CRÔNICAS: ROTINA, POR ANA MADALENA

Hoje é quarta-feira, feriado de Tiradentes! Como todas as redações dos maiores jornais e meios de comunicação do país param em feriados nacionais este modesto e humilde blog também poderia dar um tempo, mas quando se tem mentes talentosas, acima da média, trabalhando em tempo integral, não podemos nos dar ao luxo de omitir, postergar ou ignorar uma produção literária da mais alta categoria e criatividade. Por isso temos que honrar a criatividade, o talento e a produtividade dos nossos colaboradores. Principalmente, quando esses colaboradores é quem nos proporciona essa maravilhosa audiência. Portanto vamos ficar agora com a leitura da CRÔNICA Rotina da talentosa Ana Madalena! 

Rotina no home office: como equilibrar com a vida pessoal - G&A Comunicação Corporativa
Talvez você tenha um amanhã
Talvez você tenha amigos
Talvez você até tenha tempo para dar e vender
Mas algumas pessoas só têm o hoje, igual a todos os hojes…

Rotina 

Dormia com a janela aberta, mesmo sabendo que o sol entraria muito cedo. Não era de acordar tarde, mas também não queria saudar o astro rei. Usava máscara nos olhos para evitar a claridade; tinha fotofobia. Todos os dias ela acordava “na marra”, quando sentava na beira da cama, fazia suas orações e finalmente se levantava.

Era reservada, mas não perdia oportunidade de saber da vida alheia. Ao lado da sua casa havia uma obra. Logo cedo os pedreiros se reuniam para o café, ao mesmo tempo em que ela preparava o seu. E enquanto aguardava as  torradas ficarem prontas, apurava os ouvidos para saber das fofocas dos trabalhadores. Há alguns dias acompanhava o romance de um deles com uma mocinha da sua rua. Estava indignada. Ela era de menor e ele era casado. Qualquer dia contaria tudo! Onde já se viu?

Outro pedreiro, José, um sujeito calmo, cheio de predicados, comprara um carrinho usado para presentear a esposa. Há alguns meses estava apertado para pagar as prestações. Não fez as contas do custo de manutenção e a gasolina tinha aumentado bastante. A esposa não queria mais andar de ônibus; dizia que era coisa de pobre. Ele, muito apaixonado, arranjara outro emprego, dessa vez como vigia. Passava os dias cansado e cochilando pelos cantos. Na única folga, dormia o dia todo enquanto a esposa reclamava que queria passear. Ele pensou que com a pandemia ela fosse se aquietar, afinal era obesa e tinha pressão alta…

Fátima adorava escutar essas histórias mas tinha que sair para caminhar; dava voltas e mais voltas no quarteirão. Na pracinha, fazia musculação numa dessas academias ao ar livre. Não gostava de se exercitar, mas era importante para sua saúde. Felizmente as pessoas da sua rua eram tão disciplinadas quanto ela. E entre um exercício e outro, procurava saber da artrite de D. Celeste, o machucado de S. Luís e a saúde da filha de D. Arlete, uma história triste, sem solução. Sabia que ela precisava desabafar suas dores e a ouvia com atenção. Vez por outra aconselhava, conselhos ótimos, por sinal. Ela própria se sentia a melhor psicóloga do mundo quando alguém lhe dizia que suas palavras surtiam efeito. E no íntimo ela pensava porque ela própria não se ouvia…

Voltava pra casa louca por um banho. Sempre reclamava do calor! Daí até o horário de almoço era em home office, sem chance de levantar para nada. Odiava aquele emprego mas diante da situação do país, melhor continuar. Pelo menos tinha um fixo, carteira assinada, férias e décimo. Ao meio dia fazia seu almoço, mas quando não estava inspirada, comia macarrão instantâneo mesmo. Às vezes nem isso; apenas um suco para ter tempo de dar um cochilo.

À tarde digitava o relatório das cobranças que tinha feito pela manhã. Ela negociava as dívidas dos clientes de uma corretora de imóveis. Algumas vezes fechava ótimos acordos, mas no geral ouvia xingamento de todo tipo. Estava tão acostumada com a gritaria no “pé do ouvido” que até abstraía; geralmente ficava escolhendo uma nova série, enquanto vez por outra dizia um “compreendo, senhor”.

Às 18.00h se ajoelhava diante da imagem de N. S. de Fátima, de quem sua mãe era devota,  e agradecia por outro dia de trabalho. Depois se vestia com apuro e ia para a parada de ônibus. Ali, puxava conversa com alguém disposto a uma prosa e inventava histórias sobre uma vida completamente diferente da sua, talvez sonhando em voz alta. Se a conversa estivesse boa, pegaria o mesmo ônibus do ouvinte, fingindo fazer o mesmo percurso. Ou, do contrário, voltaria para o silêncio da sua casa, onde jantaria qualquer coisa. Depois, assistiria tv e pegaria no sono por volta da meia noite, com a janela aberta, até que o sol entrasse novamente no seu quarto, às cinco e quinze, dezesseis, dezessete…

Ana Madalena

Deixe uma resposta