A importância de voltar ao nosso centro
Passadas as eleições, a segunda-feira amanheceu carregada de sentimentos diferentes. Enquanto algumas pessoas comemoram o resultado, outras lidam com a sensação de frustração. Para uns, houve a confirmação de expectativas e esperanças; para outros, a experiência de ver desejos e projetos contrariados.
Observando esse cenário, veio-me a reflexão de que a vida, muito além da política, nos coloca constantemente diante dessas duas experiências. Vivemos, muitas vezes, entre a euforia e a frustração, entre a alegria de conquistar aquilo que desejamos e a decepção de perceber que nem tudo acontece conforme imaginávamos.
A tendência de ampliar os acontecimentos
Há muitos anos, durante a leitura dos livros de Carlos Castaneda sobre os ensinamentos de Don Juan, encontrei uma ideia que permaneceu viva em minha memória. Não recordo as palavras exatas, mas seu significado continua atual: não devemos atribuir aos acontecimentos um poder maior do que realmente possuem.
Quando supervalorizamos uma experiência positiva, corremos o risco de estabelecer um padrão de felicidade tão elevado que as alegrias futuras parecem menores. Da mesma forma, quando ampliamos excessivamente uma experiência negativa, transformamos um sofrimento temporário em uma sensação duradoura de derrota.
No entanto, a vida nos mostra repetidamente que tudo passa. As alegrias se transformam, as tristezas mudam de forma, as circunstâncias seguem seu curso. E nós também seguimos nos transformando ao longo do caminho.
O caminho de volta ao centro
Gosto de pensar que existe um lugar interior para o qual sempre podemos retornar. Um espaço de equilíbrio onde reconhecemos nossas emoções sem permitir que elas assumam o controle absoluto de nossas escolhas.
Como psicóloga, sei que não podemos simplesmente decidir deixar de sentir. E nem deveríamos. A alegria merece ser vivida plenamente. A tristeza também precisa ser acolhida, compreendida e respeitada.
O equilíbrio emocional não significa ausência de emoções. Significa desenvolver a capacidade de manter a perspectiva mesmo quando estamos profundamente envolvidos por elas.
Quem celebra uma vitória precisa lembrar que nenhum resultado garante, por si só, um futuro perfeito. Da mesma forma, quem enfrenta uma derrota precisa reconhecer que nenhum acontecimento determina sozinho tudo o que ainda poderá acontecer.
Talvez o grande desafio da vida não seja evitar emoções, mas aprender a permanecer equilibrados entre a euforia e a frustração, sem nos perdermos em nenhum desses extremos.

Conviver apesar das diferenças
Outro aspecto que chama atenção é a forma como, nos últimos tempos, as divergências políticas passaram a ocupar um espaço cada vez maior em nossas relações.
Amizades são rompidas. Pessoas passam a desqualificar umas às outras. Atribuem-se intenções e características pessoais àqueles que pensam de maneira diferente.
Em muitos momentos, parece que a necessidade de estar certo tornou-se mais importante do que a capacidade de conviver.
Entretanto, nossas convicções não precisam desaparecer para que o respeito permaneça. É perfeitamente possível defender valores, exercer a cidadania e sustentar posições diferentes sem transformar cada discordância em uma batalha pessoal.
Quando estamos tomados pela intensidade dos acontecimentos, especialmente em períodos de polarização, torna-se mais difícil perceber que todos nós transitamos, em diferentes momentos, entre a euforia e a frustração.
Participar da vida sem perder a serenidade
Talvez seja aqui que aquela antiga reflexão retorne com mais força: não oferecer aos acontecimentos um poder maior do que aquele que realmente possuem sobre nossa vida interior.
Isso não significa indiferença, conformismo ou falta de compromisso com aquilo em que acreditamos. Significa compreender que podemos participar intensamente da vida, envolver-nos com suas causas e desafios, sem permitir que cada vitória nos torne arrogantes ou que cada frustração nos roube a esperança.
Amanhã surgirão novos desafios, novas oportunidades e outras razões para sorrir ou para nos preocupar.
A vida continuará acontecendo.
A maturidade emocional talvez surja justamente quando aprendemos a caminhar entre a euforia e a frustração, reconhecendo a importância dos acontecimentos sem permitir que eles dominem completamente nossa vida interior.
Nem tudo será tão maravilhoso quanto imaginamos nos momentos de euforia. Nem tudo será tão terrível quanto parece nos momentos de frustração.
Entre esses dois extremos existe um espaço de consciência, equilíbrio e serenidade.
É para esse espaço que precisamos aprender a voltar, sempre que a vida nos afastar do nosso centro.
Sarita Cesana
