
A ferrugem invisível da vida
Estava, esses dias, em casa, organizando o pequeno apartamento que temos em Natal, quando percebi manchas de oxidação — a famosa ferrugem — em alguns pontos da porta de um forno de parede.
Corri até o armário de produtos de limpeza, peguei frascos de todos os tamanhos e comecei a esfregar com força, tentando remover aquela marca que sei: cedo ou tarde, pode se intensificar.
Consegui retirar um pouco, mas não completamente. O forno continua funcionando, mas agora observo com atenção se a mancha vai crescer com o tempo. Sei que, em uma cidade como Natal, tão marcada pela maresia, isso era possível, por mais cuidado que se tenha. Ainda assim, não fiquei conformada com o que vi.
A maresia que não vemos, mas sentimos
O tempo, a umidade, o ar e o sal presentes na maresia deixam marcas silenciosas, e não há muito o que fazer. No futuro, talvez optemos por materiais inoxidáveis, que resistam melhor. Talvez.
Frustrada, comecei a pensar em como tantas coisas acontecem sem que percebamos e, de repente, nos vemos diante de um dano a ser administrado.
A maresia da vida também é invisível, mas constante. Ela vai corroendo, aos poucos, as pequenas engrenagens de nossas estruturas e, quando nos damos conta, algo já está comprometido.
As engrenagens da vida cotidiana
São os problemas e suas nuances. No trabalho, nos relacionamentos, na individualidade de cada um.
Nossas dobradiças são corroídas diariamente pela maresia dos “nãos”, das portas fechadas, da falta de reconhecimento, da ausência de estrutura, da frustração de planejar algo que não acontece. Pelas nossas falhas e pelas falhas dos outros.
Rangemos quando o comportamento que esperamos de alguém nos decepciona — sejam amigos, parceiros ou familiares. O descaso, a desvalorização e a negligência nos relacionamentos fazem barulho, mesmo quando tentamos ignorar.
Quando nos colocamos sempre por último
A ferrugem se acentua quando descuidamos de nós mesmos, quando nos colocamos sempre por último. É a viagem que pode esperar, a academia adiada, o check-up postergado. É o mimo que, por ser para nós, parece dispensável.
Sem perceber, vamos repetindo a mesma mensagem: não sou importante. O corpo e a mente internalizam isso e, quando vemos, começamos a ser tratados assim também — um efeito silencioso da ferrugem da maresia da vida.
O desgaste emocional que corrói a alma
O mau humor constante, as reclamações, a falta de empatia, a dificuldade de agradecer, de ajudar, de ouvir e de estar verdadeiramente presente causam danos profundos à alma.
Sei que muitos de meus leitores têm uma vida corrida. Mas talvez tenha chegado o momento de se perguntar: para onde estou correndo? Onde fica essa linha de chegada que nunca alcançamos? Será apenas o fim da vida?
E, se for, queremos viver até lá assim? Movendo-nos enferrujados, machucados física e emocionalmente, rangendo por dentro?
Pequenos cuidados que nos desenferrujam
Não.
Precisamos de tempo para nos conhecer, para entender por que estamos aqui, o que faz sentido, o que nos faz felizes de verdade.
Muito da nossa ferrugem pode ser evitada. Não toda — somos humanos, e nosso material é altamente oxidável. Isso faz parte da nossa natureza.
Mas pequenas atitudes nos desenferrujam: sermos gratos, gentis, solidários, respeitosos e justos, sempre atentos ao bem comum. Afinal, não sabemos o fardo que cada pessoa carrega.
Poderia citar muitas outras coisas, mas deixo a reflexão final para cada um de nós:
O que posso fazer hoje para diminuir a ferrugem da vida?
Comentem que já virei ler e responder.
Um grande abraço de sua cronista.