CRÔNICAS: POR UM FIO, POR ANA MADALENA

Quarta-feira é dia de textos inspiradíssimos, aqui na coluna CRÔNICAS e o de hoje é da nossa colaboradora e escritora Ana Madalena, cujo título é: “Por um fio”. Fala de saudades, relacionamento amoroso, paixão e esperança. É curtinho, mas muito atraente e intrigante. Vale a pena a leitura e a REFLEXÃO. Então, bora ler!

Imagens de Janela para mar, fotografias de stock Janela para mar | Depositphotos

“You can show me the way, give me a sunny day, what does it mean without your Love
And if I could travel far, if I could touch the stars, where would I be,  without your Love “
          Without your Love, Roger Daltrey

Por um fio

Depois de 276 dias sem nos vermos, finalmente chegou o dia do nosso reencontro. A pandemia nos pegou de jeito; tínhamos combinado nos encontrar a cada dois meses mas diante dos acontecimentos… Acertamos nossas férias; ele viria para o meu verão, em vez de eu ir para o seu inverno.
Passamos dez dias numa pousadinha charmosa. Era tudo que precisávamos! No começo parecíamos crianças que ganharam  presentes. Eufóricos, fomos nos reconhecendo. Cada movimento era uma foto;  as manias, algumas até esquecidas, eram motivo de risos. As novas, eram o que eram: novidades. A única dificuldade foi ajustar o relógio biológico, mas ele logo se adaptou ao meu nascer do sol.
As manhãs foram reservadas para passeios a pé, banhos de mar e água de coco com peixe frito; os fins de tarde para planos futuros. O resto do dia para nós. Às vezes longos silêncios permeavam nossas conversas, principalmente quando começamos a contar os dias que faltavam para nossa despedida. Na nossa matemática, vivíamos alegrias no varejo e saudades no atacado…
E o dia chegou. Ficamos esquisitos; nossa alegria perdeu o brilho. Nos ocupamos com a bagagem e as poucas compras para embalar. Sem ele perceber, coloquei entre suas roupas uma foto nossa. Sabia que assim que chegasse compraria um porta retrato para o aparador da sala, onde havia muitas outras. Ou talvez colocasse na mesinha de cabeceira, perto do abajur.
Pedi que enviasse mensagem por todo o caminho, principalmente quando chegasse em casa. Resolvi ocupar meu tempo; coloquei roupa na máquina, aguei plantinhas e os temperos da horta, tudo isso ao som de uma música da década de 80, que tocava quando nos conhecemos, em um pub. Eu não sabia se estava mais triste por ele, ou ele por mim… A máquina encerrou o ultimo ciclo de lavagem; no varal as toalhas bordadas com nossos nomes estão balançando ao sabor do vento. Assim como elas, eu também estou por um fio.
Liguei a TV para saber o que aconteceu pelo mundo enquanto estive fora dele; fui invadida por uma estranha sensação de esperança; a vacina finalmente já é uma realidade. Podemos voltar a sonhar !!!
Ana Madalena

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