CRÔNICAS: O SEGREDO, POR ANA MADALENA

A nossa coluna CRÔNICAS continua bombando com as incríveis e originais histórias da nossa colaboradora Ana Madalena, que faz qualquer um prender a respiração ao ler os seus criativos e intrigantes contos bem contados. Então, lhe convido a ler O Segredo, a mais nova crônica dessa talentosa escritora!

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“Ando por aí, querendo te encontrar, em cada esquina paro em cada olhar; deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar …
Palavras apenas, palavras pequenas, palavras…”
       Palavras ao vento, Cássia Eller

O segredo

Da minha janela posso ver todo o movimento. Houve dias que contei até os pássaros que voaram por aqui. Nem sei dizer como essa mania começou, acho que foi quando anotava a hora que o poste acendia e apagava. Hoje não vivo sem fazer uma contagem do meu entorno; sei cada mínimo detalhe. E antes que pergunte se não tenho mais o que fazer, adianto que não tenho um trabalho formal. Eu vivo de rendas, resultado de anos de esforço dos meus pais, que faleceram muito jovens, mas deixaram um patrimônio considerável. Eu até evito comentar sobre isso; as pessoas acham que tenho a melhor vida do mundo, como se dinheiro fosse tudo… Quem não vê minhas lutas sempre achará que é fácil.
Moro num bairro arborizado e minha rua é como um condomínio fechado. Temos uma guarita, com segurança 24 horas, sete casas, todas sem muros. A minha, fica na parte mais alta e é de três andares. O último, onde fica a biblioteca dos meus pais, hoje é meu “observatório” e por conseguinte, onde passo a maior parte dos meus dias. Consigo ver muita coisa daqui, mas também ouço bastante. Talvez porque esteja a favor do vento e, como diz Cecília Meireles, “ao redor de nós as palavras voam e às vezes pousam”. Acredito que a minha casa seja o lugar favorito para elas pousarem!
Na Casa Amarela com “bay window”, uma das mais bonitas daqui, mora um casal sem filhos. Eles são a única exceção. No geral a criançada se multiplica por aqui. Não existe metro quadrado mais fértil! Confesso que ter filhos não está nos meus planos; é muito trabalhoso e ainda não encontrei alguém que queira dividir essa tarefa. Eu sei disso porque vejo como é na Casa Branca, a que tem uma rede na varanda. Lá vivem dois pestinhas que brigam o tempo todo. A pobre da mãe não tem descanso. Único momento de paz é quando, à noite, deita por uns vinte minutos e se balança lentamente. Acho que ela fica rezando, pois vejo fazer o sinal da cruz.
O Sobrado das icsórias vermelhas é uma loucura! Tem quatro crianças, de todas as idades. Vivem na bicicleta, para lá e para cá. Por sorte foram passar as férias com os avós, como a maioria das crianças dessa rua. Acho que os pais terminaram o ano exauridos com as aulas remotas. O mês de janeiro foi uma tranquilidade, o maior silêncio. E talvez por isso ..
Era bem cedo. O sol nem tinha nascido. Do outro lado da rua vi um rapaz conversando com o segurança do turno da manhã, o que vem render o vigia. Eles apontavam para nossas casas e eu fiquei muito desconfiada. Redobrei minha vigilância. Desde aquele dia o rapaz sempre vinha na mesma hora. Foi numa dessas manhãs que ouvi ele dizendo que a criança estava prestes a nascer. Que criança? Será que era um código?
A luz do poste apagou por volta das três da madrugada, quando ouvi barulho de vidro quebrado. Rapidamente, olhei pela janela e vi um vulto correndo. Nessa hora, um homem entrou na nossa rua carregando um cesto, que deixou embaixo de uma das janelas da Casa Amarela. Ouvi também quando ele bateu no vidro algumas vezes, só parando quando as luzes da casa acenderam e um bebê começou a chorar. O casal abriu a porta e o homem, que estava escondido, só saiu depois de ver que a criança tinha sido retirada do cestinho. Ato contínuo, ele falou com o vigia e saiu correndo, mas antes de dobrar a esquina, reconheci que era o segurança do turno do dia.
A movimentação do casal naquele dia foi intensa. Um dos quartos, antes vazio, agora tem cortinas brancas de voil e bercinho com detalhes cor de rosa. A alegria é tanta que ninguém questiona como aquela garotinha chegou ali. Certas coisas melhor mesmo não saber… Ainda bem que a alegria é contagiante!
Ana Madalena

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