CRÔNICAS: SONHOS INTERROMPIDOS, POR ANA MADALENA

Diante de tanta barbaridade que estamos enfrentando nos dias atuais, em pleno século XXI, tendo que encarar uma guerra do outro lado do mundo, mas que afeta todo o planeta, violentando quase todas as regras humanitárias impostas pelos tratados e convenções que regulam as guerras não podia deixar de haver pelo menos uma inspiradora  CRÔNICA da nossa incrível colaboradora Ana Madalena, que desta vez escreveu sobre “Sonhos interrompidos”, uma crônica que fala dos inúmeros sonhos e aspirações da pátria ucraniana que foram destruídos por causa dessa guerra estúpida.

Sonhos interrompidos

Alguém me disse que Freud tinha dito que o maior ato de poder é dar nome à alguém. E eu agora lhe digo: cuidado ao escolher nomes. Falo por causa própria; ouvi muito “Madalena arrependida”, mas, por sorte,  escapei ilesa. Atualmente, com o mundo  cheio de bullying, a atenção deve ser redobrada! Ainda bem que meus filhos gostaram dos seus nomes, pelo menos nunca recebi queixas! A verdade é que a maternidade é uma eterna preocupação; só estamos felizes quando nossos filhos estão bem.

Fui uma grávida feliz, apesar de descolamento de placenta, enjoo, melasma e ter engordado 15 kg em  cada gravidez, cujo saldo final foi uma conta que nunca fechou.  Eu vivia em êxtase  por estar gerando uma vida na minha nave espacial. Dia desses voltei no tempo; estava remexendo meu baú, onde encontrei algumas roupinhas de bebê que guardei de lembrança. Na verdade não estava procurando por elas; uma amiga que viajaria no início do ano para o gelado inverno da Europa, perguntou se eu tinha roupas de frio.

O meu baú acomoda diferentes fases da minha vida; é de longe, a coisa mais lúdica que tenho em casa. Pessoas de todas as idades gostam de dar uma olhadinha; ali eu tenho desde meu primeiro uniforme de colégio, sapatilha de balé,  patins, até meu vestido de noiva, um clássico que usaria ainda hoje. E, no meio de tudo isso, guardo as roupas de frio. Enviei uma sacola para minha amiga, que adorou as meias de lã coloridas, luvas e echarpes e principalmente a balaclava.

– A bala o quê??? Não faço ideia do que você está falando…

– Ana, é o gorro de lã que deixa só os olhos de fora. Foi “trend” na semana de moda ano passado.

O tal gorro eu comprei numa lojinha em Bariloche, há muitos anos. Nem sabia que tinha esse nome, mas, estranhamente, fui inundada por vários artigos falando desse acessório, que leva o nome de uma cidade portuária ucraniana, Balaclava, e foi cenário de uma batalha durante a guerra da Crimeia, em 1854. As tropas britânicas e irlandesas foram enviadas para lutar contra soldados russos em condições de congelamento. Obrigada Google.

Voltando aos dias atuais, é com muita tristeza que, mesmo depois de dois anos de pandemia ( e contando…), agora assistimos  em tempo real,  o terror de uma  guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Sobre esse último país, somente li a respeito ha alguns anos pela curiosidade em saber mais sobre o lugar onde nasceu Clarice Lispector, uma das minhas escritoras favoritas. Mas agora, por onde vou, encontro pessoas falando detalhes sobre a Ucrânia, como se fossem vizinhos de porta.  A sensação que tenho é a mesma do início da pandemia, quando todos viramos cientistas e profundos conhecedores sobre virus, vacina e respiradores. Não, não é uma crítica, muito pelo contrário. Acho até  muito bom quando as pessoas aprofundam seus conhecimentos e não se limitam a leituras rasas. Falando nisso…

Semana passada eu estava numa padaria, na fila das tapiocas, e escutei a conversa de dois rapazes; um deles, planejando uma viagem para a Turquia. Ele disse que resolveu mudar o itinerário para o Chile, com receio da guerra, e perguntou ao colega se ele tinha a “balalaiva” para emprestar. Eu, que há pouco tivera conhecimento da palavra,  tive o Ímpeto de corrigi-lo, mas aí fui novamente surpreendida:

– Será que por lá tem loiras bonitas como as ucranianas?

O colega, alheio ao “tour du blond” feito por um político, retrucou:

-E no Chile tem loira?

Por sorte, minhas tapiocas ficaram prontas.

Dizem que as mulheres ucranianas são bonitas;  não parei para observá-las como um tipo especifico de beleza. Aliás não faz sentido alguém pensar ou tecer qualquer comentário sobre esse assunto, diante de tanto sofrimento. O que li é que elas são muito fortes e valentes! Até 2016, as Forças Armadas da Ucrânia não aceitavam mulheres em posição de combate e algumas delas cobriam a cabeça com a balaclava para esconder seu gênero. A verdade é que homens e mulheres ucranianos têm uma longa história de sofrimento, sendo uma delas, o “Holodomor”, genocídio de milhões de pessoas, vitimados pela fome, em razão da política econômica de Stalin, entre os anos 1931 a 1933. A palavra  holodomor significa “deixar morrer de inanição”. Apesar do número estimado, quatro milhões de mortes, alguns meios de imprensa negaram a existência de tal barbárie e colocaram uma pedra em cima dessa história.

Falando em barbárie, e voltando a Freud, ele, que teve três, dos seus filhos, lutando na Primeira Guerra Mundial, escreveu um texto em 1915, intitulado “Considerações atuais entre a guerra e a morte”, onde finaliza dizendo que a “guerra desfaz todos os laços de solidariedade entre os povos combatentes e ameaça deixar atrás de si uma exasperação que durante um longo tempo, impossibilitará o reatamento de tais laços”.

Freud chamava a civilização moderna de hipócrita e dissimulada e que a guerra era uma fissura nos pilares do projeto civilizatório iluminista europeu, povo que detinha os valores culturais, filosóficos, científico,  artísticos, etc. Diante dessa constatação, ele se perguntava como justificar a dicotomia entre civilização e barbárie… Pelo visto, nem Freud explicou.

Os corredores humanitários são uma pausa temporária em uma zona desmilitarizada;  milhares de famílias seguem nesses corredores em busca de um novo lugar para morar. A guerra gera caos em termos práticos, como adquirir água, alimento, aquecimento e um local seguro, mas gera um trauma muito maior no emocional. Acredito que não há nada pior do que não ter perspectiva de um futuro, um amanhã… Assisti muitas cenas fortes, uma delas, em particular, me emocionou:  a de criancinhas, vestindo pesados  casacos de frio, que chega a atingir 20 graus abaixo de zero,  em um bunker, onde uma menina canta a música do filme Frozen. Outra imagem forte foi a do estacionamento de carrinhos de bebês, para

a chegada dos refugiados com seus filhos, uma verdadeira lição de humanidade.

Recebi um post contendo uma foto em preto e branco, onde estão a figura de uma criança, de uma mulher e de um casaco pendurado em um cabide, com a frase de um poeta e escritor palestino, Malimoud Darwish: “A guerra terminará, os líderes apertarão as mãos  e aquela velha mãe esperará por seu filho martirizado, aquela mulher esperará por seu amado marido e aquelas crianças esperarão por seu pai herói… Não sei quem vendeu a pátria, mas sei quem pagou o preço”.

Há muitos anos eu assisti o filme “A escolha de Sofia”, uma história passada na guerra, onde uma mãe tem que fazer a escolha de qual dos filhos morrerá. Ela, calculando que sua menina não resistiria ao sofrimento dos campos de concentração, opta pela morte da filha, salvando o filho de morrer em câmeras de gás. Não sei se por causa do filme, mas  tornou-se usual  dizer essa expressão, quando é exigida uma escolha de tamanha dificuldade. Com certeza existem muitas Sofias na Ucrânia, tendo que fazer escolhas difíceis, como a mãe que enviou o filho para atravessar o corredor humanitário sozinho, com medo de que algo pior pudesse lhe acontecer. Ele chegou bem e espero que ela saiba disso.

Na guerra, lutar pela vida é a única opção. Infelizmente, o saldo será sempre negativo; ou perdem-se vidas ou sonhos. Que Deus proteja os inocentes!

Ana Madalena

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