SEGUNDO PESQUISA, IMPACTO ECONÔMICO DE INATIVIDADE FÍSICA DE BRASILEIROS REPRESENTA GASTOS DE R$ 300 MILHÕES AO SUS

Inatividade física causa gastos de R$ 300 milhões ao SUS

Falta de exercícios atinge mais mulheres do que homens

Fernando Frazão

Agência Brasil

Estudo realizado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) constatou que o impacto econômico da inatividade física de brasileiros, em diferentes regiões do país, representa gastos no Sistema Único da Saúde (SUS) de cerca de R$ 300 milhões somente com internações, em valores de 2019

“Esse custo seria evitável na medida em que você ampliasse o acesso da população a programas de promoção de atividade física”, disse à Agência Brasil Marco Antonio Vargas, subchefe do Departamento de Economia da UFF e coordenador executivo da pesquisa, denominada “Implicações socioeconômicas da inatividade física: panorama nacional e implicações para políticas públicas”.

Ele afirmou que esses programas devem ser direcionados a variados segmentos de diferentes faixas da população. “Você tem carências muito claras em alguns setores, principalmente em populações mais vulneráveis”, ponderou. Aí entram ações promovidas pelos municípios. O estudo objetiva contribuir para a formulação e implementação de políticas em saúde preventiva, assim como ao estímulo à prática de atividade física no país.

O foco do trabalho se situou em pessoas maiores de 40 anos de idade, em função do volume de dados existentes. Buscou-se correlacionar os dados com os custos de tratamento no SUS, isto é, custos de hospitalização. O levantamento envolveu uma equipe interdisciplinar de pesquisadores, coordenada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – (In) Atividade Física e Exercício da UFF – e foi feito em 2019, portanto, antes da pandemia do novo coronavírus. No momento, está se buscando a atualização dos dados de 2020 para cá, por pesquisadores do Laboratório de Ciências do Exercício (Lace) e do Núcleo de Pesquisa em Indústria, Energia, Território e Inovação (Neiti) da UFF.

Doenças crônicas

Vargas esclareceu que a inatividade está associada à incidência de diversas doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), entre as quais hipertensão, diabetes, neoplasias de cólon e mama e doenças isquêmicas do coração, entre outras. A inatividade física constitui um dos principais fatores de risco associados à mortalidade DCNTs no mundo e no Brasil.

“Em maior ou menor medida, essas enfermidades guardam correlação com a inatividade física. Algumas em percentual menor e outras, maior”, observou Vargas. Dentro do conjunto de custos no SUS associado ao tratamento de doenças crônicas não transmissíveis, a pesquisa buscou a parte que pode ser atribuída à inatividade física.

O coordenador informou que o nível de escolaridade e de renda está associado à prevalência maior de inatividade física. A partir de dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério de Saúde, de 2017, observou-se, por exemplo, que o sedentarismo é maior entre os indivíduos com sete anos ou menos de escolaridade (57,92%) em comparação com aqueles que possuem 12 anos ou mais de escolaridade (41,18%).

Atividades físicas e práticas saudáveis ajudam a aliviar a tensão da rotina / Getty Images (Buena Vista Images)

O nível de inatividade é maior entre mulheres do que entre homens e quanto menor for o nível de escolaridade, maior o nível de inatividade.

Vargas defendeu, ainda, que a promoção da atividade física deve ser encarada como parte integrante de uma política de saúde. “Ela não está separada e, portanto, deve ter uma atenção bastante especial do ponto de vista de programas voltados à prevenção”, salientou.

O estudo cita dados da Base de Informações Municipais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (BIM-IBGE). Eles mostram que  88% dos municípios brasileiros desenvolvem algum tipo de ação, projeto ou programa permanente na área de esporte e lazer.

Vargas argumentou, entretanto, que o percentual ainda é muito baixo quando se trata de programas na área de esporte voltados à inclusão social em comunidades carentes (26,4%) ou para pessoas com deficiência (16,8%).

O mesmo ocorre em relação a programas de inclusão social de idosos e de mulheres, por exemplo, que apenas 30% dos municípios apresentam. Ações para jovens e adultos já contam com um percentual maior: 50% das cidades têm iniciativas de inclusão social para essas camadas da população voltadas à educação física.

O coordenador destacou que esses dados necessitam de um olhar mais minucioso para identificar o que está ocorrendo nas cidades e como estão acontecendo esses programas de esporte nas escolas. Ao mesmo tempo, a pesquisa observou que, ao longo dos últimos anos, houve uma queda significativa de gastos com desporto e lazer na esfera federal, que representam, em média, apenas 0,024% do total de gastos federais.

Cenário mundial

Dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que a inatividade física é um fenômeno que envolve mais de 20% da população mundial de adultos e mais de 80% da população mundial de adolescentes. Isso significa que um em cada quatro adultos, e quatro em cada cinco adolescentes, não fazem atividades físicas regulares, suficientes para atender às recomendações globais estabelecidas pela OMS.

Ainda segundo a OMS, 27,5% da população global não atingem níveis mínimos desejáveis de atividade física durante a semana. Na América Latina e no Caribe, 39,1% da população são fisicamente inativos. A maior prevalência de inatividade física na região é encontrada no Brasil, onde 47% da população não atingem os níveis mínimos recomendados.

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PARA PGR A PRISÃO DE ROBERTO JEFFERSON REPRESENTA CENSURA PRÉVIA DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO

PGR diz que se manifestou contra prisão de Roberto Jefferson

Segundo Aras, a prisão “representaria uma censura prévia à liberdade de expressão, o que é vedado pela Constituição Federal”

Basília Rodrigues

Por Basília Rodrigues, CNN  

 Atualizado 13 de agosto de 2021 às 16:05

O procurador-geral da República, Augusto Aras, se manifestou contra a prisão do presidente do PTB, Roberto Jefferson, por compreender que “representaria uma censura prévia à liberdade de expressão, o que é vedado pela Constituição Federal”. De acordo com fontes da PGR, ouvidas pela CNN, o parecer com opinião contrária à prisão foi encaminhado ontem à noite ao Supremo Tribunal Federal.

Na decisão de prender o ex-deputado, o ministro Alexandre de Moraes afirma, no entanto, que até a decretação da prisão não havia ocorrido qualquer manifestação da PGR. A ordem de prisão foi expedida ontem e cumprida nesta sexta-feira (13).

Moraes afirma que encaminhou o pedido de prisão à PGR na quinta-feira passada, 5 de agosto, e fixou 24 horas para Aras se manifestar. A posição do ministro, em fixar um prazo, causou indignação entre interlocutores do procurador.

Após críticas por não ter supostamente se manifestado, a procuradoria divulgou nota em que argumenta ter se manifestado em tempo oportuno. Enfatiza ser contrária à prisão, que não divulgará detalhes do parecer em respeito ao sigilo legal e observa ser medida cautelar que atinge pessoa sem prerrogativa de foro junto aos tribunais superiores.

Roberto Jefferson não possui mais mandato de deputado federal. Por isso, em tese, a PGR não poderá seguir com investigações sobre o caso, mas a primeira instância do Ministério Público.

Bolsonaro

Na mesma nota, a PGR ressalta que “não contribuirá para ampliar o clima de polarização que, atualmente, atinge o país, independentemente de onde partam e de quem gere os fatos ou narrativas que alimentam os conflitos”.

A instituição declara que segue dentro das leis, da Constituição e da jurisprudência do STF. Diretrizes que também serão adotadas no posicionamento da procuradoria no caso em que o presidente Jair Bolsonaro responde por espalhar mentiras sobre as urnas eletrônicas. “Haverá manifestação no tempo oportuno, no foro próprio e conforme a lei aplicável às eventuais condutas ilícitas sob apreciação do Ministério Público”.

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O QUE REPRESENTA PARA O MUNDO A VITÓRIA DE BIDEN?

 

O que a vitória de Biden significa para o resto do mundo

De Pequim a Berlim, repórteres da BBC analisam o impacto da mudança ideológica na Casa Branca para 12 países

INTERNACIONAL

por BBC NEWS BRASIL

A apuração de votos nos Estados Unidos foi observada de perto no exterior

Após dias de incerteza, o democrata Joe Biden venceu a eleição presidencial dos EUA, conforme apontam as projeções da BBC.

Durante os quatro anos de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, a relação do país com o mundo mudou profundamente.

Repórteres da BBC em diversas capitais, de Pequim a Berlim, explicam como as notícias da vitória de Biden estão sendo recebidas e o que isso pode significar para as relações com os EUA.

China

Vitória de Joe Biden oferece outro desafio para o sistema chinês, escreve John Sudworthem Pequim

Você pode pensar que Pequim ficaria feliz em ver Donald Trump ir embora. Em quatro anos, ele moveu uma guerra comercial contra a China, aplicou uma série de sanções ao país e tentou culpá-lo pela pandemia do coronavírus.

Mas alguns analistas apontam que as autoridades chinesas podem estar agora silenciosamente decepcionadas. Não porque tenham qualquer simpatia por Trump, mas porque uma segunda passagem dele pela Casa Branca era vista por alguns como uma oportunidade. Divisivo em casa, isolacionista no exterior, Trump parecia a Pequim a própria personificação do tão esperado e esperado declínio do poder dos EUA.

Essa era a mensagem transmitida pelos boletins de notícias televisivos controlados pelo Partido Comunista do país. Eles se concentraram não na eleição em si, mas nos protestos, no rancor e nas crescentes taxas de infecção pelo coronavírus nos Estados Unidos.

A China pode, é claro, tentar tirar vantagem da disposição de Joe Biden de buscar cooperação em grandes questões como a mudança climática. Mas o democrata também prometeu trabalhar para consertar as alianças dos Estados Unidos, o que pode ser muito mais eficaz em restringir as ambições de superpotência da China do que a abordagem autônoma de Trump.

A vitória de Biden oferece ainda outro desafio para um sistema chinês desprovido de controle democrático. Longe de ser um declínio dos valores americanos, a própria transição de poder é a prova de que esses valores perduram.

Índia

As raízes de Kamala Harris são uma fonte de orgulho na Índia, mas Narendra Modi pode obter uma recepção mais fria de Biden do que seu predecessor, escreve Rajini Vaidyanatha, em Delhi

A Índia tem sido um parceiro importante para os EUA – e, de maneira geral, isso não deve mudar sob a presidência de Biden.

A nação mais populosa do sul da Ásia continuará sendo um aliado fundamental na estratégia indo-pacífica da América para conter a ascensão da China e no combate ao terrorismo global.

Dito isso, a química pessoal entre Biden e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, pode fluir um pouco pior. Trump evitou criticar as polêmicas políticas internas de Modi, que muitos dizem discriminar os muçulmanos do país.

Biden foi muito mais franco. O site de sua campanha pediu a restauração dos direitos de todos na Caxemira e criticou o Registro Nacional de Cidadãos e a Lei de Emenda da Cidadania, duas medidas que geraram protestos em massa.

A nova vice-presidente, Kamala Harris, ela própria filha de mãe indiana, também se manifestou contra algumas das políticas do governo nacionalista hindu. Mas suas raízes indianas provocaram comemorações em massa em grande parte do país. É um momento de imenso orgulho nacional o fato de que a filha de uma indiana que nasceu e foi criada na cidade de Chennai logo será a número dois na Casa Branca.

Coreias

A Coreia do Norte certa vez descreveu Biden como um “cachorro raivoso” – mas agora Kim Jong-un fará cálculos cuidadosos antes de tentar provocar o novo presidente dos EUA, escreve Laura Bicker, em Seul

É provável que o presidente Kim Jong-un preferisse mais quatro anos de Donald Trump.

A reunião sem precedentes dos líderes e as demais negociações geraram incríveis oportunidades de fotos para os livros de história, mas muito pouco material foi assinado. Nenhum dos lados conseguiu o que queria: a Coreia do Norte continuou a construir seu arsenal nuclear e os EUA seguiram aplicando sanções rígidas ao país asiático.

Joe Biden, por outro lado, exigiu que a Coreia do Norte mostre que está disposta a abandonar seu programa de armas nucleares antes de sinalizar qualquer reunião com Kim Jong-un. Muitos analistas acreditam que, a menos que a equipe de Biden inicie um diálogo com Pyongyang muito cedo, os dias de “fogo e fúria” podem retornar.

Kim pode querer chamar a atenção de Washington com um retorno aos testes de mísseis de longo alcance, mas não vai querer aumentar as tensões a ponto de o país já empobrecido ser atingido com ainda mais sanções.

A Coreia do Sul já alertou o Norte para não seguir um caminho de provocações.

Seul pode ter tido dificuldade para lidar com Donald Trump às vezes, mas, na ansiedade para pôr fim à guerra de 70 anos na península coreana, o presidente Moon elogiou Trump por ter tido a “coragem” de se encontrar com o líder da Coreia do Norte. A Coreia do Sul observará de perto qualquer sinal de que Biden está disposto a fazer o mesmo movimento.

Reino Unido

A “relação especial” entre EUA e Reino Unido pode sofrer um rebaixamento com Joe Biden no comando, escreve a correspondente Jessica Parker, em Londres

Eles não serão vistos como aliados naturais: Joe Biden, o democrata experiente, e Boris Johnson, o bombástico defensor do Brexit.

Ao analisar como o relacionamento futuro deles pode funcionar, vale a pena considerar o passado. Especificamente naquele ano de 2016, quando Donald Trump ganhou a Casa Branca e o Reino Unido votou pela saída da União Europeia. Tanto Joe Biden quanto seu chefe na época, Barack Obama, não esconderam que preferiam outro resultado em relação ao Brexit.

As recentes manobras do governo do Reino Unido em relação ao Brexit não foram bem aceitas pelos democratas e pelo lobby irlandês, incluindo o presidente eleito dos EUA. Biden disse que, se eleito, não permitiria que a paz na Irlanda do Norte se tornasse uma “vítima do Brexit”, afirmando que qualquer futuro acordo comercial EUA-Reino Unido dependeria do respeito ao Acordo de Belfast.

Lembra que Donald Trump certa vez chamou Boris Johnson de “Trump britânico”? Bem, Biden aparentemente concordou, uma vez que descreveu o primeiro-ministro do Reino Unido como o “clone físico e emocional” de Trump. Portanto, é possível que Joe Biden inicialmente esteja mais ansioso para falar com Bruxelas, Berlim ou Paris do que Londres. A “relação especial” pode enfrentar um rebaixamento.

No entanto, os dois líderes ainda podem encontrar algum terreno comum. Afinal, os países que lideram têm laços diplomáticos antigos e profundos, principalmente nas áreas de segurança e inteligência.

Rússia

Um governo mais previsível pode ser uma esperança para a Rússia na vitória de Biden, escreve Steven Rosenberg em Moscou

O Kremlin tem um senso de audição apurado. Isso quer dizer que Moscou ouviu em alto e bom som quando, recentemente, Joe Biden classificou a Rússia como “a maior ameaça” para a América.

O Kremlin também tem boa memória. Em 2011, o vice-presidente Biden teria afirmado que, se fosse Putin, não se candidataria novamente à presidência: seria ruim para o país e para si mesmo. O presidente Putin provavelmente não se esqueceu do comentário.

Biden e Putin não são uma combinação perfeita no paraíso geopolítico. Moscou teme que a presidência de Biden signifique mais pressão e mais sanções vindas de Washington. Com um democrata na Casa Branca, poderia ser hora de retribuir a suposta intervenção da Rússia nas eleições americanas de 2016?

Um jornal russo afirmou recentemente que, sob o governo de Trump, as relações EUA-Rússia haviam mergulhado “no fundo do mar”. Mas comparou Biden a uma “draga” que iria “cavar ainda mais fundo”. Não é de admirar que Moscou tenha esse sentimento de afundamento.

No entanto, para o Kremlin, pode haver um sinal de esperança. Comentaristas russos preveem que um governo Biden será, pelo menos, mais previsível do que a equipe de Trump. Isso pode tornar mais fácil chegar a um acordo sobre questões urgentes, como New Start, o crucial tratado de redução de armas nucleares entre os EUA e a Rússia que expira em fevereiro.

Moscou vai querer deixar a era Trump e tentar construir uma relação de trabalho com a nova Casa Branca. Não há garantia de sucesso.

Alemanha

Os alemães esperam voltar à normalidade com seu principal aliado assim que Donald Trump partir, escreve Damien McGuinness, em Berlim.

A Alemanha vai suspirar aliviada com o resultado das eleições americanas.

Apenas 10% dos alemães confiam no presidente Trump em relação à política externa, de acordo com o Pew Research Center. Ele é mais impopular na Alemanha do que em qualquer outro país pesquisado. Até mesmo a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping têm mais simpatia pelo republicano que a Alemanha.

Além de ter uma relação ruim com a chanceler Angela Merkel – é difícil imaginar dois líderes com personalidades tão apostas -, o presidente Trump é acusado de minar o livre comércio e desmantelar as instituições multilaterais das quais a Alemanha depende economicamente.

Apesar disso, os EUA são o maior parceiro comercial da Alemanha e a relação transatlântica é crítica para a segurança europeia. Portanto, a presidência de Trump foi uma jornada difícil.

Os ministros alemães criticaram os pedidos do presidente nos últimos dias para que a contagem de votos parasse fosse suspensa e suas alegações infundadas de fraude eleitoral. A ministra da Defesa, Annegret Kramp-Karrenbauer, chamou a situação de “explosiva”.

Há uma consciência aqui de que as principais diferenças políticas entre Washington e Berlim não desaparecerão sob a presidência de Biden. Mas Berlim espera trabalhar com um presidente que valorize a cooperação multilateral.

Irã

Vitória de Biden pode trazer Teerã de volta à mesa de negociações, escreve o correspondente do Serviço Persa da BBC, Kasra Naji

Nas semanas anteriores à eleição dos EUA, o presidente Trump disse com bastante otimismo que, uma vez reeleito, o primeiro telefonema que receberia seria de líderes iranianos pedindo para negociar.

Aquele telefonema para o republicano, se ele tivesse vencido, nunca iria acontecer. Negociar com seu governo teria sido impossível para o Irã. Seria muito humilhante.

Sob o presidente Trump, as sanções dos EUA e uma política de pressão máxima deixaram o Irã cambaleando à beira do colapso econômico. Ele retirou os EUA do acordo nuclear. Pior ainda, ordenou o assassinato do general Qasem Soleimani, um amigo próximo do líder supremo aiatolá Ali Khamenei. Vingar-se pelo assassinato dele continua no topo de sua agenda linha dura.

A eleição de Joe Biden torna as negociações com o governo dos EUA muito mais fáceis para o Irã. O presidente eleito não tem a mesma bagagem. Ele disse que quer usar a diplomacia e voltar ao acordo nuclear com o Irã.

Mas a linha dura do Irã não chegará à mesa facilmente. Quando os americanos foram às urnas em 3 de novembro, o líder iraniano afirmou que a eleição “não teria efeito” nas políticas de Teerã. “O Irã seguiu uma política sensata e calculada que não pode ser afetada por mudanças de personalidade em Washington”, disse ele.

Milhões de iranianos pensaram de forma diferente enquanto assistiam silenciosamente ao desenrolar das eleições nos Estados Unidos em suas telas ilegais de TV via satélite, convencidos de que seu futuro dependia dos resultados e esperando que uma vitória de Biden resultasse no alívio das sanções.

Israel

Há expectativas de uma redefinição de grande parte da política de Donald Trump para o Oriente Médio, escreve Tom Bateman, em Jerusalém

O presidente Trump sobrecarregou os dois pólos do Oriente Médio. Ele procurou recompensar e consolidar os aliados regionais tradicionais dos americanos, enquanto isolava seus adversários em Teerã.

Joe Biden tentará reconectar a política dos EUA para o Oriente Médio de volta à forma como a deixou como vice-presidente de Barack Obama: aliviando a campanha de “pressão máxima” de Trump sobre o Irã e com o objetivo de voltar a aderir ao acordo nuclear de 2015 abandonado pelo Casa Branca há dois anos.

Essa perspectiva horroriza Israel e países do Golfo, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Um ministro israelense disse em resposta à provável vitória de Biden que a política terminaria com “um violento confronto israelense-iraniano, porque seremos forçados a agir”.

O resultado também muda drasticamente a abordagem dos EUA no conflito israelense-palestino. O plano de Trump foi visto como favorecendo fortemente Israel e dando-lhe a chance de anexar partes da Cisjordânia ocupada. Isso foi arquivado em favor de acordos históricos para estabelecer laços entre Israel e vários estados árabes.

Este esforço para a “normalização” regional provavelmente continuará sob Biden, mas ele pode tentar desacelerar as controversas vendas de armas dos EUA para o Golfo e provavelmente buscará mais concessões por parte dos israelenses. A anexação agora parece definitivamente fora de questão e Biden também fará objeções à construção de novos assentamentos israelenses.

Mas não haverá a “reviravolta completa” que um oficial palestino exigiu esta semana. A retórica retornará ao entendimento tradicional de uma “solução de dois Estados”, mas as chances de se fazer muito progresso no processo de paz israelense-palestino parecem pequenas.

Egito

Há grandes esperanças entre ativistas de que o governo Biden aumente a pressão sobre os direitos humanos no Egito, escreve Sally Nabil, no Cairo

O presidente do Egito, Abdul Fattah al-Sisi, apoiado pelos militares, tinha um relacionamento muito bom com Donald Trump. Teria sido melhor para ele manter um amigo na Casa Branca, mas agora terá que começar um novo capítulo com Joe Biden.

Os críticos do presidente Sisi acusaram o governo Trump de fechar os olhos a seus supostos abusos de direitos humanos. O Egito recebe US$ 1,3 bilhão em ajuda militar dos EUA por ano. Em 2017, uma pequena parcela dessa ajuda foi suspensa por questões envolvendo direitos humanos, mas foi liberada no ano seguinte.

A vitória de Joe Biden na Casa Branca é considerada uma boa notícia por muitos grupos de direitos humanos aqui. Os ativistas esperam que o novo governo dos EUA pressione o governo egípcio para que mude suas políticas opressivas em relação à oposição, com dezenas de milhares de presos políticos supostamente na prisão. As autoridades egípcias sempre negaram ter encarcerado esses grupos, desafiando a credibilidade de relatórios críticos de direitos humanos.

“As relações EUA-Egito sempre foram estratégicas, independentemente de quem se senta no Salão Oval”, disse Ahmed Sayyed Ahmed, um analista político.

“A parceria vai continuar, mas a retórica dos democratas sobre os direitos humanos pode não ser bem recebida por alguns egípcios, que veem isso como uma intromissão nos assuntos de seu país.”

Cuba

Após duras sanções, a vitória de Biden traz alívio, escreve o correspondente da BBC em Cuba, Will Grant

Uma presidência de Biden é exatamente o que a maioria dos cubanos esperava. Na verdade, a maioria das pessoas na ilha veria com bons olhos quase qualquer pessoa na Casa Branca além de Donald Trump. Suas sanções trouxeram dificuldades reais e os cubanos estão exaustos após quatro anos de hostilidade implacável.

Joe Biden, por outro lado, revive as memórias do recente ponto alto nas relações cubano-EUA sob o presidente Obama. Na verdade, o ex-vice-presidente teria contribuído para tornar possíveis os dois anos de distensão.

O governo comunista em Havana, sem dúvida, continuará a dizer que todos os presidentes dos EUA são essencialmente feitos do mesmo material. Mas entre as pessoas na fila de produtos básicos e lutando para pagar as contas, o sentimento predominante será de grande alívio.

A única desvantagem do ponto de vista dos cubanos? Biden agora está bem ciente de como o tratamento duro do presidente Trump em relação rendeu-lhe frutos entre os eleitores na disputada Flórida.

Eles temem que Biden possa estar muito menos inclinado a aliviar algumas das medidas de Trump do que estaria em outro momento.

Canadá

Justin Trudeau verá um aliado em seu novo vizinho, escreve Jessica Murphy, em Toronto

O primeiro-ministro canadense prometeu aprofundar os laços com os EUA independentemente de quem vencesse a eleição presidencial, mas é provável que o alívio tenha sido sentido em Ottawa quando ficou claro que o democrata Joe Biden havia conquistado a vitória.

A relação do Canadá com os Estados Unidos tem sido difícil sob o presidente Trump, embora tenha suas realizações, que incluem a renegociação bem-sucedida do Acordo de Livre Comércio da América do Norte, junto com o México.

Mas Justin Trudeau deixou claro que sentia uma afinidade política com o ex-presidente Barack Obama, que o endossou durante as recentes eleições federais canadenses. Esse sentimento de cordialidade se estende ao homem que atuou como vice-presidente de Obama, Joe Biden.

Em Biden, o Partido Liberal de Trudeau encontrará um aliado em questões como mudança climática e multilateralismo. Mas isso não significa que não haja possibilidades de atrito com seu governo. O presidente Trump autorizou a construção do oleoduto Keystone XL de Alberta para o Texas, um projeto visto como chave para o setor de energia em dificuldades do Canadá, mas o presidente eleito Biden se opõe ao projeto.

E o plano econômico “Buy American” de Joe Biden para reanimar a indústria dos EUA após a pandemia do coronavírus será uma preocupação, dada a profunda dependência do Canadá do comércio com os EUA.

Fonte: R7

 

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