CRÔNICAS: PONTE NEWTON NAVARRO, POR MARIA ELZA BEZERRA CIRNE

Na coluna CRÔNICAS desta quarta-feira temos mais uma homenagem feita pela competente cronista Maria Elza Bezerra Cirne. Desta vez para o pintor, desenhista, poeta, cronista e dramaturgo Newton Navarro que empresta seu nome a magnífica Ponte que liga a Zona Leste da cidade de Natal à Zona Norte. Também tem suas pinturas e vídeo desse artista potiguar. Então leia, curta, assista e conheça mais sobre a nossa cultura.

PONTE NEWTON NAVARRO

“Eu não acho cidade mais bonita que Natal, nem rio mais bonito que o meu rio. Eu vi uma vez o Sena. Achei uma porcaria. Vi também o Tejo e achei também uma porcaria. Mas o Potengi não. Que Azul!! E os morros que protegem a cidade? E as madrugadas? E as estrelas da manhã? Só em Natal tem essas coisas. A estrela repetida no forte da pedra… uma cidade coberta de alísios, embaladas pela canção dos pescadores, enfeitada de um alado e do outro, rio e mar, pelos azuis e verdes, e pelas janelas. Quer cidade maior e melhor? Não existe. Nenhuma” (Newton Navarro em entrevista ao jornal O Poti, 1º de dezembro de 1974)

Obra de Newton Navarro

Subo devagar a ponte, no sentido Forte/Redinha, o vento a favor me ajuda a chegar ao topo. De lá, uma recompensa pelo esforço no pedal: a visão do encontro de rio e mar; a fortaleza em estrela e o farol da boca da barra protegem e sinalizam o caminho para Natal.

Cidade poética, Natal é linda por natureza. A ponte estaiada é poesia para o olhar, um traço no infinito da paisagem, como diz Gustavo Sobral sobre as pontes.

Na volta, muito mais esforço para vencer o vento e a inclinação. Ao chegar ao topo, mais uma parada para assimilar as palavras e a poesia cênica do pintor, desenhista, poeta, cronista e dramaturgo Newton Navarro – um dos mais completos artistas de Natal.

Farol da Boca da Barra
Rio Potengi

Seu nome tinha que estar ali gravado, batizando essa obra da engenharia humana que possibilita uma visão panorâmica sobre as duas margens do Potengi e o Atlântico em sua infinitude, um arremate para a permanência daquele que soube tão bem retratar a nossa cidade.

A obra de Newton Navarro é toda marcada pela vivência entre a Redinha, a Ribeira, as Rocas, Areia Preta, a boemia e os personagens de uma cidade marinha. Bem o descreve o escritor e amigo, Veríssimo de Melo: “Newton Navarro vale uma cidade inteira. Porque ninguém mais do que ele reúne melhor os tons e semitons da terra, os encantamentos dos alísios, a bondade, a boemia tantas vezes, a inteligência sempre e sempre.

Semana passada, o Rio Grande do Norte foi surpreendido por um projeto de lei do Deputado Estadual Coronel Azevedo, propondo alterar o nome da ponte para Wilma Maria de Faria. Estranhei o fato, porque o ilustre Deputado é recifense e Pernambuco é firme na preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural, bem como na preservação da memória daqueles que compõem esse acervo.

Não bastasse ter sido a própria Wilma Maria de Faria que, em 2006, enquanto Governadora do Estado, nomeou a ponte como Ponte de Todos Newton Navarro, a proposta absurda pretende apagar uma homenagem à intelectualidade potiguar.

Um descaso com a história recente, um desmerecimento à construção de uma identidade. O Instituto Histórico e Geográfico emitiu uma nota de protesto e conclamação; assim como o Conselho Estadual de Cultura.

Se é para esquecer aqueles que foram merecidamente homenageados com nomes de ruas, praças, pontes e avenidas, que tal alterar o nome de logradouros de pessoas que não possuem qualquer relação com a cidade de Natal?

A ponte deve permanecer com o nome original, porque Newton Navarro Bilro vale por uma Natal inteira.

Maria Elza Bezerra Cirne

Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte



Newton Navarro

CIDADE ALTA

Terno coração de pedra,
mas,

pedra de sentimento,
que de tanto amor
em duro granito se tornou.

Verânica luz
Esplende em tuas torres
Rosário! Catedral!

E um canto de saudade,
Todas as tardes,
Canta, metálico,
um galo áulico,

Cidade Vesperal!

No alto, os sinos,
Não choram os mortos,
Chamam-lhe o nome.

E ao longe o rio
Desce cantando,
E num passeio
A tarde carregando…


MEMÓRIA VIVA | Newton Navarro (1982)Fonte: Blog de Maria Elza Bezerra Cirne

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