
Barcelona e sua magia que se renova
Nesses dias em Barcelona, enquanto esperávamos o navio chegar para embarcarmos, aproveitamos para passear um pouco mais por essa cidade cheia de energia, movimento e vida.
Barcelona tem uma magia própria. Parece que a cidade muda de roupa a cada visita. As ruas amplas, cheias de gente caminhando, fazendo compras ou simplesmente sentada em algum banco de praça ou nas cadeiras de madeira espalhadas pela cidade, nos lembram de que a vida também é feita desses momentos simples que precisamos aprender a aproveitar.
As Ramblas, que estavam em obras, continuavam recebendo muitos turistas vindos do Portal de l’Àngel, uma rua movimentada e cheia de lojas, também conhecida pelos leitores das obras do escritor catalão Carlos Ruiz Zafón.
A partir das Ramblas, é fácil entrar por um dos muitos becos do Bairro Gótico e descobrir pequenas lojas peculiares, quase como esconderijos de duendes. Cada uma parece guardar uma história, um objeto ou uma surpresa.
Depois vêm os cafés e os bares de tapas (seus pequenos aperitivos), o presunto escuro local, os sabores intensos e a sangria aromática oferecida aos turistas. É Barcelona em seus sabores, suas cores, sons e contrastes.
Santa Maria del Mar: uma catedral diferente
Dessa vez, não fomos em busca das obras coloridas e das formas espirais de Gaudí. Preferimos permanecer pelo Bairro Gótico e visitar uma construção histórica que há séculos chama a atenção de quem passa por suas portas: a Basílica de Santa Maria del Mar, conhecida como a Catedral do Mar.
A primeira impressão é curiosa.
Santa Maria del Mar não é uma catedral carregada de ouro ou de ornamentação exuberante, como tantas outras que encontramos pela Europa. Sua beleza está justamente na simplicidade.
É uma construção austera, harmoniosa e imponente. Suas enormes colunas, seus espaços amplos e a luz que atravessa os vitrais produzem uma sensação difícil de explicar.
Ali, não é preciso excesso para provocar encantamento.
A construção da atual basílica começou em 1329 e foi concluída em 1383, durante o período do gótico catalão. Mas existe um aspecto de sua história que me tocou particularmente: a forte participação da população na construção do templo.
Os bastaixos e as pedras da Catedral do Mar
Entre os trabalhadores envolvidos estavam os chamados bastaixos, homens que transportavam pedras e outros materiais manualmente.
Eles carregavam nas costas aquilo que seria necessário para erguer uma igreja que permanece de pé quase sete séculos depois.
A própria basílica guarda referências a esses trabalhadores em seus elementos arquitetônicos, reconhecendo a importância daqueles homens simples para a construção do templo.
E não deixa de ser emocionante pensar nisso.
A Catedral do Mar não nasceu apenas da vontade de reis, nobres ou autoridades religiosas. Ela também foi construída pelas mãos de pessoas comuns.
Gente que carregava pedras sem imaginar que, séculos depois, outras pessoas atravessariam aquelas portas para admirar o resultado de seu esforço.
Foi nesse ponto que a história da Catedral do Mar começou a conversar comigo.
Nossa Catedral: o que estamos construindo?
Aqueles homens não ficaram esperando pelas condições perfeitas para começar, apenas colocaram a mão na massa: pedra sobre pedra, passo sobre passo sob um sol causticante, empreendendo tremendo esforço.
E construíram, apesar de tudo.
A imagem dos bastaixos esculpidas nos capitéis das colunas e na porta principal da Catedral ficou comigo.
Quantas vezes adiamos nossos projetos porque acreditamos que ainda não temos dinheiro suficiente, tempo suficiente, conhecimento suficiente ou as condições ideais?
Quantas vezes esperamos alguma coisa acontecer para, somente depois, começarmos?
Escrever estas linhas parece uma autoanálise.
E é.
Por muito tempo, venho postergando coisas à espera do momento certo. Imagino que muitos de vocês também façam isso.
Saí daquela basílica com a sensação de que os bastaixos tinham deixado uma mensagem para mim. Como se aqueles homens, depois de tantos séculos, me dissessem: “Se nós conseguimos carregar as pedras sem os recursos e equipamentos que você tem hoje, você também pode carregar as suas.”
A frase pode parecer simples, mas ficou ecoando dentro de mim. Não precisamos ter tudo para começar, mas apenas começar com aquilo que temos.
Os bastaixos não carregaram uma catedral inteira de uma só vez. Carregaram uma pedra. Depois outra. E mais outra. Assim, pedra por pedra, aquilo que parecia impossível ganhou forma.
E então me veio uma pergunta:
Que pedras estamos carregando para construir os nossos projetos?
Mais importante ainda: estamos carregando nossas próprias pedras ou esperando que alguém venha construí-las por nós?
A Catedral do Mar virou livro e série
A história de Santa Maria del Mar também ultrapassou as paredes da própria basílica.
Em 2006, o escritor espanhol Ildefonso Falcones publicou o romance A Catedral do Mar (La catedral del mar), ambientado na Barcelona do século XIV e tendo a construção da igreja como um dos grandes eixos da narrativa.
O livro acompanha a trajetória de Arnau Estanyol e apresenta uma Barcelona medieval marcada por conflitos sociais, desigualdades e pela busca por liberdade.
A obra ganhou grande repercussão internacional e, em 2018, foi adaptada para uma série de televisão.
É interessante pensar que uma construção iniciada pelas mãos de trabalhadores anônimos acabou inspirando, séculos depois, uma história que alcançou leitores e espectadores em diferentes partes do mundo.
A pedra permaneceu.
A história permaneceu.
E as mãos daqueles trabalhadores também permaneceram, de alguma maneira, registradas na memória de Barcelona.
O que os bastaixos me ensinaram
Quando saí da Catedral do Mar, tive a impressão de que alguma coisa havia mudado dentro de mim, como se aqueles homens humildes, acostumados ao trabalho pesado, tivessem aberto algumas gavetas da minha cabeça que estavam fechadas havia muito tempo.
Percebi que talvez eu estivesse esperando demais. Esperando condições perfeitas para começar coisas que poderiam simplesmente ser iniciadas.
Aquela visita me lembrou que grandes construções não acontecem de uma vez, mas aos poucos. Uma pedra hoje, outra amanhã. Mais uma depois.
E, quando percebemos, temos diante de nós algo que já não conseguimos imaginar sem aquelas pequenas pedras que um dia pareceram tão insignificantes.
Santa Maria del Mar continua de pé. E gosto de pensar que ela não é apenas uma basílica histórica de Barcelona. É também um lembrete de que sonhos precisam de mãos.
De que projetos precisam de movimento. De que a vontade, muitas vezes, precisa chegar antes dos recursos. E de que não precisamos possuir tudo para começar a construir aquilo que desejamos muito.
Enfim, que os bastaixos continuem nos inspirando e que a Catedral do Mar continue erguida. E sempre que a vida nos fizer acreditar que determinada construção é grande demais para nós, possamos lembrar: nenhuma catedral é construída de uma só vez. Ela começa com uma pedra. E alguém precisa ter coragem para carregá-la.
E você?
Qual é a “catedral” que está construindo em sua vida e qual é a primeira pedra que precisa ter coragem de carregar?
Respondam com a sinceridade do seu coração e logo voltarei aqui para responder.
Beijos, da cronista.
É isso, querida.
Para nos sentirmos motivados (motivacão intrínseca) é preciso saber o que estamos construindo.
Existe uma máxima antiga que fala sobre essa diferença. Se alguém pergunta para duas pessoas o que estão fazendo, a primeira diz “estou colocando tijolos um em cima do outro” e a segunda diz “estou construindo uma catedral” é fácil de imaginar qual está mais motivada em chegar ao fim. Aquela que consegue visualizar o valor de seu trabalho no todo.
Muitas vezes estamos tão sobrecarregadas que passamos os dias só cimentando tijolos sem saber bem no que isso vai dar.
As pedras ficam mais leves quando conseguimos ter uma visão dessa construção que, por vezes, precisamos ter a paciência e a perseverança dos bastaixos da Catedral do Mar.
Amei.
Gostei do “responda com sinceridade”. Pois bem, não sou uma pessoa tão viajada quanto a senhora e não sei a real razão da construção da basílica. Mas pelo seu texto foi construído a custo de muito trabalho de pessoas humildes, eu realmente não sei se à base de trabalho escravo, mas a construção desse lugar me faz pensar na construção das pirâmides do Egito. Construções que hoje não fazem o mínimo sentido. Mas como sempre é um prazer aprender e conhecer lugares através da sua crônica. Muito obrigado.