CRÔNICAS: EPÍLOGO, POR ANA MADALENA

Estamos de volta, nesta quarta-feira, com a coluna CRÕNICAS, onde a nossa maravilhosa escritora colaboradora, Ana Madalena, nos brinda com mais uma das suas incríveis e criativas histórias bem contadas. A de hoje é uma homenagem aos amigos e em particular ao amigo querido, de longa data, que como ela mesma diz: “o mais divertido de toda a turma”, foi levado na semana passada pela Covid-19. O saudoso George Brasil.

Recordar é Viver…” | Get Ready To Rumble

“Estamos por aqui de passagem…
E nessa brevidade mágica 
Temos o compromisso com a felicidade…
Estamos por aqui de passagem
Somos tão breves e pequenos
Quando olhamos através das estrelas…”
         Passagem, Luciana Costa

Epílogo

Ah os amigos, que falta eles fazem! Um ano sem vê-los… Éramos felizes só por estarmos juntos. Aliás, eu até prefiro a intimidade das amizades do que diluí-la em festas. Talvez eu seja carente, mas quer coisa pior do que uma confraternização com mesas quilométricas? Acho que sempre fui sorteada para ficar em um lugar com pessoas que mal conhecia, presa a conversas desinteressantes, longe dos meus amigos, que estavam sempre no outro extremo, se divertindo mais, rindo mais e brindando mais. Vou ser direta: cheguei a pensar que só atraia as pessoas mais chatas! Não estou falando delas, sinto até saudades, lembrando que a detração existe desde que o mundo é mundo.
Voltando ao tema “festa”, também não gosto de eventos durante o dia, principalmente com nosso clima. Não consigo me divertir no calor, muito menos se a comida servida for pesada, com sufixos. Dessas, só gosto mesmo de feijoada, ainda assim com ressalvas. Pesa no estômago e nos olhos! É um convite para sair arrastando o lençol e cair na cama! E se for caranguejada, prato que implico com I maiúsculo, nem pensar! Nada contra os artrópodes! Pensando bem, acho que tenho problemas mesmo é com comida. Tenho paladar infantil.
Recordar é viver, como bem disse alguém! Estou nessa fase; olho fotos para matar as saudades dos meus amigos e de algumas poucas festas quando “saímos com a vassoura”!  Não sou baladeira, mas se resolvo sair…Aliás, um dos meus critérios na escolha de amigos sempre foi saber se gostam de festas;  pessoas festeiras são mais alegres, têm mais energia! Podem até não saber dançar, ficar pateticamente com dois dedinhos para cima, mas se tiver sorriso no rosto e disposição, já está elegível.
Eu tinha uma amiga que era a rainha das festas. Sabe aquela pessoa que quando  chega ilumina o salão? Ela era assim! E olha que sofria de fobia social. Certa vez perguntei como conseguia ir a tantos eventos  tendo esse “problema”. A fórmula, confessou, era sair de casa com um estoque de vitalidade e alegria, e permanecer no local por no máximo duas horas, tempo para circular e sorrir bastante. E, quando sentia sua energia descer pelos pés, era a hora de ir embora, sair de fininho, “desabraçando” as pessoas.
Ultimamente estávamos conversando bastante por telefone, mas ela me bloqueou. Estou com a impressão que ela está com disfobia social aguda, se é que isso existe. Acho que o isolamento acumulou seu estoque de energia e agora ela está esborrotando por todos os lados e, pior, egoísticamente quer fazer festinhas em casa. Outro dia confessou que ficar sozinha era como estar numa festa onde ninguém olha pra você. E abriu suas comportas, desaguando litros de lágrimas. Lágrimas de crocodilo, falei. Onde já se viu aglomerar agora?
Não é difícil entender o porquê de eu ter sido bloqueada. Melhor assim. Não tenho paciência para esse tipo de chilique, logo eu,  que gosto de viver como  a “moça do café”,  lembrada apenas quando não vai trabalhar ou quando o café está ruim. Calma, para mim não é negativo; eu adoro minha vidinha pacata, com meu núcleo bem longe dos holofotes. Eu acho injustiça é com a moça da copa. Saudades daquele cafezinho coado no pano, que, de longe, é mais gostoso do que o das maquininhas. A propósito, um “viva” para a moça do café e todos os profissionais que estão trabalhando incansavelmente por nossas vidas!
Semana passada eu e meus amigos do colégio nos aglomeramos. Não em uma festa, nem em um bar, mas numa missa virtual. Perdemos um amigo que era, de longe, o mais divertido da nossa turma. Como dizia Vinicius, “eu poderia suportar que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos”.
Estou vivendo de saudades…
Ana Madalena

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