Produtividade
Desisti de contar quantas vezes sentei de frente para o computador com uma ideia do que escrever e acabei tendo o pensamento castrado pelo despertar da minha filha. Quantas vezes me peguei tendo ideias enquanto fingia dormir ao seu lado, sem saber se eu deveria parar de fingir e aproveitar para me entregar ao descanso ou aproveitar para produzir. Mas sem saber quanto, de fato, produziria até o próximo despertar… uma linha, duas?
Minha mente objetiva de engenheira me levava sempre a nenhuma das alternativas. Afinal, sempre tem a louça pendente ou a comida caseira, saudável, balanceada e diversificada por fazer. O que poderia ser considerado “produtivo”, mas, depois de um ano, fabricando potinhos de alimentos recomendados, sem férias remuneradas ou pausa pra descanso, cozinhar se transformou apenas num dever a ser cumprido. O tipo de dever que quando você encontra uma oportunidade de abrir mão dele, você abre… nem que seja só pra comer pipoca e bergamota.
Vai melhorar…
Um ano se passou. E a gente que achava que, a essa altura, estaria dormindo mais e melhor, poderia assistir a mais filmes e seriados, que eu conseguiria praticar mais yoga, talvez, que nem naqueles vídeos do Instagram, mãe e bebê juntos no mesmo tapete… Nada mudou… Na verdade, a sensação é de regressão, porque, afinal, já dormimos mais e melhor, já passamos mais tempo de pernas pro ar vendo TV e eu já cheguei a praticar yoga cinco vezes por semana nesses últimos 365 dias.
Ah, é! O bebê dormia mais… Ah, é! Ele comia mais e mais rápido… Ele não tinha dentes rasgando as suas gengivas e o tornando irritadiço pra dormir, pra comer… Ele não tinha preferências, não era seletivo, não queria compreender o mundo ao seu redor, não tinha forças, mal se movimentava, mal interagia com objetos e pessoas…
Minhas amigas costumavam dizer que as coisas melhorariam com o tempo. Mas agora entendo o que melhora… Ver o bebê compreender o que você fala e procurando ser compreendido é realmente lindo de se ver. É mágico, é emocionante. Melhora a comunicação e, então, as vivências ressoam, porque, finalmente, começa a haver uma troca, digamos, mais justa entre dois seres humanos.
Mas e, então, vale a pena?
No entanto, em função da complexidade atual do Homo sapiens, as relações são naturalmente difíceis e com o bebê não poderia ser diferente, já que ele vai se tornando mais complexo à medida que se aprofunda na linguagem e que a sua psique se desenha. O ego vai se estruturando e, com isso, vai se dando a compreensão de “eu” e “meu”. Não se engane. Não melhora. A gente se acostuma, o nosso corpo se adapta. Os obstáculos se tornam cada vez mais robustos, mas passar por eles é como explorar sempre mais possibilidades de existência. É rico, é precioso.
Hoje, entendo que questionar se vale a pena ter filhos é como se perguntar se vale a pena explorar o viver. Viver diferentes relações, viver a mesma relação de diferentes formas, viver no seu limite, como ter que subir numa ponte e se jogar dela amarrada a uma corda todos os dias e várias vezes ao dia. Só que cada vez que você sobe lá, tem uma vista diferente. O relacionamento que você tinha com o seu parceiro se coloca constantemente à prova. O que você tinha de estável, agora, está tentando se equilibrar na ponta de um dedinho do pé.
Antes da minha filha, tudo estava tão calmo e confortável (apesar dos pesares, afinal, a completude é intangível), que parecia haver espaço para esse serzinho em nossas vidas. Não havia. Nunca há, pois o lugar que ele ocupa é muito maior do que a nossa vida pode comportar. De repente, deixamos de existir para nós mesmos. E essa me parece ser a maior prova do nosso ego: devo me amar para existir, mas devo abrir mão desse amor para fazer um outro sujeito surgir.
Se vale a pena..? Depois que existe, vale.
Parabéns Déborah!
Vc está de volta com seus artigos provocativos e que nos fazem refletir bastante!
E como não poderia deixar de ser, em alto estilo, trazendo uma experiência única e sublime que é a de ser mãe. Dizem que ser mãe é padecer no paraíso!
Eu já acho que é a primeira grande experiência e aprendizado rumo ao “amor incondicional”, já que este é o grande objetivo de todo ser humano.
portanto, a meu ver, vale a pena sim, pois é quando damos um grande passo em busca da nossa melhor versão.
É isso aí… uma experiência realmente única e transformadora! Força! 🙂