19,22% foi a menor em um segundo turno presidencial desde 2006. Ainda assim, quase um em cada cinco eleitores deixou de comparecer.

A Crença de que Deus resolve tudo funciona, nesse contexto, como anestesia. Afinal, é mais fácil esperar um milagre do que votar, estudar os candidatos e cobrar o eleito.

Entregando a Deus ou ao Diabo?

Entregar a Deus é um ato legítimo e nobre quando já fizemos tudo ao nosso alcance. Sobretudo, há situações em que o controle foge às nossas mãos, e a fé traz serenidade.

Da mesma forma, o princípio vale para a democracia. Entregar a Deus faz sentido depois que a sociedade tentou de tudo, inclusive a alternância de poder, e mesmo assim não obteve resultado positivo.

Todavia, esse não é o ponto de partida. Quando A Crença de que Deus resolve tudo vem antes da ação, a atitude deixa de ser fé e vira omissão. Consequentemente, o espaço vazio costuma ser ocupado por quem tem interesse em mantê-lo assim. Nesse sentido, é como entregar ao Diabo.

A democracia exige alternância

Além disso, democracia pressupõe alternância. Quando um mesmo regime se perpetua por anos a fio, isso não se configura em democracia. Menos ainda quando a situação política, administrativa e econômica só deteriora ano após ano.

A pergunta, portanto, é honesta. Esgotamos os instrumentos que a democracia oferece, como o voto, a fiscalização e a cobrança? Só depois disso faz sentido entregar o que restar a Deus.

Conclusão: fé com responsabilidade

Ao longo deste artigo, vimos que o custo da ignorância é alto e que a zona de conforto costuma se disfarçar de fé. Além disso, vimos que entregar a Deus só faz sentido depois de agir.

A Crença de que Deus resolve tudo não precisa ser abandonada. Todavia, precisa ser completada pela ação. A fé abre o caminho, mas somos nós que o percorremos, com leitura, memória histórica e voto consciente.

Portanto, que o maná de cada dia venha acompanhado do trabalho de cada dia. Compartilhe este texto com quem acredita que fé e cidadania caminham juntas.

Mantra do EU SOU

Eu Sou fé com ação e confiança com responsabilidade.

Eu Sou cidadão consciente do meu papel e do meu voto.

E Eu Sou buscador de conhecimento, de leitura e de verdade.

Eu Sou parceiro de Deus na construção do bem comum.

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