Sorriso, uma linguagem universal.

Sorrisos: a linguagem universal que nos torna iguais – Asilah, a pérola branca de Marrocos

Estamos mais uma vez em Marrocos e, desta vez, fomos conhecer Asilah, uma pequena cidade situada a cerca de quarenta minutos de Tânger. Conhecida como “a pérola branca de Marrocos”, ela nos proporcionou uma experiência cultural enriquecedora e uma reflexão sobre algo aparentemente simples: o poder de um sorriso.

Durante o trajeto de ônibus, contemplamos quilômetros de praias ainda pouco exploradas pelo turismo. A paisagem me fez lembrar imediatamente das praias do Rio Grande do Norte, especialmente as da Costa Branca, próximas à divisa com o Ceará. Lugares distantes, separados por um oceano e por culturas distintas, mas unidos pela beleza natural.

Ao chegarmos a Asilah, nosso guia nos conduziu à medina, a parte antiga da cidade, protegida por enormes muralhas. Suas ruas estreitas, construções históricas e pequenas lojas me transportaram para o universo dos contos de As Mil e Uma Noites.

Ali encontrávamos de tudo: docerias, perfumarias, pequenos mercados, sapatarias, antiquários, lojas de lembranças, residências e restaurantes. Cada estabelecimento parecia guardar um pouco da história e dos costumes daquele povo.

A cultura marroquina e a beleza das diferenças

Durante o passeio, nosso guia, um senhor muito divertido, apresentou curiosidades sobre a vida na medina. Entre brincadeiras e explicações, conhecemos aspectos da arquitetura, dos costumes e da organização daquele espaço histórico.

As portas de ferro, as pequenas janelas, os tapetes expostos nas paredes e as louças decoradas com desenhos minuciosos revelavam diferentes formas de viver e de criar. Fiquei especialmente admirada com o trabalho artesanal, que exige paciência, habilidade e dedicação.

Perto do meio-dia, passamos por uma mesquita e ouvimos o chamado para a oração muçulmana. Observamos alguns fiéis saindo do local e calçando seus sapatos, deixados do lado de fora em sinal de respeito ao espaço sagrado.

Era também feriado escolar, e muitas famílias aproveitavam o dia para passear e contemplar o mar. As mulheres usavam vestimentas tradicionais, como o kaftan, e muitas cobriam os cabelos com o hijab. Apesar das diferenças culturais que nos separavam, seus sorrisos me pareciam familiares.

Em determinado momento, vi uma mãe marroquina acompanhando os filhos enquanto jogavam futebol diante de casa. A cena me fez pensar em quantas experiências são universais: uma mãe observando sorridente as brincadeiras dos filhos, uma família aproveitando o dia, a alegria simples de estar junto.

Afinal, quantas vezes encontramos, em terras distantes, cenas que poderiam perfeitamente fazer parte da nossa própria vida?

O sorriso como linguagem universal

Durante o passeio, fizemos uma pausa para ir ao banheiro. Como havia muitas pessoas circulando pela medina, formou-se uma pequena fila, reunindo moradores locais e turistas.

Quando uma senhora saiu do banheiro, pareceu surpresa ao encontrar tantas pessoas diferentes reunidas naquele espaço. Olhou para nós e sorriu. Naturalmente, retribuímos o gesto.

Foi um momento breve, mas uma turista inglesa que estava ao meu lado comentou:

— Realmente, o sorriso é uma linguagem universal.

A frase ficou comigo.

Nossas culturas podem ser muito diferentes. Falamos idiomas distintos, seguimos religiões diversas, apreciamos músicas e culinárias próprias e nos vestimos de maneiras que refletem nossas tradições e escolhas. No entanto, naquele instante, nada disso foi necessário para estabelecer uma conexão.

Não precisamos conhecer a história daquela senhora, falar sua língua ou compartilhar suas crenças. Bastou um sorriso para que duas pessoas desconhecidas reconhecessem algo em comum.

Por alguns segundos, deixamos de ser turistas e moradora, estrangeiras de nacionalidades diferentes. Éramos apenas pessoas compartilhando o mesmo espaço e respondendo umas às outras com gentileza.

As muralhas de pedra continuavam ao nosso redor, mas as barreiras invisíveis que tantas vezes construímos entre nós pareciam menores.

Igualdade humana: diferentes na cultura, iguais em dignidade

Viajar tem a capacidade de nos colocar diante do desconhecido e nos fazer questionar aquilo que consideramos normal. Quando saímos do ambiente em que crescemos, percebemos que existem outras maneiras de viver, pensar, acreditar e compreender o mundo.

Aquilo que nos parece universal pode ser apenas um costume aprendido em nossa própria cultura.

Essa descoberta nos convida à humildade. Compreendemos que não somos donos absolutos da verdade e que nossas referências não são as únicas possíveis.

Isso não significa concordar com tudo ou abandonar nossos valores. Significa aprender a distinguir as diferenças do desrespeito e compreender que nenhuma tradição, nacionalidade ou religião torna uma pessoa superior a outra.

A igualdade não exige que sejamos iguais em tudo. Ela exige que reconheçamos o mesmo valor e a mesma dignidade em cada ser humano.

Independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da religião, do idioma, da condição econômica ou da maneira de se vestir, todos merecemos respeito. Compartilhamos necessidades fundamentais: afeto, segurança, pertencimento, esperança e oportunidades para construir uma vida digna.

As diferenças deveriam ampliar nossos horizontes, e não servir de justificativa para preconceitos e exclusões. Elas nos tornam singulares, enriquecem a experiência humana e nos permitem aprender uns com os outros.

O problema não está simplesmente em sermos diferentes, mas na maneira como escolhemos tratar aqueles que não se parecem conosco.

O que viajar nos ensina sobre empatia

Na medina de Asilah, percebi como podemos passar muito tempo procurando aquilo que nos separa e deixar de enxergar o que nos aproxima.

Uma mãe acompanhando os filhos, alguém oferecendo ajuda ou um desconhecido sorrindo são experiências que podem nos conectar, independentemente do lugar em que estamos.

Viajar também me faz perceber o quanto sou pequena diante da imensidão do mundo. Quanto mais conheço outras culturas, mais compreendo que minhas experiências representam apenas uma fração da realidade humana.

Somos uma grande comunidade espalhada por territórios aos quais demos nomes, traçamos fronteiras e atribuímos identidades. Essas divisões fazem parte da organização do mundo, mas não deveriam nos fazer esquecer que a vida de cada pessoa tem valor.

Também somos passageiros nesta existência. Cada pessoa tem suas crenças sobre a vida e sobre o que pode existir depois da morte. O que realmente importa, enquanto estamos aqui, é refletir sobre nossas atitudes: como tratamos as pessoas, como acolhemos quem é diferente e como cuidamos dos seres que não podem nos oferecer nada em troca.

Acredito que a grandeza humana não está na posição social, no país de origem ou na religião que professamos, mas na capacidade de reconhecer o valor do outro.

Aprender a olhar o mundo pelos olhos do outro

A experiência em Asilah me fez pensar que a empatia começa quando nos dispomos a enxergar o mundo para além das nossas próprias referências.

Olhar o outro com seus próprios olhos — ou, pelo menos, tentar compreender sua perspectiva — não significa abandonar nossas convicções. Significa reconhecer que nossa maneira de interpretar a vida não é a única possível.

Talvez não consigamos derrubar todas as barreiras ou eliminar os preconceitos de uma só vez. Podemos, porém, começar pelo espaço que nos cabe: ouvir antes de julgar, acolher sem discriminar, respeitar as diferenças e ter coragem de rever nossas próprias certezas.

Um sorriso não resolve todos os problemas do mundo, mas pode abrir uma porta. Pode diminuir a distância entre desconhecidos, iniciar uma conversa e lembrar que, antes de qualquer rótulo, existe uma pessoa.

Foi assim que uma senhora marroquina, uma turista inglesa e eu compartilhamos algo sem precisar de longas explicações. Um gesto atravessou idiomas, culturas e fronteiras.

Em um mundo tão diferente, que nunca nos falte humanidade

Esta crônica nasceu de um sorriso, mas a reflexão que ele despertou vai muito além daquele encontro em Asilah.

Não sabemos quantas pessoas cruzarão nosso caminho nem por quanto tempo compartilharemos esta jornada. Podemos, entretanto, escolher o que deixaremos em cada encontro: indiferença ou acolhimento, julgamento ou compreensão, distância ou proximidade.

Que nunca nos falte a capacidade de sorrir para quem é diferente de nós, nem a humildade de reconhecer que essa pessoa tem a mesma dignidade que desejamos para nós mesmos.

A igualdade começa quando deixamos de perguntar apenas o que nos separa e passamos a reconhecer o valor que existe em cada ser humano.

As muralhas podem proteger cidades, preservar histórias e atravessar séculos. As que construímos entre pessoas, porém, precisam ser questionadas, pois muitas vezes nos afastam de experiências capazes de ampliar nossa compreensão da vida.

Em Asilah, aprendi mais uma vez que não precisamos falar a mesma língua para nos entendermos, nem compartilhar as mesmas crenças para nos respeitarmos.

Em um mundo tão diverso, talvez uma das maiores demonstrações de humanidade seja esta: continuarmos diferentes, sem jamais esquecer que somos iguais em dignidade.

E, às vezes, tudo começa com um sorriso.

Antes, comente: é possível mesmo um sorriso fazer tanta diferença ou é conversa de escritor?

Por hoje é isso, meus queridos leitores. Tenham um resto de semana abençoada. Beijos sabor tâmaras do Marrocos.

1 comentário em “Sorriso, uma linguagem universal.”

  1. Que crônica pertinente para os dias atuais, querida.
    Sim, concordo que o sorriso faz muita diferença.
    Vivemos tempos intolerantes.
    Como seria bom que as pessoas se vestissem com seus melhores sorrisos.
    O mundo seria muito mais bonito.
    Amei.

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