Bebê com cara
É sábado de manhã, o dia está bonito e minha filha, louca para sair de casa – como todo bebê nessa fase. Eu sei que ela não quer ficar apenas sentada em seu carrinho de passeio, de forma passiva, vendo a vida e os carros passarem diante de seus olhos. Sua cara de tédio se anuncia a quilômetros de distância, fazendo todos que passam por nós comentarem o mesmo: “que bebê com cara de brabo”.
Também sei que se formos pela rua Germano Hauschild, ela vai enlouquecer ao enxergar o parquinho. Resolvo, então, ir pela Bento Gonçalves. Vamos evitar a fadiga, caso eu não esteja a fim de leva-la nos brinquedos. Afinal, é sábado e, portanto, poderia ser o meu dia de “descanso”. Por outro lado, também é um dos poucos dias da semana em que minha filha pode ter um contato mais próximo com outras crianças, já que ela ainda não frequenta a creche.
Pra variar, coloco a pequena à frente dos meus desejos… Digo, resolvo leva-la à pracinha de diversões. Eu já sei, de cara, que quer ir no balanço. De lá, ela consegue ver outras crianças, que correm ao seu redor. Ela sorri, dá gargalhadas, como se ela mesma fizesse parte da brincadeira. Então, a mãe das duas meninas que estão na algazarra se aproxima de Mel e diz “e aí, cara?!”.
Cara ou princesa?
Cara?! Na hora, eu titubeio, quero imediatamente corrigi-la: “é uma menina, não está vendo?!”. Mas se fosse tão óbvio, ela teria acertado. Chego até a lembrar de minha mãe pedindo para colocar brincos em Mel, mas vejo que o chapéu que usa naquele momento cobre as suas orelhas. Olho para as suas roupas: neutras. E logo penso que, mesmo quando usa roupas com tema feminino, as pessoas costumam trata-la com pronomes masculinos.
Ao mesmo tempo, quero me sentir indiferente: tanto faz, é só um bebê, que ainda nem compreende sexualidade. Finjo indiferença e deixo a estranha pensar que está falando de fato com um menino. Mas aquilo me incomoda e não me parece que seja apenas pelo gênero… é esse “cara”… quem raios fala assim com um bebê?!
Pelo jeito, todo mundo. Por aqui, pelo menos… É muito comum se referirem a bebês meninos por “cara”, “fera”, “rapaz”. Por outro lado, os que sabem de antemão que a minha filha é uma menina querem chama-la de “princesa”. Princesa?! Eu sei que sou difícil de agradar, então, tento não recriminar os menos íntimos. De repente, entre “princesa” e “cara”, a pequena encontra um ponto de equilíbrio… quem sabe?
O feminino e o masculino
Lembro da minha mãe falando que correu para furar as minhas orelhas ao ver as pessoas me confundindo com um menino, quando eu era um bebê. Hoje, isso me faz pensar o quanto que um par de brincos, roupas cor de rosa e laços de cabelo influem na construção do feminino numa mulher. Penso se o feminino é de fato só isso: enfeites. Ou “ser o enfeite”, como uma princesa, uma figura tradicionalmente passiva, exemplo de comportamento, elegância e beleza.
Ao mesmo tempo, penso como que o “cara”, o “fera” e o “rapaz” constroem o masculino num homem. Ele tem que ser sério, destemido, arrojado, bruto. Enquanto a princesa é objeto, que procura conquistar o cara através da beleza, ele é suposto porto seguro, que acaba se apropriando dela. Ela recebe seu sobrenome e, quando não lhe serve mais, é descartada. Ela e os filhos.
Penso, então, que talvez seja assim que sigam subindo os números de feminicídios. Em todas as faixas etárias, inclusive. E se é assim, significa dizer que há algo na essência da cultura que não muda, mesmo se afirmando que as princesas modernas estão sendo retratadas de forma mais empoderada.
Personagens da vida real
Na loja de brinquedos, lá estão os mini carrinhos de supermercado cor de rosa e os mini carrinhos de bebê – um bebê que empurra outro, não deveria parecer surreal? Na frente da creche, as crianças nos contam sobre as suas atividades. Observo que um bebê menino entrega uma esponja a uma bebê menina para ela “lavar a louça”. Então, eu pergunto a ela “só você vai lavar a louça?” e ela responde “sim, ele vai brincar”.
É semana farroupilha e nas escolas estão os meninos engrossando as suas vozes para cantar músicas gauchescas e estufando os seus peitos para bater o pé na chula, enquanto as meninas se maquiam e usam seus longos e belos vestidos para servirem de pares no bailão. São prendas, porque são prendadas.
Logo, entraremos no Oktoberfest e lá estarão os homens em seus trajes de meninões atrapalhados, vulgo Fritz, e as mulheres em seus vestidos-aventais, ora com o colo à mostra, vulgo sexy Frida, ora não, vulgo Frida-recatada-e-do-lar, cuja loucura maior que faz na vida é beber cerveja ao lado de seu marido.
A mitologia se desenha a partir de uma figura masculina, que acaba ganhando uma companheira para encher os seus olhos e os dos outros. E a gente repete. É o Fritz e a Frida, é o gaudério e a prenda, o fera e a bela, o cara e a princesa. Um protagonismo iminente do homem em função da sua força.
Entre caras e princesas…
É uma pena que, desde bebês, os meninos sejam conduzidos a sustentar um papel tão duro, tendo que engolir seu choro, seus sentimentos. E, no final, acabem usando o seu protagonismo para apagar sujeitos femininos, simplesmente porque não tiveram a oportunidade de compreender as suas próprias subjetividades. É uma pena para eles, para elas, para toda a sociedade.
Entre caras e princesas, só posso esperar que a minha filha não se deixe apagar em seu próprio protagonismo.