SAÚDE: POLIOMIELITE VOLTA A SER UM RISCO NO BRASIL EM MEIO À BAIXA COBERTURA VACINAL

Erradicada há 30 anos, poliomielite volta a assombrar o Brasil em meio à baixa cobertura vacinal

Em campanha oficial desde 1980, a taxa vacinal cai desde 2015 e chegou a 67,8% no ano passado. Os fatores vão de notícias falsas à ausência de campanhas de imunização. Especialistas são unânimes em afirmar que a doença pode voltar. A polio atingiu cerca de 26 mil crianças entre 1968 e 1980.

SEXTA, 20/05/2022, 06:38Bem-estar & Saúde

A cobertura vacinal contra a polio cai desde 2015 e ano passado atingiu a marca de 67,8% em 2021. Foto: Reprodução/ Portal Rolândia Flickr (Crédito: )A cobertura vacinal contra a polio cai desde 2015 e ano passado atingiu a marca de 67,8% em 2021. Foto: Reprodução/ Portal Rolândia Flickr

POR DEBORAH FORTUNA (deborah.fortuna@cbn.com.br)

Erradicada há 30 anos, a poliomielite volta a ser um risco no Brasil, após queda na taxa de vacinação. Sobreviventes da doença são unânimes: vacina salva e evita as sequelas que o vírus traz. Queda da imunização tem vários fatores e ocorre desde 2015. Especialista diz que faltam campanhas para incentivo em massa.

O que parecia ser um passado enterrado, voltou a assombrar. Em meio à baixa taxa de vacinação contra a poliomielite no país, especialistas são unânimes: a doença pode voltar. A poliomielite atingiu cerca de 26mil crianças entre 1968 e 1980. E as que sobreviveram garantem que tomar a vacina faria toda a diferença. A queda na imunização é um marco lamentável para a história do país hoje.

Sandra Ramalhoso tinha apenas três meses quando começou a ter febre. O ano era 1963. Depois do diagnóstico da poliomielite, foram várias as tentativas de salvar a criança: ela chegou a usar um pulmão de aço — um equipamento cilíndrico que permite respirar em casos de paralisia dos músculos.

‘Minha mãe conta que eu parecia um trapo um pano, não tinha forças, não sustentava minha cabeça, não mexia os braços nem pernas.’

A paralisia atingiu as pernas de Sandra, e ela também tem dificuldades em mover os braços. Depois de sobreviver, foram anos para tratar a doença: cirurgias, fisioterapias, exercícios. Na adolescência, usou duas órteses, e apenas depois das muletas é que aprendeu a subir e descer escadas.

‘Eu, como mulher, como vocês imaginam que eu usava absorventes? Frequentava escolas? São coisas que as mães, os pais não pensam no risco que seus filhos estão correndo? Risco dessa doença voltar, de trazer novos casos. Eu fico pensando: como você não evita uma doença sabendo que ela evitável?’, lamenta.

Apesar de já ter vacina disponível anos antes, foi apenas nos anos de 1980 que o Ministério da Saúde lançou a primeira campanha oficial contra a doença. A taxa, no entanto, vem caindo desde 2015 e chegou a 67,8% no ano passado.
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Antes da vacina, em 1953, Zilda Reis conta que viu a filha cair e não levantar mais. Era poliomielite. O diagnóstico veio depois de dez mil cruzeiros gastos em consultas. Na época, quando o médico disse que a filha não iria mais andar, Zilda nem sequer conhecia o vírus.

‘Com dois anos de doença, ela começou a mexer os dedinhos do pé. No dia que ela mexeu, eu agradeci tanto. Era um sinal que estava voltando aos pouquinhos. Eu sei que para mim, era um sofrimento. O sofrimento é eterno’, lembra.

Um sofrimento eterno inclusive para Josete Lacerda, que contraiu a doença em 1967, quando já dava os primeiros passos. As sequelas permanecem até hoje, e desde 2015, Josete tem a chamada síndrome pós-polio, uma síndrome que após um período de estabilização, pode provocar nova perda das funções musculares.

‘comecei a apresentar essa fraqueza, a busca por esse diagnóstico que foi uma luta muito grande. O conhecimento ainda é muito pouco. Porque realmente nós fomos esquecidos’. E ela também tem um recado: ‘Só quem teve pólio, só quem sofre as consequências da pólio sabe o que é esse vírus por falta de uma gota. Se eu tivesse tomado uma gotinha, eu não estaria hoje numa cadeira de rodas’.

Os fatores para a queda da vacinação são variados: movimentos antivacina, circulação de notícias falsas, mas principalmente ausências de campanha de vacinação em massa.
O pesquisador Fernando Verani, da Escola Nacional de Saúde Pública da FioCruz, avalia que faltam incentivos. O problema, segundo ele, é que os casos podem chegar por outros se o Brasil não estiver com mais de 95% de cobertura vacinal – como ocorreu com o sarampo, erradicado em 2016, mas que voltou dois anos depois. Mas o pesquisador garante: ainda dá tempo de evitar o pior – se as campanhas aumentarem.

‘O fato de não haver poliomielite não quer dizer que não podemos ter se pararmos de vacinar. Sim, podemos. Ainda há tempo de se reverter se começarmos ontem. O Brasil tem uma estrutura do SUS fabulosa, jamais podemos esquecer disso, é preciso mobilizar. Falta uma política que foque em estratégias mais concretas do que foram feitas no brasil e deram resultado’.

A luta, agora, é para evitar que o Brasil caminhe os mesmos passos de Israel ou Malawi, onde a doença estava erradicada, mas voltou a registrar casos neste ano por causa da baixa vacinação. A campanha aqui, no entanto, ainda enfrenta desafios: por meses o Programa Nacional de Imunizações ficou sem um chefe titular, desde que a coordenadora se demitiu em julho do ano passado. Uma nova coordenadora só foi nomeada em abril. Além disso, a pasta diminuiu entre 2020 e 2021 o gasto com publicidade para vacinação contra a poliomielite. E o alerta continua.

Fonte: CBN

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