ECONOMIA: A BOMBA ATÔMICA DAS SANÇÕES ECONÔMICAS E SUAS PROVÁVEIS CONSEQUÊNCIAS

O destaque deste domingo, aqui na coluna ECONOMIA do Blog do Saber é sobre as prováveis consequências das sanções econômicas lançadas sobre a Rússia na tentativa de cessar o conflito entre Rússia e Ucrânia. O artigo a seguir elenca todas as sanções provocadas pela OTAN e os países do ocidente contra a Rússia e esclarece sobre as prováveis consequências. Você vai entender tudo que está acontecendo nesse tabuleiro de xadrez.

As devastadoras e atômicas sanções lançadas pelo Ocidente contra a economia russa

E suas prováveis consequências

 

Desta vez, Vladimir Putin conseguiu a façanha de unir o mundo em oposição. Mas suas propensões autoritárias e expansionistas não são surpresa para quem acompanha sua trajetória.

Já em sua primeira campanha eleitoral, em 2000, Putin foi questionado por uma jornalista como era ser um candidato ex-agente da KGB. Respondeu com sorriso malicioso: “Não existe tal coisa como um ‘ex-agente da KGB'”.

Sua primeira grande crise ocorreu quando 42 terroristas chechenos tomaram 850 reféns em um teatro de Moscou. As forças especiais russas chefiadas por Putin (as Spetsnaz) empregaram agentes químicos, que mataram 39 sequestradores e 130 reféns, incluindo 9 estrangeiros.

Em 2003, fechou a última emissora independente de TV e tornou ilegal que a mídia comente sobre eleições. Em 2004, passou a nomear os governadores. Em 2005, afirmou que o colapso da União Soviética foi “o maior desastre geopolítico do século”. Eliminou inimigos políticos, muitos alegadamente com veneno, coagiu e aliciou os oligarcas e colocou as principais empresas russas sob sua órbita.

Ao menos desde 2008 Putin já vociferava que, caso a Ucrânia aderisse à Otan, anexaria a Ucrânia do Leste e a península da Crimeia. O Ocidente ignorou e preferiu pagar para ver. Naquele ano, Ron Paul votou ‘não’ à proposta do governo Bush de expandir a OTAN alertando que “a expansão da OTAN poderá envolver os Estados Unidos militarmente em conflitos que não são de interesse nacional”.

As seguidas trapalhadas de política externa dos EUA e da OTAN não justificam a anexação da Crimeia em 2014, território ucraniano desde 1954. Putin violou a soberania da Ucrânia e zombou do Direito Internacional ao empenhar soldados sem insígnias. De lá para cá, as hostilidades entre as partes se acentuaram e Putin optou pela agressão aberta.

É de se imaginar, porém, se Putin realmente vislumbrou a potência e a extensão da reação internacional, que simplesmente desconectou a Rússia do resto do mundo por intermédio de uma “bomba atômica financeira” e a tornou pária instantaneamente.

Já se imaginavam sanções a indivíduos, até agora implementadas contra cerca de 700 oligarcas, empresários e membros do círculo de poder, que tiveram seus bens congelados na Europa e nos EUA.

Mas as sanções financeiras contra toda a economia russa foram devastadoras.

Um curto resumo

Até o momento, eis um sucinto resumo destas sanções.

* A comunidade internacional desconectou vários bancos russos do Swift, uma rede de facilitação de transferências financeiras, composta por 11 mil bancos. Embora a medida tecnicamente não impeça que a Rússia efetue transações internacionais, a sanção torna estas transações muito mais custosas, trabalhosas e demoradas.

* Adicionalmente, vários bancos russos também sofreram sanções. O Sberbank, que é maior banco russo, teve da anunciar sua saída do mercado europeu. Suas ações caíram 99% na bolsa de Londres (confira o gráfico). O banco está sendo liquidado na Áustria. Na Croácia e na Eslovênia, está repassando a carteira para quem se dispuser a comprar. Na República Checa, precisa aparecer com um depósito bilionário até o fim do dia ou será liquidado. Para completar, o banco está sofrendo uma corrida bancária da parte de seus clientes. Não tem como durar.

* A British Petroleum, maior investidora estrangeira na Russia, anunciou sua saída do país ao se desfazer da participação de 20% na estatal Rosneft.

* A Shell também desfez sua parceria com a Gazprom.

* A Equinor, maior companhia de energia da Noruega, também está saindo do país.

* E a Exxon também se juntou ao grupo.

* GM, Ford, Volvo, Daimler Truck, Renault e BMW informaram que interromperam exportações para a Rússia, bem como parcerias com empresas locais.

* Boeing e Airbus suspenderam suas operações no país. A Boeing não irá mandar peças de manutenção.

* A Apple também parou de vender seus produtos no e para o país.

* Visa, Mastercard e Amex bloquearam seus sistemas e estão impedindo os bancos russos de utilizarem suas redes. Na prática, ninguém mais pode utilizar cartão de crédito na Rússia.

* Todos os produtos da Nike estão indisponíveis no país.

* As principais empresas mundiais de transporte marítimo de carga suspenderam todo o transporte de contêineres para a Rússia. Maersk, MSC, Hapag Lloyd, Ocean Network Express não transportam mais nada para o país.

* EUA, Canadá e União Europeia fecharam seu espaço aéreo para companhias aéreas russas. Russos precisam recorrer a aviões da Turkish Airlines (a Turquia não boicotou a Rússia). O Canadá também fechou seus portos para navios russos.

* A Rússia, portanto, está isolada economicamente, pelo ar e pelo mar. Trata-se de um colapso total no comércio internacional do país. Na prática, o país voltou a viver em uma situação de autarquia, e podendo utilizar apenas dinheiro de papel (Apple Pay e Google Pay também pararam de funcionar).

A mãe de todas as sanções

Porém, a ‘sanção atômica’ visando a fechar as torneiras da guerra e desestabilizar a Rússia financeiramente foi o congelamento das gigantescas reservas internacionais (US$ 630 bilhões) do Banco Central russo.

Quem acompanha este Instituto sabe que não existe isso de dólares (ou euro) “entrarem em um país”. Dólares eletrônicos nunca saem dos EUA. Assim como euros eletrônicos nunca saem da Europa. Dólares, no formato de dígito eletrônicos, só ficam depositados em bancos americanos. E euros eletrônicos só ficam depositados em bancos europeus (o mesmo, obviamente, vale para franco suíço, libra esterlina e iene japonês: todos estes ficam apenas no sistema bancários de seus respectivos países).

Logo, quando um Banco Central estrangeiro (seja da Rússia ou mesmo do Brasil) quer utilizar os dólares (ou euros) de suas reservas internacionais, eles inevitavelmente têm de recorrer a bancos americanos (ou europeus). Isso foi explicado em detalhes aqui.

Igualmente, Bancos Centrais estrangeiros também detêm títulos do governo americano e dos governos europeus. Estes títulos ficam custodiados em seus respectivos países. Se estes governos se recusarem a convertê-los para suas respectivas moedas quando demandados por uma instituição estrangeira, nada feito.

Sendo assim, da noite para o dia, o Banco Central russo perdeu acesso aos US$ 630 bilhões que possuía em suas reservas internacionais (a título de comparação, as reservas internacionais do Banco Central do Brasil são de “apenas” US$ 360 bilhões). Com a instituição sem acesso às suas reservas, ela perdeu totalmente sua capacidade de vender dólares e euros para estabilizar o rublo.

Como consequência desta medida, e em conjunto com todas as demais sanções anunciadas, houve uma brutal especulação baixista contra o rublo, que derreteu.

O gráfico abaixo mostra a evolução da taxa de câmbio rublo/dólar.

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Gráfico 1: evolução da taxa de câmbio rublo/dólar

Ao fim do ano passado, eram necessários 70 rublos para se comprar um dólar. Agora são necessários 106 rublos, um encarecimento de mais de 50%.

Isso obrigou o Banco Central russo a disparar a taxa básica de juros para 20%, em uma tentativa de tentar conter a desvalorização.

O Banco Central russo pode vender ouro em sua posse (o ouro, de fato, está nos cofres da instituição), mas só para portadores de rublo. Já ajuda bastante, inclusive para secar a base monetária, mas o efeito sobre o câmbio demorará mais que a venda direta de dólares.

O objetivo dos EUA e da União Europeia era exatamente este: derreter o rublo.

Um derretimento semelhante (porém menos intenso), aliás, aconteceu ao fim de 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e o país sofreu sanções da União Europeia (as quais nem de perto se comparam às atuais). Naquela ocasião, o rublo se esfacelou. O dólar saltou de 33 rublos para quase 80 rublos em um ano e meio (vide o gráfico 1). A inflação de preços encostou em 18%. A taxa básica de juros subiu de 4,75% para 17% em poucos meses. E o PIB caiu 4% (em momento de expansão mundial).

Naquela ocasião, Putin conseguiu se segurar. Será um pouco mais difícil bancar essa agora.

Os contra-ataques

Como medidas de contra-ataque, o governo russo impôs controle de capital e proibiu estrangeiros de venderem ativos russos. O intuito é afetar diretamente investidores da União Europeia e dos EUA, cujos fundos investem em ativos russos.

A consequência mais direta é que estrangeiros em posse de ativos russos não mais podem vender estes ativos em troca de rublos para então conversar os rublos em dólares. E isso está dando algum suporte ao rublo. O rublo estaria muito pior não fosse isso.

Adicionalmente, a Rússia anunciou um calote no pagamento de seus bonds (títulos emitidos em moeda estrangeira) para estrangeiros. Nem tinha como ser diferente.

Agora, já entrando na economia real, a Rússia suspendeu a venda da fertilizantes para o mundo, inclusive para o Brasil. Rússia, Ucrânia e Bielorrússia são os maiores fornecedores. A encrenca é que a Lituânia fechou as fronteiras e, com isso, impediu acesso ao corredor logístico.

Já os preços do trigo e do milho dispararam. A Rússia é o quarto maior produtor de trigo do mundo e o maior exportador. A Ucrânia é o sétimo maior produtor e está entre os quatro maiores em embarques. Juntos, os dois países respondem por cerca de 30% das exportações mundiais de trigo. E ambos os países são grandes exportadores de milho para a China.

E tornaram-se também grandes exportadores de óleo de soja.

Eis a evolução dos preços do trigo, do milho e da soja, em dólares:

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Gráfico 2: evolução do preço do trigo, em dólares

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Gráfico 3: evolução do preço do milho, em dólares

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Gráfico 4: evolução do preço da soja, em dólares

E, obviamente, o mais impactado de tudo foi o petróleo. A Rússia é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e o maior exportador de gás. Com o comércio fechado para o país, e com as sanções, o barril do tipo Brent saltou de 80 dólares no início deste ano para 111 dólares.

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Gráfico 5: evolução do preço do barril de petróleo do tipo Brent, em dólares

Por ora, alimentos e energia ficarão ainda mais caros para o resto do mudo.

Outro grande risco está no sistema bancário mundial.

Ao se desplugar a Rússia financeiramente, materializa-se o grave risco de contágio de bancos e empresas estrangeiras, que podem sofrer atrasos de pagamentos e calotes. E evaporam-se os mais de US$ 300 bilhões que a Rússia disponibiliza ao sistema financeiro no overnight, que será um choque nos bancos do Ocidente.

Para concluir

O Kremlin afirmou que “as sanções são problemáticas, mas a Rússia tem o potencial de neutralizá-las”. Pouco provável.

Ao que tudo indica, as sanções só serão revertidas se Putin se retirar da Ucrânia. Ou então renunciar. Mas as chances desta última são ínfimas.

O povo russo será o mais afetado pelo impasse. Com a economia esfacelada, os riscos da reação de Putin – no limite, a continuidade da escalada bélica – são enormes. A sanção atômica financeira pode ser percebida pelos russos como uma renúncia das tradicionais e ensaiadas regras de “escalada gradual”, tornando-se um ato de guerra análogo ao bloqueio total do comércio e do sistema bancário.

A Rússia, vale repetir, está neste momento isolada do comércio por ar e mar, vivendo em autarquia e utilizando apenas papel-moeda físico. E com uma perspectiva de hiperinflação e acentuado empobrecimento.

As reações do chefe de estado perante esta situação são completamente imprevisíveis, principalmente quando se sabe que ele tem acesso a quase 6 mil ogivas nucleares.

Fonte: Mises Brasil

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