CRÔNICAS: EU ESTOU FODA-SE! POR ANA MADALENA

Hoje você vai ler mais uma maravilhosa e irada crônica da nossa incrível Ana Madalena que tem uma imaginação super fértil. Desta vez ela nos presenteia com um conto fenomenal acerca de uma peça do vestuário feminino chamada “Cropped’. Uma minúscula blusinha que deixa a mostra a metade da barriga e o umbigo. Sua imaginação vai tão longe que retroage na moda dos anos 40 e volta até os nossos dias citando a inesquecível e incrível Marília Mendonça que consegue criar com um cropped a expressão “Eu sou foda-se”!

Marília Mendonça aparece de top cropped e afirma: ''É por que eu estou magra?''

Eu estou foda-se!

Era uma vez uma mocinha chamada Gabriela, que um dia foi convidada para sair com um rapaz. Ela ficou eufórica, mas infelizmente sua futura história de amor chegou ao fim antes mesmo de começar.  Gabriela “levou um bolo” e ficou numa profunda tristeza. Sua irmã resolveu dar uma força e tweetou:
 –  Vai mulher, reage, coloca um cropped!
Em pouco tempo a publicação atingiu altos níveis de compartilhamento e como por encanto, a Internet arranjou uma solução prática e simples para espantar os problemas e desânimo das pessoas. Colocar um cropped virou um grito de liberdade!

E também a peça de roupa do momento, embora tenha surgido na década de 30, usado principalmente nas roupas de banho. Já na década de 80, virou tendência, no estilo DIY,  Do it yourself – faça você mesmo, quando “uma galera” passou a tesoura nas suas blusas longas. A indústria da moda, percebendo esse movimento, caiu em campo; o cropped voltou repaginado, atendendo a todos os corpos, ajudando  mulheres a se desligar das pressões estéticas.

A moda é assunto sério, embora para alguns seja apenas um pedaço de tecido. Dois psicólogos de uma universidade americana cunharam o termo ” cognição indumentária” para explicar como a roupa que usamos tem interferência sistemática nos processos psicológicos de cada um, transmitindo sensações, como auto-estima e poder. Quem nunca “se sentiu” com uma roupa?

A primeira semana de moda do mundo aconteceu em 1943, chamada de “Press Week”; tinha como objetivo apresentar as coleções parisienses para quem não pôde viajar até a capital francesa, depois da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, muito mudou; atualmente a maior revolução da moda  é oferecer aos clientes as roupas que acabaram de “passear” nas passarelas. No ano passado a griffe Burberry instituiu os desfiles “see-now-buy-now”, “veja agora, compre agora”, resultado da popularização das redes sociais e dos tapetes vermelhos, que transmitem ao vivo os desfiles, despertando no consumidor o desejo de adquirir  imediatamente o que foi apresentado.

Um estudo feito sobre o impacto das redes sociais e o consumo  concluiu que o consumidor está cada dia mais imediatista e não tem paciência para esperar que os lançamentos demorem meio ano para chegar às lojas. Esse fenômeno comportamental deve-se ao fato de hoje tudo ser muito rápido e os “looks” serem exibidos à exaustão, tornando o produto praticamente “fora de moda”, seis meses depois, ao chegar nas araras. No Brasil, as próximas semanas de moda terão apenas desfiles com roupas que possam ser comprados imediamente. Alguns fabricantes estão pessimistas,  dizem que é um tiro no escuro, que não sabem se o produto vai ser bem aceito, além do risco de um investimento alto. Realmente não é fácil fabricar algo que agrade multidões, além, óbvio, do fator econômico, que tanto atinge o empresariado, quanto o consumidor. Com a pandemia e o isolamento, o setor sofreu bastante.

A industria da moda é a segunda mais poluente do mundo, perdendo apenas para o setor de petróleo. Essa posição no ranking é creditada ao “fast fashion”, nome dado pela rapidez que as grandes marcas lançam novas coleções, hoje, a cada duas semanas. O “fast fashion” é um conceito no qual a produção, o consumo e o descarte de uma peça de roupa tem um ciclo muito rápido. O lixo têxtil, resíduos oriundos das confecções, não tem valor no mercado de reciclagem e terminam no lixão.

Contrapondo com a rapidez do “fast fashoin”, já existe o movimento “slow living”, que consiste em um estilo de vida mais tranquilo e cuja filosofia pode ser utilizada em vários setores. O “modo slow” nasceu na Itália, em 1986, quando um ativista protestou contra a abertura de um restaurante fast food em Roma. Ele pregava o “slow food”, que consiste numa alimentação sustentável, prestigiando os produtores locais. Vale lembrar que o movimento “slow” não quer dizer moroso, nem muito menos preguiçoso. Ele oferece a possibilidade de vivermos o presente, pois geralmente projetamos o futuro, ou relembramos o passado, enquanto que a correria nos desliga do presente, que é o único tempo que a vida acontece de verdade. Na moda, o “slow fashion” é baseado em reduzir as compras para  um número menor de peças, mas com estilo e qualidade de  produtos. Esse movimento tem por objetivo convidar as pessoas a repensar seus hábitos e estilo de vida, pois a correria do dia a dia, além da quantidade de informações a que somos submetidos, resultou no adoecimento das pessoas e, não por acaso, a ansiedade é a doença do século.

Assisti a um show de Marília Mendonça, onde ela estava vestindo um cropped;. em determinado momento ela disse:

– Eu queria dizer que hoje eu estou inaugurando o uso de um cropped na minha vida. É por que estou magra? Não, não é.  Eu não estou magra. Eu estou foda-se!

A plateia foi ao delírio e esse vídeo viralizou rapidamente, como tudo que Marília fazia. Segundo ela, a decisão de usar a famosa blusinha com acabamento acima do umbigo significava a liberdade de poder vestir o que gosta e não se importar com críticas. E cá pra nós, ela soube, como ninguém, levantar o ânimo da mulherada. Ela e Gabi, que criou o @menibadocroped e desde então a lista para o uso da frase não pára:

-Está infeliz? Reaja e coloque um cropped!
-Está com problemas financeiros? Reaja e coloque um cropped!
-Está preocupada com o futuro da humanidade? Reaja e coloque um cropped!

E eu pergunto: ficou com preguiça de ler essa crônica? Reaja e coloque um cropped! Eu vesti o meu para lhe escrever!

Ana Madalena

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