PARA PERPETUAR MEMÓRIA DA AVÓ QUE SOBREVIVEU AO HOLOCAUSTO, NETO  CRIA UM DOCUMENTÁRIO

Holocausto: Neto cria projeto para perpetuar memória da avó

Cecília Gewertz foi expulsa de casa com toda a família pelos nazistas e passou por cinco campos de concentração

INTERNACIONAL

 Sofia Pilagallo, do R7*

Neto e avó eram muito próximos

Há exatos 76 anos, as tropas soviéticas libertavam os prisioneiros do maior campo de extermínio nazista, Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia, por onde passaram cerca de 1,3 milhão de pessoas, em sua maioria judeus. Entre os poucos sobreviventes, aproximadamente 200 mil, estava a polonesa Cecília Gewertz, que escapou da morte milagrosamente por diversas vezes e só viria a falecer em junho de 2018, aos 96 anos.

Já são mais de dois anos sem Dona Cecília, mas sua memória permanece mais viva do que nunca. Isso porque, em 2018, o neto Marcelo Gewertz, 25 anos, de São Paulo, e seus três irmãos decidiram eternizá-la a partir do projeto Sobre Viver o Holocausto: um documentário de 45 minutos e um site com fotos, vídeos e documentos que traçam em detalhes a história da avó.

No documentário, Cecília conta que após o início da Segunda Guerra, em 1939, quando tinha 17 anos, os nazistas invadiram sua casa e expulsaram toda a sua família — os pais e quatro irmãos —, que foram levados ao campo de extermínio de Treblinka, na Polônia, e, posteriormente, assassinados. Ao todo, ela perdeu 12 familiares na guerra.

Após passar algum tempo escondida, Cecília foi capturada pelos nazistas, e ao longo da guerra, passou por cinco campos de concentração: Auschwitz, Birkenau e Buna Werke, na Polônia; e Ravensbrük e Malchow, na Alemanha.

Em Auschwitz, possivelmente sua experiência mais dolorosa, Cecília caiu nas mãos do médico alemão Josef Mengele, que usava os prisioneiros como cobaias para experimentos desumanos, cruéis e, muitas vezes, fatais.

“Esse projeto é importante por dois principais motivos”, afirma Marcelo. “Primeiramente, quero honrar a história da minha avó e manter essa história viva. Acho que não tem homenagem maior que eu possa fazer para ela e para a família dela, que, infelizmente, eu não pude conhecer. Em segundo lugar, é necessário divulgar essas histórias para que a humanidade não repita o que foi feito no passado.”

Para o neto, gravar o relato da avó provocou um misto de choque, tristeza e admiração, sobretudo devido à proximidade entre os dois. “A minha avó era a pessoa que eu mais admirava e mais admiro. Gostava de passar mais tempo com ela do que com meus pais e irmãos”, diz. “No ano em que ela faleceu, por coincidência, eu arrumei um emprego que ficava a três ruas da casa dela. Acho que era um sinal de Deus. Felizmente eu aproveitei.”

História em detalhes

Apesar de sempre ter tido conhecimento de que a avó fora prisioneira do Holocausto, o jovem nunca tinha ouvido a história com tantos detalhes. “Às vezes, estávamos jantando, ela puxava um assunto e quando víamos, estava contando sobre como sofreu durante a guerra – mas eu nunca tinha ouvido a história inteira.”

Foi apenas em 2014, quando Marcelo tinha 19 anos, que ele e seus irmãos decidiram investigar toda a verdade. Eles, então, foram até a casa da avó e gravaram um depoimento de cerca de uma hora e meia, que ficou guardado até sua morte, quatro anos mais tarde.

“Como ela já não estava mais aqui, pensei que se eu não contasse, ninguém mais iria contar. Por mais que existam museus, institutos e acervos, se nós da família, não tivéssemos divulgado essa história, ela iria acabar se perdendo”, diz.

Para concluir o documentário, no qual foram usados basicamente o áudio e fotos de acervo, foram necessários três meses de trabalho. Já para montar o site, o jovem teve que partir em uma busca incessante — e contínua — por fotos e documentos que não estavam disponíveis na internet com facilidade.

“Não tinha muita informação sobre ela nem sobre vários outros sobreviventes. Quando você joga o nome deles no Google, raramente aparece alguma coisa — um ou outro que deu palestra, que ficou mais famoso”, afirma o neto. “O nome da minha avó está em bases de dados do mundo todo — Estados Unidos, Polônia, Alemanha, em Curitiba, aqui em São Paulo —, mas não está disponibilizado de forma acessível. Tive que ligar, mandar e-mail, cobrar.”

Papel e importância da terceira geração

É por esses e outros muitos motivos que Marcelo defende que o papel da terceira geração de sobreviventes seja o mais importante de todos, e possivelmente decisivo para a perpetuação da memória das vítimas do Holocausto.

“Apesar de os documentos ainda não serem acessíveis, eu vejo que vem sendo feito um esforço nesse sentido. Quando eu comecei a pesquisar o material sobre a minha avó, eu olhei em várias bases de dados e não achei nada. Dois, três anos depois, eu voltei a procurar e encontrei. Meu pai, por exemplo, não conseguiria ter feito isso.”

O jovem acredita ainda que, por mais que muitos sobreviventes tenham bisnetos, a terceira geração será a última que poderá perpetuar essa memória. Baseado em sua própria experiência — Marcelo passou a procurar saber mais sobre o assunto depois de adulto —, ele acha que, infelizmente, os bisnetos não vão conseguir atingir a idade necessária para desenvolver essa consciência e colher os relatos de seus bisavós enquanto eles ainda estiverem vivos.

Além disso, a terceira geração tem mais e melhores meios de registrar, armazenar e divulgar essas histórias do que a geração passada, que contava basicamente com gravadores e fitas cassetes. “Hoje em dia, com um celular básico e acesso à internet, é possível gravar áudios e vídeos de ótima qualidade e compartilhá-los com o mundo em questão de segundos.”

Lições passadas de geração em geração

Para o jovem, a vida da avó, em si, já é uma lição de vida – ele menciona três, no entanto, que merecem maior destaque. Primeiramente, valorizar a família. “Ela sempre contava umas histórias muito fortes, e por mais fortes que fossem, os únicos momentos em que ela realmente se emocionava era quando falava da família – do irmão, o único sobrevivente da família, com quem se encontrou algumas vezes durante a guerra, e sobretudo, dos pais.”

Em segundo lugar, não ter apego ao dinheiro. “Depois da guerra, minha avó começou a trabalhar na Suécia, e ela e umas amigas passaram a ganhar dinheiro. Enquanto as amigas queriam mais e mais, para comprar roupas e comidas caras, ela só queria o básico.”

E, por último, colocar a si mesmo em primeiro lugar. “Minha avó dizia que apesar de que era preciso ter um senso de coletividade quando se estava nos campos, se você não pensasse primeiramente em você em alguns momentos, você não sobreviveria. A comida era muito limitada e alguns trabalhos eram menos precários que outros, então cada decisão poderia significar, efetivamente, a diferença entre a vida e a morte.”

Antissemitismo pelo mundo

Marcelo destaca a ascensão do antissemitismo nos últimos anos. Segundo uma pesquisa realizada pela ONG judaica ADL (Anti-Defamation League) em 2019 em 18 países – citada, inclusive, no site do projeto – as atitudes antissemitas aumentaram consideravelmente em comparação com 2014, sobretudo no Brasil e na Argentina. No geral, 30% dos argentinos entrevistados têm atitudes antissemitas (em 2014, eram 24%), enquanto no Brasil, esse percentual é de 25% (em 2014, era de 16%).

A afirmação “os judeus ainda falam muito sobre o Holocausto” é considerada verdadeira para 60% dos brasileiros e 60% dos argentinos, de acordo com a pesquisa. Além disso, 24% dos brasileiros nunca tinham ouvido falar sobre o Holocausto ou não souberam responder sobre o assunto.

“A melhor forma de combater o antissemitismo é por meio da educação. Infelizmente, ainda tem muita gente que não sabe o que aconteceu, ou que nega o que aconteceu, o que é ainda pior”, afirma. “Os dados são alarmantes e só reforçam ainda mais o quanto é necessário continuar contando essas histórias. Para honrar os sobreviventes, mas sobretudo, para não deixar que os mesmos erros sejam cometidos no futuro. Como diz o ditado, ‘um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la’.”

Fonte: R7

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