CRÔNICAS: PEDAL DO CONTRAPONTO DE MARIA ELZA BEZERRA CIRNE

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos mais uma bela crônica da talentosa escritora potiguar Maria Elza Bezerra Cirne, Pedal do Contraponto”, que fala sobre a praia de Muriú e suas mais longínquas e agradáveis recordações dos muitos veraneios de sua infância e juventude, sempre com o rebuscado cuidado de contar um pouco da história e fatos do cotidiano de cada lugar que a autora cita em suas CRÔNICAS.

PEDAL DO CONTRAPONTO

Dia tão azul, maré seca de lua cheia e um convite para pedalar na beira-mar.

Uma avó que quer se manter ativa e um infinito chão de areia. Mesmo com a preguiça do veraneio, mergulhei no passeio de bike.

Nem ouvi o vento passar, fui no sota-vento, tomando banho de sol e de recordações dessa praia que me acolhe desde a infância.

Muriú sem as placas e samburás da época do Prefeito Ruyzinho Pereira, que diziam: povo desenvolvido é povo limpo.

As correntes marítimas despejam o lixo do povo subdesenvolvido em educação depois do Porão, na parte deserta da praia, uma pena!

Alguns castelos de areia, enquanto mães ou babás dividem-se entre um olho no celular e outro na criança. Na hora de precisão, não sei quem vão acudir primeiro…

Pedalando sem esforço, cheguei até a Prainha antes de Barra de Maxaranguape.

Quando dei meia volta, ouvi o vento passar. Vento forte em pleno Janeiro. Pernas curtas para que te quero? Contra o vento, a força é como subir uma ladeira, castiga!

Para encurtar o caminho, passar o tempo e o vento, o jeito foi ver os contrapontos do tempo.

Praia de Muriú

As mansões do Porão estão lá e não estão. A lagoa secou, levou nas águas os acampamentos de Petit das Virgens e Domingos Guará, as piabas que beliscavam e o morro que servia de trampolim para meninada.

As casas da Cafuringa continuam quase as mesmas. Lembrança da disputa entre aquele pedacinho da praia e Boi Choco, na Festa de São Benedito.

A nossa antiga casa de frente à praça da Igreja bem cuidada. A mesma praça que acolhia os telespectadores da primeira televisão no início dos anos 70, quando Frei Damião veio inaugurar a energia elétrica.

Lembrança do posto da TELERN, a única comunicação disponível quando não existia telefone fixo nas casas, nem celular.

Saudades da alegria de Aécio, dos dindins de D. Jacira, da mesa de King ou Copas com papai, vovô José Bezerra, Dr. João Maria, Seu Manoel Pereira, Betinho e Paulo Eduardo (quando estava por essas bandas).

O velho trapiche das serenatas não está mais lá, mas os barcos a motor e esparsas jangadas continuam ancorados para descanso no mar.

O sargaço nunca deixou de exalar o cheiro de maresia. Atravessei o tapete esparramado na areia sem muita dificuldade, cheguei de volta a Porto Mirim. Antes, desabitado; hoje, repleto de casas de veranistas.

Cansada, esgotada, mas com o coração cheio de recordações, entrei em casa. Uma sensação de alívio por me manter ativa.

Nada melhor do que um passeio de bicicleta para enxergar a cidade ou praia por outros ângulos.

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