AUTOCONHECIMENTO: A ESSÊNCIA DA MENTE ABRANGE TODAS AS COISAS

A intuição é uma percepção sensorial que todo ser humano possui, mas que a maioria das pessoas, geralmente, não a desenvolve. Costuma-se falar que é o sexto sentido e que só a mulher possui. Isso não é verdade. Qualquer pessoa possui esse dom, mas não desenvolve essa percepção ao longo da sua vida e perde a valiosa oportunidade de evoluir espiritualmente mais rápido. A intuição cresce com a experiência de vida de cada um e é essência para nos orientar, principalmente nas tomadas de decisão na nossa trajetória. Por isso devemos desenvolvê-la, ouvindo-a junto com o coração. Então lhe convido a ler o texto completo a seguir e descobrir o verdadeiro valor e importância dessa percepção sensorial na nossa vida! 

O caminho da intuição

“A essência da mente é grande porque abrange todas
as coisas; todas as coisas são da nossa natureza.
Não existe uma questão de “limpar” a mente, mas sim
de ter consciência da sua universalidade”

Lama Anagarika Govinda*

A meditação sempre foi o principal requisito da doutrina budista de liberação. Entretanto, quanto mais as diferentes técnicas de meditação, suas definições psicológicas e seus princípios metafísicos e filosóficos eram explicados, classificados e fixados em comentários, mais as práticas de meditação eram negligenciadas e sufocadas por discussões teóricas, regras, regulamentos morais e infindáveis recitações de textos sagrados.

A reação foi uma revolta contra as escrituras e a erudição e um retorno a uma experiência mais direta e espontânea. Ao pedantismo de um pensamento escolástico e de lógica intelectual opôs-se a ferramenta do paradoxo, que, como uma espada afiada, cortou os nós dos problemas criados artificialmente e nos deu um relance da verdadeira natureza das coisas. O paradoxo, entretanto, é uma espada de dois gumes. Quando ele se torna rotineiro, destrói aquilo que ajudou a revelar. A força de um paradoxo, como a de uma espada, está no inesperado e na velocidade com que ela é manejada.

Um bom exemplo é a história de dois monges chineses que discutiam sobre uma bandeira ao vento. Um dizia que a bandeira se movia; o outro, que ela era movida pelo vento. Hui- -Neng, o Sexto Patriarca da China, disse: “Nem o vento nem a bandeira estão se movendo; é a mente de vocês que se move.” Mummon, um Patriarca Japonês do século XIII, foi além: “Nem o vento, nem a bandeira, nem a mente estão se movendo.”
Ele se referiu ao princípio essencial de sunyata: não há ir nem vir, mas os dois aspectos subjetivos e objetivos da realidade estão incluídos.

Essa realidade além dos opostos, contudo, não deve ser separada de seus expoentes; a transitoriedade não deve ser separada da eternidade. A mais perfeita autoexpressão individual é a descrição mais objetiva do mundo. O maior artista é o que expressa o que é sentido por todos.
Como ele faz isso? Sendo mais subjetivo que os outros. Quanto mais ele expressa a si mesmo, o seu ser mais íntimo, mais próximo ele se mostra aos outros. A nossa natureza real não é o nosso ego limitado e imaginário; é o vasto e oniabrangente espaço, tão intangível quanto vazio. É sunyata em seu sentido mais profundo. O segredo da arte é que ela revela o supraindividual através da individualidade, o “não ser” através do ser, o objeto através do sujeito. A arte em si é uma espécie de paradoxo, e é por isso que todas as escolas de meditação do Budismo no Extremo Oriente dão a ele essa importância tão grande.

O Sutra do Sexto Patriarca é um exemplo do uso ideal do paradoxo. Ele expressa a atitude espiritual do Zen de uma maneira que não ofende o bom senso nem tente fazer do bom senso a medida de todas as coisas. O leitor se situa numa atmosfera que o coloca acima do plano da consciência diária, e participa da realidade num nível mais alto de consciência.

O Sexto Patriarca impressiona pela sua espontaneidade, que deveria ser
inerente a cada ser humano, e com a qual o leitor facilmente se identifica. Assim ele é capaz de participar das experiências e dos ensinamentos do Patriarca, cuja vida tornou-se o símbolo máximo do Budismo Zen.

O noviço de Kwang-tung, cujamente não estava ainda sobrecarregada por qualquer problema filosófico, penetrou espontaneamente no centro da vida espiritual: a experiência do Budado. Essa experiência não depende de regras monásticas e erudição, de ascetismo e virtuosidade, de conhecimento livresco e de textos sagrados, mas somente da realização do espírito vivo dentro de nós.

O Sexto Patriarca atingiu um estado de espontânea iluminação sem ter tido qualquer educação formal, embora, por outro lado, tenha sido ao GERD ALTMANN/PIXABAY ouvir o Sutra Diamante que seu interesse despertou e sua visão espiritual se abriu. A experiência espontânea, portanto, pode muito bem ser o produto de uma antiga tradição consagrada, se essa tradição contém símbolos de uma realidade supramental (que a psicologia moderna chamaria de símbolos arquetípicos), ou seja, formulações que levem a mente além do círculo estreito do raciocínio mundano. No choque inesperado entre uma mente sensitiva e esses símbolos e formulações, as portas da percepção interna são subitamente abertas, e o indivíduo se identifica com a realidade supramental.

O Patriarca veio de uma família pobre de Kwang-tung. Um dia, quando vendia lenha no mercado, ouviu o Sutra Diamante, e isso despertou uma resposta tão profunda que ele decidiu entrar no monastério da Escola Zen, onde o abade era o Quinto Patriarca. Ele se tornou um noviço e recebeu o trabalho mais humilde, no estábulo e na cozinha.

Um dia o abade convocou todos os discípulos a fim de escolher um sucessor. Ele queria escolher alguém que tivesse não apenas compreendido, mas realizado a mensagem do Zen; assim, pediu aos monges que escrevessem sobre a natureza mais íntima da mente. Ninguém ousou se apresentar, exceto o erudito Shin- -shau, já considerado um sucessor.
Shin-shau escreveu seu verso na parede do corredor, para anunciar a sua autoria apenas se o Patriarca ficasse satisfeito. O Patriarca, embora apreciasse as palavras, pediu a Shin-shau que meditasse sobre elas durante alguns dias e escrevesse outra estrofe que mostrasse que o autor tinha passado pelo portal da iluminação – que tivesse experienciado o escrito.

Dois dias depois, um jovem que passava pelo quarto onde o noviço de Kwang-tung descascava arroz recitou a estrofe do Shin-shau. O noviço foi para o corredor e pediu a um visitante para ler o verso, já que ele não sabia ler nem escrever. Depois que o visitante leu em voz alta, o noviço disse que também tinha composto uma estrofe, e pediu ao visitante que a escrevesse abaixo do verso de Shin-shau.

             Espelho interno

Quando os outros monges viram a nova estrofe e souberam quem a tinha composto, disseram: “Como foi possível que uma pessoa tão iluminada trabalhasse para nós?” O Patriarca, entretanto, temendo a inveja dos monges, apagou a estrofe e pediu ao jovem que se encontrasse com ele à noite. Quando todos no monastério estavam em profundo sono, ele deu ao noviço a insígnia de seu futuro cargo e tornou-o Sexto Patriarca. Ordenou então que o noviço saísse de imediato do monastério e retornasse somente quando ele, o Quinto Patriarca, tivesse falecido. O noviço fez como lhe foi dito, e, quando retornou com os mantos do cargo, ele foi reconhecido com o nome de Wei-lang.

As estrofes de Shin-shau e do Sexto Patriarca oferecem uma percepção valiosa da atitude mental da Escola Zen. A de Shin-shau diz: “Nosso corpo é como uma árvore de iluminação,/nossa mente é como um espelho limpo;/de hora a hora precisa ser limpo,/de modo que nenhuma poeira se ajunte nele.” Este verso mostra uma preocupação pedante com a preservação da pureza do espelho interno,   a mente original (que, de qualquer modo, está além da pureza e da impureza); além disso, mostra que o autor não fala a partir de sua própria experiência, mas apenas como um erudito, porque o verso se baseia em uma expressão do Svetasvatara Upanishad: “Assim como um espelho,/ que foi coberto com poeira,/brilha como fogo, se for limpo,/da mesma maneira, aquele que compreendeu a natureza da alma/atinge o alvo e liberta-se da aflição.

Shin-shau apenas repetiu o Upanishad sem ter experenciado a realidade da mente original, enquanto que o jovem noviço captou a essência do Sutra Diamante em um ato de percepção direta; ele experenciou a verdadeira natureza da mente. Isso se revela na sua estrofe, que refuta a de Shin-shau e mostra o ponto de vista budista como é compreendido pelos Mestres do Zen: “Nosso corpo não é uma árvore de modo algum,/nem é a mente um estojo de espelhos;/quando tudo está vazio,/onde poderia a poeira se acumular?”

A mente original, conhecida como a mente de Buda ou o princípio de bodhi, o anseio por iluminação, é uma propriedade latente de cada
consciência, não apenas um reflexo do universo, mas a própria realidade universal. Isso pode parecer uma espécie de vacuidade metafísica, a ausência de qualidades e de possibilidades de definição. Bodhi, portanto, não é algo que cresceu como uma árvore, assim como a mente não é um espelho que reflete a realidade numa capacidade secundária. A mente em si mesma é a vacuidade que a tudo abrange (sunyata); assim, onde a poeira poderia se acumular?

“A essência da mente é grande, porque abrange todas as coisas; todas as coisas são da nossa natureza.” Não existe uma questão de “limpar” a mente, mas sim de ter consciência da sua universalidade. O que podemos melhorar é o intelecto, a limitada consciência individual. Isso, porém não nos leva além de seus próprios limites, porque permanecemos no círculo de suas leis inerentes de tempo e espaço, lógica e causalidade. Só o ato de ultrapassar nossas limitações e abandonar os conteúdos que nos aprisionam a essas leis pode nos dar a experiência da totalidade do espírito e a realização de sua verdadeira natureza– o que chamamos de iluminação.

A verdadeira natureza da mente abrange tudo que vive. O voto do Bodhisattva de libertar todos os seres vivos não é, portanto, tão presunçoso quanto parece. Esse voto não nasceu da ilusão de que um homem mortal pode se estabelecer como um salvador; é resultado da percepção de que somente no estado de iluminação seremos capazes de nos tornar um com tudo o que vive. Nesse ato de unificação, libertamos a nós mesmos e a todos os seres que estão potencialmente presentes e participam da natureza da nossa mente – que são parte de nossa mente.

É por isso que, de acordo com os ensinamentos do Mahayana, a liberação dos sofrimentos, a extinção da vontade de viver e de todos os desejos, é considerada insuficiente. É por isso que se empenhar na busca da perfeita iluminação (samyak-sambodhi) é considerado o único objetivo digno de um seguidor de Buda. Enquanto desprezarmos o mundo e dele tentarmos escapar, nós nem o superamos nem ganhamos maestria nele; estamos longe da libertação. “Este mundo é o mundo de Buda, dentro do qual a iluminação pode ser achada. Buscar a iluminação nos separando do mundo é tão tolo como buscar chifre numa lebre.” Porque “aquele que trilha sinceramente o caminho do mundo não verá as faltas do mundo.”

Também não deveríamos imaginar que, pela supressão das faculdades intelectuais, podemos atingir a iluminação. “É um grande engano suprimir o pensamento”, diz o Sexto Patriarca. Zen é o caminho para superar as limitações da nossa atitude intelectual. Mas antes de apreciar o Zen, temos que desenvolver o intelecto, a capacidade de pensar e discernir. Se nós não alcançarmos maestria sobre o intelecto, não poderemos superá-lo. O intelecto é tão necessário para superar a emocionalidade e a confusão quanto a intuição é necessária para superar as limitações do intelecto e seus julgamentos.

A razão, a mais alta propriedade do intelecto, é o que guia o pensamento intencional. Suas finalidades, contudo, são limitadas; a razão só pode operar naquilo que é limitado. Somente a sabedoria (prajna) pode aceitar e intuitivamente compreender o ilimitado, o atemporal e o infinito, ao renunciar às explicações e reconhecer o mistério que pode apenas ser sentido, experenciado e finalmente realizado em vida. A sabedoria tem raízes na experiência e na realização do nosso ser mais íntimo. A razão tem raízes no pensamento. Entretanto, a sabedoria não despreza nem o pensamento nem a razão; ela os usa em seu próprio âmbito, o âmbito da ação intencional, a busca da ciência e a coordenação das nossas impressões sensoriais, percepções, sensações, e emoções, tudo em um conjunto.

Aqui o lado criativo do pensamento exerce sua ação, convertendo a matéria-prima da experiência na percepção de um mundo razoável.
O tamanho desse mundo depende da faculdade criativa do indivíduo. A mente pequena vive no mundo dos efêmeros desejos; a grande mente vive na infinidade do universo e na constante percepção do mistério que dá profundidade e amplitude à vida, e assim impede que o mundo sensorial se confunda com a realidade última. Aquele que penetrou até os limites do pensamento ousa saltar na grande vacuidade, o campo primordial do seu ser ilimitado.

Fonte: Revista Sophia- ano 18 – Edição 85

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