A coluna DE PONTA-CABEÇA desta segunda-feira convida o leitor para fazer uma REFLEXÃO quanto aos DESENTENDIMENTOS que circundam as nossas vidas. Confira e tire as suas próprias conclusões. Boa leitura!

Desentendimentos

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Você já esteve conversando com alguém em português e não entendeu bulhufas do que a outra pessoa falou? Isso acontece comigo o tempo todo. Às vezes, tenho a sensação de estar em outro país, em meio a uma civilização completamente diferente, falando uma língua totalmente desconhecida. E, aqui, não estou contando as diferenças culturais ou os coloquialismos.

É que falar a mesma língua não tem somente o seu sentido literal.

Todo discurso tem uma linha de raciocínio. Quando a gente fala a mesma língua, significa que a gente consegue acompanhar esse raciocínio. E, para acompanhar o raciocínio, a gente precisa ter base. Conhecimento.

Assim, acontece quando assistimos uma aula. Se a gente não fizer ideia do que se trata aquela aula, a gente não vai conseguir acompanhar. Se a gente não tiver vocabulário para aquele assunto, as palavras vão, simplesmente, entrar por um ouvido e sair pelo outro. Elas não serão processadas. E vai realmente soar como se estivéssemos ouvindo uma língua que não dominamos. Como se estivéssemos de ponta-cabeça.

Assim, acontece quando fazemos amizade. Aproximamo-nos de pessoas com as quais sentimos afinidade. E a afinidade nada mais é do que compreender aquela pessoa. Vocês têm praticamente o mesmo vocabulário, falam sobre os mesmos assuntos, falam a mesma língua. E é por isso que vocês se dão tão bem.

É claro que acontece de termos amizades com pessoas bem diferentes da gente. Mas os laços não costumam se estreitar. Porque, apesar das tentativas, você não compreende. Vocês têm vocabulários diferentes, têm assuntos diferentes, não falam a mesma língua. Vocês se afastam. Costumam se darem um tempo. Se vêm, talvez, nas datas comemorativas. No dia do aniversário? É, parece ser suficiente.

Quando, um dia, você for para um país diferente, seja para morar ou passear, vai acontecer algo muito interessante. Você vai encontrar pessoas, lá fora, de várias nacionalidades. Você vai sair com elas, conversar, curtir, viajar, tirar fotos. Mas as pessoas com as quais você terá mais intimidade e desejará mais estar junto serão aquelas da sua própria nacionalidade. Se for conterrâneo de cidade, melhor ainda.

Ou seja, a gente sai do nosso país para ter uma experiência internacional em outro país, mas, no final das contas, a gente tem apenas uma experiência nacional em outro país. Isso vai acontecer com qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade. Trata-se de uma tendência humana: atração por afinidade.

Há pessoas que até completam a frase das outras. Há pessoas que sabem exatamente o que você vai falar no próximo segundo do seu discurso, porque existe coerência no que você fala dentro do entendimento delas. Vocês se entendem. Vocês falam a mesma língua.

Mas nada é imutável ou estático a ponto de não poder haver entendimento e afinidade entre pessoas que falam línguas diferentes. Só que aprender novas linguagens requer bastante esforço. Requer paciência para decifrar os significados daquelas novas palavras ou do que está nas entrelinhas. Requer curiosidade e abertura para aprender.

Aprender que nem tudo precisa ser dito da forma que você imaginou. Aprender que existem várias maneiras de dizer a mesma coisa. Aprender que desentendimentos sempre vão existir, mas não precisam durar.

Autoria: Deborah Braga

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