PESQUISA DA UFRN ESTUDA QUAIS OS TIPOS DE PESSOAS SÃO MAIS SUSCETÍVEIS AO ALCOOLISMO

Por Leonardo Erys, g1 RN

 

Pesquisa desenvolvida na UFRN usa peixes para estudar os efeitos do álcool — Foto: ReproduçãoPesquisa desenvolvida na UFRN usa peixes para estudar os efeitos do álcool — Foto: Reprodução

Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) está estudando quais os tipos de pessoas são mais suscetíveis ao alcoolismo, o comportamento de determinados perfis com o uso do álcool, e uma melhora no tratamento para a doença. A curiosidade é que toda essa análise está sendo feita a partir do estudo do comportamento de peixes ao ingerirem o álcool.

O peixe em questão é chamado de “zebrafish” ou peixe-zebra (de nome científico Danio rerio)A escolha dessa espécie se dá por um motivo específico: a similaridade genética com o ser humano.

“Ele chega a próximo de 80% de genes homólogos com o ser humano. E se a gente tratar de doença, ele chega a até 92% de homologia. E aí ele acaba sendo um modelo para estudos translacionais”, explicou a doutora em Ciências Biológicas Ana Carolina Luchiari, professora do Departamento de Fisiologia e Comportamento da UFRN e coordenadora do estudo.

Ela explica que um animal como o rato, por exemplo, compartilha mais da história evolutiva com o ser humano, mas que a complexidade dele torna o trabalho mais dificultoso nessa avaliação.

“Se a gente está buscando soluções de problemas, quanto mais simples o modelo e mais parecido com o modelo ideal ele for, é interessante pra gente. Então, esse peixe tem essa similaridade e tem comportamentos muito próximos quando a gente usa drogas nesses animais”, explica.

“A gente tem uma validação do comportamento, que é chamada de validação facial da pesquisa, que traz similaridades muito grandes com o comportamento do ser humano quando submetido a álcool e a outras drogas“.

No projeto, há a manipulação diária de algumas concentrações de álcool na água, onde o peixe faz a absorção através da respiração branquial. Na exposição crônica, cerca de 0,5% de álcool é manipulado na água todos os dias, o que corresponde a aproximadamente duas taças de vinho.

“O peixe vai ficando tolerante. Então você vê que depois de um mês de exposição, ele já não tem mais as mesmas respostas comportamentais”, explica a coordenadora do projeto.

O que o projeto busca entender?

Segundo a professora Ana Carolina Luchiari, o que o projeto busca entender, de maneira geral, “é como que a gente vai tratar o indivíduo que tem o alcoolismo desenvolvido – que foi exposto ao álcool durante a fase mais juvenil ou durante a fase mais adulta – num contexto que ele desenvolveu dependência e que ele é doente hoje. E como que a gente pode tratar esse indivíduo”.

Essa pesquisa sobre o alcoolismo começou na UFRN em 2010. Em determinado momento, foram definidos perfis comportamentais e neurológicos em relação ao álcool. Em 2017, teve início o estudo sobre o que bióloga define como “perfis de personalidade”, que analisa o comportamento dos peixes a partir da sua personalidade, se são mais corajosos ou mais tímidos.

E nesse ponto de análise também se enquadra outro objetivo da pesquisa: “Entender por que que alguns indivíduos são mais suscetíveis a desenvolver o alcoolismo do que outros”, explica a professora.

“Outro resultado relevante que tivemos é que alguns perfis apresentam a produção de um fato neurotrófico, que é um fato protetivo pro cérebro, aumentado. E o que a gente quer saber é como que esses indivíduos conseguem manifestar esse fator. Que genes estão relacionadas a essa expressão aumentada do fator protetivo, que faz com que eles então não sejam tão afetados pelo álcool”.

Outro ponto estudado, segundo Ana Carolina Luchiari, é entender fatores que são diagnóstico para indivíduos que apresentam a condição alcóolica fetal, ou seja, aqueles que foram submetidos à droga durante a fase do desenvolvimento embrionário e que tem uma manifestação neurológica-comportamental diferenciada.

Segundo ela, um dos pontos que a pesquisa tem apontado é que indivíduos que tem a síndrome alcóolica fetal “acabam apresentando logo no início do desenvolvimento, então seria um paralelo com o humano de 5 a 7 anos de idade, uma ansiedade generalizada muito marcante”.

Peixes com perfis diferentes

De acordo com a professora, os peixes analisados tem comportamentos diferentes, sendo uns mais corajosos (esses chamados de “bold”) e outros mais tímidos (esses chamados de “shy”). E esse comportamento afeta diretamente a relação com o álcool e o possível avanço para o alcoolismo.

“Nós observamos que animais que tem perfis comportamentais diferentes, aqueles que são mais corajosos, mais tomadores de risco, eles respondem diferente ao álcool do que aqueles que são mais tímidos, mais aversos a risco”, pontuou.

O animal mais tímido é o mais tem tendência a procurar pelo álcool. “Sugerindo que aqueles que são mais tímidos, eles tem uma tendência maior a procurar pelo álcool, porque a timidez dele é muito diminuída quando ele é exposto ao álcool”.

“No entanto, o animal que tem mais coragem, que a gente chama de perfil ‘bold’, ele responde menos ao álcool, então ele precisa de doses maiores pra ter uma responsividade. E isso está muito relacionado com o desenvolvimento de alcoolismo. Então, quando o álcool não faz efeito no organismo, doses maiores são necessárias e a chance desse indivíduo desenvolver a síndrome do alcoolismo é muito maior”.

A definição da personalidade de cada um, segunda explica, é feita previamente, através de testes de exploração de ambiente, afastamento de grupo social ou entrada em ambiente novo, por exemplo. “Aqueles que saem do grupo social e entram no ambiente novo de coloração branca, que eles tem aversão, são os mais corajosos, por exemplo”, explica.

Tratamentos

Entre as conclusões que a pesquisa já apontou, a professora explica que uma dela é que as drogas usadas no tratamento do alcoolismo não são suficientes e não foram eficientes também para os peixes. “Algumas drogas são melhores para perfis de indivíduos corajosos, mas não funcionam em perfis de indivíduos tímidos”, explica.

“Nós queremos sugerir algum tipo de tratamento que seja eficiente para ambos os perfis, talvez até em doses diferentes, mas um tratamento que seja um pouco mais generalizado, que a gente não precise depender de perfil pra poder fazer a utilização”, emendou.

O tratamento que está sendo testado atualmente é com o chá de ayahuasca. “Nós estamos separando os componentes principais da ayahuasca, que é o DMT e a harmina, e testando ambos separadamente pra entender como esses perfis respondem a essas drogas, esses compostos, e como que o indivíduo que é alcóolatra responde a esses compostos”.

A professora explica que o trabalho acontece em parceria ainda com outras universidades, como a Universidade Estadual de Criciúma e a PUC de Porto Alegre (RS), além de uma universidade no Canadá.

“Como o alcoolismo é a doença de adição por drogas lícitas que mais aparece no mundo, tem um incidência muito grande e segundo a OMS é a pior causadora de mortes além do câncer, então a busca por soluções é uma coisa, assim, que todo mundo tem interesse”.

Deixe uma resposta