Na coluna ESTUDOS TEOLÓGICOS desta segunda-feira trago o 5º evangelho, o Evangelho de São Tomé, que foi descoberto em 1945, num velho cemitério de Nag Hammadi, no Egito, dentro de alguns potes de barro com manuscritos em caracteres copta. Esses manuscritos foram guardados durante 11 anos até que alguns peritos examinaram cientificamente e verificaram que, além de outros manuscritos, esses papiros continham o Evangelho do Apóstolo Tomé. Por ser um Evangelho apócrifo, ou seja, não reconhecido pela Igreja Católica, não é conhecido pelos fiéis em geral, mas traz revelações muito importantes que esclarecem melhor as enigmáticas parábolas e afirmações feitas por Jesus que a humanidade ainda não entendeu.

No estudo de hoje transcrevo a reflexão feita pelo estudioso das escrituras e filósofo Huberto Rohden sobre o 1º capítulo que afirma:

1 – Quem descobrir o sentido destas palavras, não provará a morte.

Segundo Huberto Rohden:

Esta primeira palavra de Jesus referida por Tomé, logo revela o caráter místico do seu Evangelho. Os livros sacros usam a palavra “morte” tanto em sentido físico como metafísico; e aqui “morte” quer dizer a permanência no plano do ego humano, ignorando o Eu divino do homem; porquanto nenhum homem se imortaliza pela mentalização do seu ego, mas tão somente pela transmentalização rumo a seu Eu, ao seu Atman, à sua Alma, que é o espírito de Deus em forma individual.

Já no livro do Gênesis, a palavra “morte” é usada em sentido metafísico, quando os Eloim, as potências divinas, dizem a Adão: “Se comeres do fruto da arvore do conhecimento do bem e do mal (do ego), logo morrerás”. Adão comeu desse fruto e viveu ainda diversos séculos. O texto não se refere à morte do corpo físico, mas sim à morte pelo ego mental: O homem, pelo despertamento do ego-consciência, permanece no plano da mortalidade. Somente subindo ao plano superior da “árvore da vida” é que ele entrará na imortalidade. O homem pode mortalizar-se, e pode também imortalizar-se. A serpente do Gênesis simboliza o ego mortal, o poder que esmagará a cabeça da serpente representa o Eu imortal. Esse processo evolutivo do ego-mortal para o Eu-imortal, vai através de todos os livros sacros.

O próprio Cristo se identifica com o Eu-imortal quando se compara à “serpente erguida às alturas”, que preserva da morte os que haviam sido mordidos pelas serpentes rastejantes do ego humano.

Na Filosofia Oriental, aparece a palavra Kundalini, cujo radical Kundala, significa serpente, símbolo da energia cósmica. A kundalini dormente no chakra inferior da coluna vertebral representa o subconsciente do homem primitivo; quando ela desperta e rasteja horizontalmente, entra o homem na zona do ego-consciente; e, quando kundalini se verticaliza e atige as alturas, então entra o homem no mundo do cosmo-consciente, onde ele se imortaliza.

O homem é potencialmente imortal, ou imortalizável, mas não é não é atualmente imortal; se assim fosse, não poderia sucumbir à morte metafísica. A imortalização, ou imortalidade atual, é a conquista suprema da consciência cosmo-crística do homem. Nesse sentido afirma o Evangelho: “A tal ponto amou Deus o mundo que lhe enviou seu filho unigênito, para que todos aqueles que com ele tenham fidelidade não pereçam, mas tenham a vida eterna”.

Também a história do filho pródigo usa a palavra “morto” em sentido metafísico: O pai daquele jovem diz que seu filho estava morto e reviveu, estava no ego e passou para o Eu. E toda a subsequente alegria e solenidade só se compreende quando se sabe que simboliza a apoteose de um ser humano que se auto-realizou, passando da ego-consciência mortal para a Eu-consciência imortal.

Também no caso do discípulo que queria sepultar seu pai antes de atender ao convite de Jesus, o Mestre usa a palavra “morte” em dois sentidos, físico e meta-físico: “Deixa os (espiritualmente) mortos sepultar os seus (fisicamente) mortos”.

Fonte: O Quinto Evangelho, A mensagem do Cristo segundo Tomé, Huberto Rohden,2001

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