CRÔNICAS: SOBRE NASCIMENTO, INFÂNCIA E OUTRAS COISINHAS…POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira, aqui na coluna CRÔNICAS temos uma história verídica travestida de conto que a imaginativa Ana Madalena com muita inspiração criou, tirando do fundo do baú da sua rica e feliz experiência de vida. Foi buscar na sua infância lembranças imemoriais, lúdicas de relacionamentos com pais, irmãos e coleguinhas da escola. Então convido você a ler essa crônica atraente que mistura ficção com realidade! 

Sobre nascimento, infância e outras coisinhas…


Dizem que muito do que somos é explicado pela posição dos astros na hora do nosso nascimento. Eu discordo; acho que depende muito mais da hora da concepção, que, no meu caso, quase não aconteceu. Explico: sou fruto de uma camisinha furada; posso encher o peito e dizer que, na corrida de obstáculos, cheguei em primeiro lugar ao pódio. Isso não é para qualquer um. Até hoje tenho na memória aquele milésimo de segundo quando rompi a borracha de látex e nadei rumo ao útero. Na hora pensei: -Enfim só! Livrei-me daquela aglomeração! Nada como reinar absoluta durante nove meses, vivendo de sombra e água fresca.

Era madrugada chuvosa. Dentro e fora da barriga da minha mãe. Escutei sua voz abafada e, pelos movimentos estranhos, percebi que algo não ia bem. Senti um empurrão.
-Como assim, estou sendo expulsa do meu úterozinho? Ainda falta um mês para terminar o contrato!
Por mais que eu não quisesse fazer a mudança, não teve jeito e cheguei ao mundo, antes do tempo. Eu, que já estava toda trabalhada para nascer leonina, do nada, me transformei num caranguejo. Os astros devem ter se enganado, tamanha a confusão que causaram. Minha mãe, coitada, que engravidara quando meu irmão estava com cinco meses, ainda teve que correr contra o tempo para organizar minha chegada inesperada. Diferentemente dele, que era péssimo para comer, já nasci faminta e com o dedo atolado na boca. Não foi de estranhar, quando, aos onze anos, tive que fazer uso de aparelhos dentários, de tão dentuça que era. À época não era comum, mas minha mãe sempre atenta, correu para resolver esse probleminha. Claro que rapidinho virei motivo de chacota e fui chamada de “boca de ferro”, um dos apelidos carinhosos que recebi na vida.

Apesar desse meu nascimento micareta, não fui uma bebê frágil. Muito pelo contrário. Me sentia poderosa, tanto por ter vencido a corrida e, mais ainda por ser a princesinha do lar. A verdade, confesso, é que eu queria mesmo ser filha única, mas na impossibilidade, curti ser única filha. Só fiquei desconfiada mesmo quando vi a barriga da minha mãe crescer…. Aí tem coisa, pensei!. E não deu outra! Nunca esqueci da noite que me colocaram na cama e disseram que eu ia ganhar um irmãozinho.
 – Você prefere chamá-lo Gustavo ou Alexandre?
Quem se importa, pensei! Mas avaliei bem e percebi que estaria no lucro. Ainda reinaria como a menininha da casa…

Eu só não contava com o fator surpresa! Ver minha mãe chegar em casa com um bebê de laço rosa no cabelo estava fora dos meus planos. Corri para o meu quarto e chorei. Chorei mais ainda quando disseram que escolheram um nome para ficar rimando com o meu. Naquela época era comum nomes compostos, então éramos Ana Madalena e Suzana Helena. Eu nunca tive direito ao diminutivo; não faço ideia por que nunca fui Aninha, enquanto minha irmã já veio ao mundo como Suzie.

Percebi uma remodelação de móveis na casa. Meu bercinho passou para o quarto dos meus pais e eu ganhei uma cama, de onde eu caía praticamente todas as noites, algumas de propósito. Cansaram de me encontrar dormindo no chão. Eu, que lutava para dividir atenção com meu irmão, de repente me vi tendo que fazer contorcionismo para ser notada. A caçulinha era o xodó da família; o mais velho, primogênito, era o orgulho. Eu era apenas a filha do meio.

Daí em diante minha vida só piorou, fiquei rebelde mas, por sorte,  já estava em tempo de ir para a escola. Reza a lenda que nos bancos escolares eu era um doce de candura,  participava de todas as atividades recreativas, e por isso mesmo, fui até escolhida para ser a noiva da quadrilha da minha turma, posição almejada por todas as meninas. Eu fiquei empolgadissima, mas, apesar da minha alegria, pude constatar que era alvo de inveja, de uma inveja que tinha requintes de crueldade.

E aconteceu o que temia. No recreio, quando estávamos no parquinho, fui desafiada a subir no escorrego. Todos sabiam que eu tinha medo de altura.  E lá em cima eu congelei; hoje sei que foi um ataque de pânico. A menina que estava atrás de mim deu um empurrão e, como eu ainda estava em pé,  me desequilibrei e cai de cara no chão. Ouvi muitas risadas. Lembro até  que estava vestindo um shortinho azul e uma blusa imaculadamente branca, que nessa hora, virou uma mistura de barro e sangue. O meu dente da frente, que ainda teria alguns anos na minha boca, caiu com o impacto. Ninguém da minha turma tinha perdido dente de leite até então.  Desde esse dia  passei a ser identificada como” a banguela do preliminar”.

Comecei a me ausentar do recreio. Algumas amiguinhas foram solidárias e por vezes permaneceram na sala comigo. Ir para o colégio tinha se tornado um fardo e, da menina falante, não restara nada. Virei introspectiva, passei a ler revistinhas, hábito que me dava prazer e que, no futuro próximo me impulsionaria para ser uma leitora voraz. O mundo dos livros era uma realidade à parte e que me preenchia totalmente. Só para constar,  rapidinho voltei a ser tagarela, foi só uma fase.

Muito se passou desde então. Adoro  relembrar algumas dessas histórias, mas não com saudosismo melancólico, até porque o passado deve ser um lugar de referência e não de residência. A minha menina “do meio” sobreviveu ilesa a infância e adolescência e, adulta, está tirando de letra esse mundo de fakes, filtros e outras coisinhas mais…

Ana Madalena

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