ESPECIALISTAS DIZEM QUE EM DUAS DÉCADAS DE CHAVISMO NO PODER CRISE AMBIENTAL SE INSTALOU NA VENEZUELA

Venezuela: era chavista causou crise ambiental, dizem especialistas

Nicolás Maduro promoveu a exploração dos grandes recursos naturais do território para financiar os custos do país

Nicolás Maduro, o atual presidente da Venezuela

RAYNER PEÑA R./EFE

Em duas décadas de chavismo no poder — primeiro com Hugo Chávez e depois com Nicolás Maduro —, uma crise ambiental se instalou na Venezuela, segundo especialistas. Isso, apesar do fato de que o país, que conta com as maiores reservas de petróleo do mundo, produz muito menos petróleo atualmente. As informações são do portal Infobae.

De acordo com Cristina Burelli, fundadora do SOS Orinoco, grupo que busca proteger a Amazônia, em entrevista ao jornal americano Financial Times, houve na Venezuela, ao longo desse período, “um sistema de desmantelamento das instituições ambientais”.

Outro especialista, Francisco Dallmier, diretor do Centro de Conservação e Sustentabilidade do Instituto de Biologia e Conservação do Smithsonian, em Washington, descreveu o que está acontecendo no país como um “ecocídio”.

Um dos principais problemas ambientais que assolam a Venezuela é que, à medida que a economia implodiu e as receitas do petróleo dimunuíram significativamente, o regime de Maduro buscou outras vias de financiamento, entre elas, a exploração dos grandes recursos naturais que o país detém.

O ditador promoveu a mineração em setores da Amazônia. Principalmente em ouro, mas também diamante, coltan, bauxita, minério de ferro e cobre. Além disso, enquanto a deterioração da infraestrutura petrolífera avança, derramamentos e manchas de óleo estão se tornando mais comuns.

“Temos um dos lugares mais ricos do planeta, alguns recursos naturais fantásticos, temos todo um sistema de áreas protegidas que foi criado para proteger esses recursos, e agora temos o início de uma onda de destruição, e não há indicação de que as coisas vão mudar”, afirmou Dallmier.

Desde que Chávez chegou ao poder, em 1999, cerca de 3.800 km² de cobertura arbórea foram destruídos na Amazônia venezuelana. Ambientalistas locais afirmam que o ritmo está se acelerando e que a mineração representa uma ameaça crescente à biodiversidade do país.

A Rede de Informações Socioambientais Georreferenciadas da Amazônia (RAISG) diz que nas últimas duas décadas a quantidade de terras usadas para mineração ao sul do rio Orinoco triplicou. Em 2016, Maduro estabeleceu um arco de mineração, que vai desde a fronteira da Venezuela com a Colômbia até a fronteira oriental com Guyana, abrangendo 12% do território nacional.

O regime chavista garante que a mineração é bem regulamentada. Mas inúmeros relatórios e ativistas ambientais denunciam que gangues criminosas e guerrilhas colombianas — abrigadas e protegidas pela ditadura — lutam pelo controle dos recursos explorados e saqueados ilegalmente. Grupos ambientalistas advertem, inclusive, que a mineração não se limita apenas ao arco, mas se alastra por parques nacionais, como o de Canaima, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Outra preocupação para grupos ambientalistas é a ameaça do mercúrio usado na mineração de ouro lixiviar na água. A SOS Orinoco estima que até 70% do curso do Caroní — o segundo maior rio da Venezuela e com quase 1.000 km de extensão — possa “estar em risco de contaminação devido ao uso de mercúrio nas operações de extração de ouro”.

Testes realizados pela ONG entre a comunidade indígena Pemón, que se distribui pelo sudeste do estado venezuelano de Bolívar, determinaram que, na maioria dos casos, os níveis de mercúrio “excederam o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde” como seguro para consumo humano. “As maiores concentrações foram evidenciadas em amostras de menores de 18 anos que não trabalham nas minas.”

Vale ressaltar ainda que a ditadura chavista não só aumentou a exploração dos recursos naturais, mas também a exploração dos trabalhadores nas comunidades mineiras. Um guia turístico do povo Pemón, revelou ao Financial Times, sob condição de anonimato para evitar represálias, as condições de trabalho a que esses trabalhadores estão submetidos nas minas de ouro.

Ele relatou que trabalha em uma equipe de seis pessoas (cinco mineiros e um cozinheiro) e que o grupo recebe 40% dos lucros de todo o ouro encontrado. O resto vai para os donos das minas.

“Eles pagam em ouro. Você pode trocá-lo por dinheiro na hora, mas com uma taxa de câmbio muito ruim (…) Se não, você pode levá-lo para Puerto Ordaz [uma cidade ao norte de Canaima] e mandar derretê-lo e transformá-lo em um pequeno lingote . Então você pode vendê-lo por mais”, afirmou.

“Eles nos observavam atentamente o tempo todo (…) Os proprietários disseram a um mineiro: ‘Eu vou te pagar mais se você vigiar os outros e garantir que eles não roubem’. Mas eles nos contaram tudo. Fomos colocados uns contra os outros”, completou.

Na última cúpula contra as mudanças climáticas, realizada no ano passado em Glasgow, grande parte da comunidade internacional se comprometeu a deter e reverter o desmatamento até 2030. Das nações amazônicas, Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Guiana e Suriname assinaram o compromisso. A Venezuela, por outro lado, não.

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