Para quem gosta de história este é o primeiro de uma trilogia das mais interessantes e ricas em conteúdo que nos ajuda a compreender com profundidade o porquê de o Brasil ser hoje como é. Um país onde a corrupção e a lei de Gerson imperam com tanta força. Não é a toa que justamente aqui explodiu o maior caso de corrupção da história mundial. Ao mesmo tempo surpreende e é contraditório termos chegado, em certo momento a sermos a sétima potencia econômica mundial em apenas 200 anos de história. Você pode se perguntar por que só 200 anos? Leia o livro que você vai saber.
O propósito deste livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar a história da corte lusitana no Brasil e tentar devolver seus protagonistas à dimensão mais correta possível dos papéis que desempenharam duzentos anos atrás. ´1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil´ é o relato sobre um dos principais momentos históricos brasileiros.

RESUMO DO LIVRO:

Introdução
O Brasil foi descoberto em 1500, mas, de verdade, só foi  inventado como país em 1808. Foi quando a família real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro fugindo das tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte. Até então, o Brasil ainda não existia.
Pelo menos, não como é hoje: um país integrado, de dimensões continentais, fronteiras bem definidas e habitantes que se identificam como brasileiros. Até 1807, era apenas uma grande fazenda, de onde Portugal tirava produtos, que levava embora.
A vinda da corte iria transformar radicalmente esse cenário. Em apenas treze anos, entre a chegada e a partida da corte, o Brasil deixou de ser uma colônia atrasada, proibida e ignorante para se tornar uma nação independente. Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, tão decisivas – em tão pouco tempo.

A fuga

Ameaçado por Napoleão, D. João abandona Portugal e foge para o Brasil.
Na manhã de 29 de novembro de 1807 os portugueses acordaram com a informação de que a rainha, D. Maria I (também conhecida como “A Rainha Louca”), seu filho, o príncipe regente D. João, e toda a Corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha Britânica.
 
D. João fora colocado contra a parede e obrigado a tomar a decisão mais grave da sua vida. Seu adversário era ninguém  menos do que  Napoleão Bonaparte. O imperador francês estava em guerra com a Inglaterra, aliada de Portugal, e havia decretado o Bloqueio Continental, ou seja, fechado os portos europeus ao comércio de produtos britânicos.
Assim, em novembro de 1807, as tropas francesas marcharam em direção a Lisboa, prontas para varrer Portugal e chutar seu príncipe regente do trono. Sem exército para se defender, D. João preferiu fugir para o Brasil, protegido pelos navios de guerra britânicos, levando junto a família real, a maior parte da nobreza, seus tesouros e todo o aparato do Estado.

A viagem

Afligida por tempestades e infestações de piolhos, a corte atravessa o oceano.
Entre 10 000 e 15 000 pessoas acompanharam o príncipe regente na viagem ao Brasil. Era muita gente, levando-se em conta que a capital Lisboa tinha cerca de 200 000 habitantes. O grupo incluía pessoas da nobreza, conselheiros reais e militares, juízes, advogados, comerciantes e suas famílias. Também viajavam médicos, bispos, padres, damas-de-companhia, camareiros, pagens, cozinheiros e cavalariços.
A viagem não foi exatamente um cruzeiro de luxo. A esquadra portuguesa, com total de 58 navios – incluindo a escola inglesa – levou quase dois meses para atravessar o Oceano Atlântico. Logo nos primeiros dias de viagem, a esquadra foi atingida por uma tempestade. No meio da tormenta, os navios se perderam uns dos outros. O enjôo era coletivo. A  corte portuguesa não parava de vomitar por sobre as amuradas dos navios. Durante a travessia alguns navios ficaram infestados de piolhos. Para combater a praga, as mulheres nobres tiveram de raspar os cabelos e untar as cabeças carecas com banha de porco e pó anti-séptico à base de enxofre.
No calor sufocante das zonas tropicais, ratos, baratas e carunchos infestavam os depósitos de mantimentos. A água apodrecia, contaminada por bactérias e fungos. Por falta de frutas e alimentos frescos, as pessoas ficavam doentes.

A chegada

Dom João chega a Salvador e começa a tomar decisões para mudar o Brasil.
No dia 22 de janeiro de 1808, após 54 dias de mar e aproximadamente 6 400 quilômetros percorridos, D. João aportou em Salvador. Outra parte da esquadra portuguesa, que havia se separado durante uma tempestade, tinha chegado ao Rio de Janeiro uma semana antes, no dia 17 de janeiro.
D. João passou um mês na Bahia, antes de seguir para o Rio de Janeiro. Foram dias de incontáveis festas, celebrações, passeios e decisões importantes, que haveriam de mudar os destinos do Brasil.No dia 28 de janeiro, apenas uma semana depois de aportar em Salvador, o príncipe regente assinou seu mais famoso ato em território brasileiro: a carta régia de abertura dos portos ao comércio de todas as nações amigas. Até então, o comércio com o Brasil era monopólio dos portugueses.

O Brasil em 1808

Ao chegar ao Brasil, a corte encontrou uma colônia atrasada e ignorante.
Às vésperas da chegada da Corte ao Rio de Janeiro, o Brasil era um amontoado de regiões com pouco contato, isoladas umas das outras, sem comércio nem qualquer outra forma de relacionamento.O mapa do Brasil de 1808 já era muito semelhante ao atual.
O Tratado de Madri, de 1750, tinha revogado o antigo Tratado de Tordesilhas e redesenhado as fronteiras das colônias portuguesa e espanholas com base no conceito de ocupação efetiva do território.
A maioria da população  ainda se concentrava no litoral.Com um imenso território virgem, escassamente povoado, o Brasil tinha pouco mais de três milhões de habitantes – menos de dois por cento da sua população atual. De cada três brasileiros, um era escravo. A população indígena era estimada em 800 000 pessoas. Era uma população analfabeta, pobre e carente de tudo.
Tudo isso começaria a mudar com a chegada da corte portuguesa.

A transformação

No Rio de Janeiro, D. João põe mãos à obra e cria um país a partir do nada.
Em 1808, havia tudo por fazer no Brasil. Entre outras carências, a colônia precisava de estradas, escolas, tribunais, fábricas, bancos, moeda, comércio, imprensa, biblioteca, hospitais, comunicações eficientes. Em especial, necessitava de um governo organizado que se responsabilizasse por tudo isso. D. João não perdeu tempo. No dia 10 de março de 1808, quarenta e oito horas depois de desembarcar no Rio de Janeiro, organizou seu novo gabinete.
Caberia a esse ministério criar um país a partir do nada.Além de abrir os portos ao comércio com outras nações, pondo fim do monopólio português, D. João autorizou a construção de fábrica, a abertura de estradas e a inauguração de escolas de ensino superior. Também criou o Banco do Brasil, a Imprensa Régia e o Jardim Botânico. As regiões mais distantes foram exploradas e mapeadas. A navegação a vapor foi inaugurada em 1818.
As transformações teriam seu ponto culminante em 16 de dezembro de 1815. Nesse dia, véspera da comemoração do aniversário de 81 anos da rainha Maria I, D. João elevou o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, e promoveu o Rio de Janeiro à sede oficial da coroa.

O retorno

Portugal abandonado se revolta e exige a volta da corte para Lisboa
Os treze anos em que D. João VI permaneceu no Rio de Janeiro foram de fome e grandes sofrimentos para o povo português.
Entre 1807 e 1814, Portugal perdeu meio milhão de habitantes, vítimas da fome e da guerra ou refugidos em outros países. Nunca, em toda sua história, o país havia perdido um número tão grande de habitantes em tão pouco tempo.
Portugal também se empobreceu. A abertura dos portos no Brasil prejudicou os comerciantes, que até então se beneficiavam do monopólio do comércio com a colônia. E sem o comércio com o Brasil, Portugal não era nada.
Em 1820, depois de mais de uma década de sofrimentos, o povo português se revoltou. Tropas rebeladas reuniram-se na cidade do Porto, e se declararam contra o domínio inglês. No manifesto que distribuíram à população, os militares lamentavam a situação de penúria em que o país se encontrava e exigiam a volta do rei D. João VI.
Ameaçado de perder Portugal, D. João decidiu retornar a Lisboa. Antes se reuniu com seu filho, o príncipe D. Pedro, e lhe fez uma recomendação: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, que para algum desses aventureiros”.

O novo Brasil

D. João VI volta para Lisboa, mas deixa para trás um Brasil pronto para a independência
D. João partiu do Rio de Janeiro no dia 26 de abril de 1821. Sua comitiva incluía cerca de 4 000 portugueses – um terço do total que o havia acompanhado na fuga para o Rio de Janeiro, treze anos antes. Conta-se que o rei embarcou chorando. Se dependesse apenas de sua vontade, ficaria no Brasil para sempre.
A preservação da integridade territorial foi uma grande conquista de D. João VI. Sem a mudança da corte portuguesa, os conflitos regionais teriam se aprofundado, a tal ponto que a separação entre as províncias seria quase inevitável. Não seríamos este país continental de hoje, mas teríamos o território dividido em diferentes nações.
Graças a D. João VI, o Brasil se manteve como um país de dimensões continentais, que hoje é o maior herdeiro da língua e da cultura portuguesas. Em outras palavras, ao mudar o Brasil, D. João VI o perdeu para sempre. O resultado foi a Independência, em 1822.

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