SAÚDE: TUDO QUE QUEM JÁ TEVE COVID-19 PRECISA SABER

Anticorpos, vacinas, variantes: o que pessoas que já tiveram Covid devem saber

Jacqueline Howard, Zamira Rahim, Maggie Fox, Jen Christensen, Amanda Sealy e Michael Nedelman, da CNN
05 de fevereiro de 2021 às 10:57 | Atualizado 05 de fevereiro de 2021 às 11:30
Pesquisa, laboratório, ciência, imunidade, covid-19Foto: Trnava University/Unsplash

Você pode ser uma das mais de 9,3 milhões de pessoas no Brasil que contrairam o novo coronavírus desde o início da pandemia, e quando se trata de vacinas contra a Covid-19, novas variantes ou risco de reinfecções, dúvidas podem surgir sobre a doença ainda estudada em todo o mundo.

“Continuamos aprendendo um ano após o início da pandemia”, diz à CNN, a médica Becky Smith, diretora de Prevenção e Controle de Infecções e especialista em doenças infecciosas do Duke University Hospital, dos Estados Unidos.

Por causa de novos aprendizados a cada dia, médicos avaliam que existem descobertas importantes que pessoas já infectadas pela Covid-19 devem saber.

Qual é o risco de reinfecção?

O risco de reinfecção “parece ser muito baixo” e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) afirmam que “o risco de reinfecção é ‘baixo’ nos primeiros 90 dias após a pessoa contrair a Covid-19″, comenta Smith. Embora raras, as chances existem.

“Com base no que sabemos de vírus semelhantes, algumas reinfecções são esperadas”, pontua o CDC dos Estados Unidos, em seu site.

“O risco de reinfecção continua baixo, mas temos que estar vigilantes com o surgimento de novas variantes”, salienta à CNN, Antônio Crespo, diretor médico de doenças infecciosas do Orlando Health Medical Group.

O novo coronavírus, que causa a Covid-19, mudou com o tempo, assim como todos os outros vírus. Através dessas mutações, surgiram outras variantes.

Os cientistas não estão surpresos ao ver o coronavírus mudando e evoluindo, pois é o que os vírus fazem para sobreviverem. Com tanta propagação não controlada pelos Estados Unidos e outras partes do mundo, o vírus tem muitas oportunidades para mutações.

Até agora, três variantes que circulam ao redor do mundo foram identificadas e estão recebendo muita atenção: a variante B.1.1.7, descoberta pela primeira vez no Reino Unido; a B.1.351, identificada pela primeira vez na África do Sul; e a P.1, que surgiu no Brasil.

As variantes do novo coronavírus que circulam globalmente devem se tornar mais dominantes nos Estados Unidos na primavera, espera Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca na semana passada.

A diretora do CDC, Rochelle Walensky, frisa que todos os casos de covid-19 nos Estados Unidos agora deveriam ser tratados como se fossem causados ??por uma das recentes variantes do coronavírus identificadas.

Outra razão pela qual o risco de reinfecção permanece um tanto misterioso é o fato de ainda não estar claro por quanto tempo os anticorpos da covid-19 podem durar no organismo.

Quanto tempo os anticorpos duram?

Anticorpos são proteínas que o corpo produz logo após a infecção. Eles ajudam a combatê-la e auxiliam na proteção contra reinfecções.

“O que sabemos é que, quando alguém é infectado pela Covid-19, a pessoa consegue anticorpos que podem durar”, disse Crespo. “Mas agora a nova ciência que está surgindo é a de que algumas das variantes do coronavírus podem escapar dos anticorpos e ser potencialmente infecciosas para alguém já infectado com uma variante conhecida”, alerta.

Becky Smith disse que em um grande estudo com mais de 12 mil profissionais de saúde nos hospitais da Universidade de Oxford, no Reino Unido, poucos pacientes com anticorpos com covid-19 foram infectados pela segunda vez durante um período de seis meses. Esse estudo, publicado no New England Journal of Medicine em dezembro, sugere que os anticorpos estão associados a “um risco substancialmente menor de reinfecção”.

“Aqueles que desenvolveram reinfecção tinham infecções assintomáticas”, disse Smith, por email. Ela acrescenta que as evidências da experiência do hospital onde trabalha no gerenciamento de profissionais de saúde infectados por covid-19, sugerem que os anticorpos provavelmente protegem contra reinfecção.

“Até o momento, cerca de 0,5% dos profissionais de saúde experimentaram eventos de reinfecção, embora reconheçamos não ter verificado sistematicamente os anticorpos como no estudo de Oxford”, calcula Smith, que não estava envolvida no estudo.

Pessoas infectadas com Covid-19 provavelmente estarão protegidas contra o contágio novamente por pelo menos cinco meses, de acordo com um novo estudo conduzido pela Public Health England.

O estudo – ainda não revisado por pares – descobriu que a infecção anterior foi associada a um risco 83% menor de reinfecção, em comparação com pessoas não infectadas anteriormente.

Por outro lado, os pesquisadores alertaram que a proteção não era absoluta, o que significa que algumas pessoas pegam o vírus novamente e que não está claro quanto tempo dura a imunidade.

Também é possível que aqueles que têm algum grau de imunidade contra o vírus ainda sejam capazes de transportá-lo no nariz ou na garganta e, portanto, transmiti-lo a outras pessoas.

Eu já tive Covid-19. Preciso tomar vacina?

As autoridades de saúde e os médicos incentivam as pessoas já infectadas a serem vacinadas. Dados de ensaios clínicos em estágio final sugerem que as vacinas são seguras e ajudaram a proteger as pessoas com infecções anteriores contra a reinfecção. Isso, independentemente do grau anterior, caso tenha sido leve ou grave.

“Mesmo se alguém já teve covid-19, minha recomendação é ser vacinado assim que a vacina estiver disponível para essa pessoa”, orienta Smith.

“Está muito claro que as duas vacinas disponíveis oferecem um alto nível de proteção, medido nos títulos de anticorpos neutralizantes. Isso pode ser particularmente importante para pessoas que tiveram uma infecção assintomática ou leve”, completa. “Ter um nível mais alto de títulos de anticorpos irá protegê-lo por mais tempo”.

Smith acrescentou que as vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna, autorizadas para uso emergencial nos Estados Unidos, parecem fornecer proteção contra as variantes emergentes do coronavírus que circulam ao redor do mundo.

“Não temos certeza se a imunidade natural protegerá alguém de ser infectado com as novas cepas”, disse Smith.

Uma pessoa que está atualmente doente com Covid-19 deve, no entanto, esperar para receber a vacina depois que os sintomas desaparecerem e puderem sair do isolamento. Não há tempo mínimo recomendado entre a infecção e a vacinação.

Além disso, não há dados de segurança sobre pessoas que receberam terapia com anticorpos ou plasma convalescente para tratar uma infecção por Covid-19. Como a reinfecção parece ser incomum nos 90 dias após a infecção inicial, como precaução, o CDC recomenda que a pessoa espere pelo menos 90 dias.

Não há dados que mostrem que uma vacina protegeria alguém que foi exposto recentemente. Uma pessoa não está totalmente protegida até uma ou duas semanas após receber a segunda dose da vacina.

Eu preciso tomar duas doses da vacina?

As vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna autorizadas para uso emergencial nos Estados Unidos são administradas em duas doses, com 21 e 28 dias de intervalo, respectivamente.

Atualmente, é recomendado que as pessoas sigam esse esquema de vacinação até que mais pesquisas sejam realizadas e as autoridades de saúde recomendem o contrário.

“O conceito de dar apenas uma vacina de reforço para aqueles que tiveram infecção natural foi levantado como uma forma de preservar o fornecimento limitado de vacina e torná-la disponível para aqueles que nunca desenvolveram a infecção”, explica Smith.

Algumas evidências em um artigo pré-impresso, postado no servidor online “medrxiv.org”, na segunda-feira (1º), descobriu que depois de receberem apenas uma injeção da vacina Covid-19, as pessoas previamente infectadas com o vírus tendiam a possuir níveis de anticorpos que eram igual ou superior ao das pessoas que receberam as duas doses, mas nunca foram infectadas anteriormente. O estudo não especifica quais vacinas os participantes receberam.

“Logicamente, as pessoas que tiveram infecção provavelmente começarão com uma linha de base de algum anticorpo neutralizante detectável, então você não está começando do zero como faria para indivíduos que nunca tiveram covid-19”, esclarece Smith.

“No entanto, como a quantidade de anticorpos neutralizantes diminui com o tempo, isso precisa ser cuidadosamente estudado antes de ser lançado”, complementa. “Precisamos de dados para determinar o momento ideal de reforço da infecção natural e se a duração da proteção é equivalente à proteção que você obtém com duas doses da vacina”.

Smith acrescentou que as variantes do coronavírus também parecem ser um risco.

“Também não temos certeza sobre as cepas variantes e como os anticorpos desenvolvidos a partir de uma infecção natural protegem alguém contra uma nova cepa. As vacinas foram testadas e oferecem proteção com base em dados limitados”, disse. “Finalmente, esta abordagem exigiria que os pacientes testassem os anticorpos antes da vacinação e isso pode não estar disponível para todos”.

Eu ainda posso estar sentindo efeitos persistentes do Covid-19?

Muitos dos infectados por Covid-19 podem apresentar sintomas por semanas ou meses.

“Os pacientes podem sentir fadigas severas e persistentes, dores de cabeça, ‘névoa cerebral’, comprometimento ou dificuldade cognitiva leve para pensar ou se concentrar, dores nas articulações, tosse, falta de ar, febres intermitentes, alterações no paladar e no olfato, entre outros sintomas”, avisa Smith. “Esses sintomas persistentes podem durar até 12 semanas e muitos dizem que aumentam e diminuem ou vêm e vão durante esse tempo.”

Se você sofre de sintomas permanentes de covid-19, isso pode depender da gravidade da doença que você tem.

“Algumas pessoas têm sintomas leves e se recuperam rapidamente e não têm grandes problemas. Um dos efeitos colaterais que vimos com frequência é a fadiga crônica”, pontua Crespo.

“Parece que, com pacientes com covid-19, sintomas comuns podem durar vários meses”, acrescentou. “Além disso, se os pacientes tiveram envolvimento pulmonar significativo com pneumonia grave, podem ter dificuldade em se recuperar daquela falta de ar persistente, tosse e cansaço fácil”.

Crespo frisa que, mesmo que a pessoa tenha efeitos prolongados, ainda é importante tomar a vacina contra a covid-19 quando chegar a vez dela.

“Eles deveriam tomar a vacina”, disse. “Não creio que efeitos prolongados tenham um efeito particular na resposta à vacina”.

Fonte: CNN Brasil

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