CRÔNICAS: NO ANO NOVO CABE TUDO, INCLUSIVE UM BODE NA SALA, POR ANA MADALENA

Tivemos a sorte grande de receber mais uma das extraordinárias CRÔNICAS de Ana Madalena, que já foi nossa colunista de CRÔNICAS e justamente na virada do ano e sobre ano velho e ano novo. Essa foi, sem dúvida. uma das melhores que já li dessa autora. Por isso convido você a ler o texto completo a seguir, curtir, apreciar e admirar esse grande talento!

O bode na sala da família Mercosul - Autoescola Online - Ronaldo Cardoso

Hibernei os dois primeiros dias do ano. Precisava de descanso, resultado de excessos do ano que passou. Aliás, está difícil equalizar essa conta. Muita coisa vai ter que ser compensada em 2022, um número que acho até  simpático, mas não vou me animar muito; festejei a chegada de 2020 como nunca, me vesti toda de dourado, arrasei no carisma, cheguei em casa com o sol nascendo e…  Deu no que deu! Em 2021 ensaiei um brinde com amigos e família e a coisa também não foi boa. Desisti. Estou com pé atrás em relação a comemorações e começando a ter ranço dessa coisa de ter hora marcada para ser feliz. A impressão que tenho é que a “felicidade”  principalmente nas redes sociais, está virando um bem de consumo, com cursos e livros ensinando como alcançá-la, o que está dando um nó na cabeça de muita gente.
Cansei do jogo do “contente”, principalmente depois que conheci alguns coaches motivacionais; gastam tanta energia com os outros, que quando chegam em casa estão  esgotados! Um coach motivacional deveria ter seu personal coach para quando ele não está animando multidões. Realmente motivar pessoas é muito desgastante; eu poderia facilmente fazer o contrário: ser uma coach desmotivacional;  acho muito mais eficaz. A parábola do bode na sala é perfeita para isso! Reza a lenda que uma família vivia em um cômodo apertado e todos passavam o dia discutindo. O mais velho da família foi procurar o mestre e ele disse que colocasse um bode na sala. O bode rasgou sofá, derrubou cadeiras, foi aquela confusão. O homem voltou ao mestre e ele recomendou que agora tirasse o bode da sala. Como por milagre, a paz se instaurou. Moral da história: precisamos dar mais valor ao que temos.
Peguei no sono pouco antes da virada e deixei meus pedidos para esse ano por conta da minha cabeça. Transferi a responsabilidade para o inconsciente e, para tanto, passei o dia usando a “técnica cotonete”, uma das melhores coisas da vida. Limpo meus ouvidos e só escuto o que quero. Aprendi essa técnica em um curso gratuito na Internet;  estou outra pessoa! Limpei tanto minha mente que consegui  decorar “Faroeste caboclo”, do Legião urbana, um monólogo de oito minutos. Não, não comecei com essa música, mas essa foi meu apogeu! Sim, essa é uma das formas de “cotonetar”; a etapa seguinte é declamar poesia em frente ao espelho. Preferi esse curso ao de “empinar bum-bum” por R$ 29,90 mês; já pensou a fortuna que teria que gastar com cada pedaço do corpo?
Reforcei a terapia; agora serão duas vezes por semana. Minha psicóloga diz que meu fio condutor emocional não é claro; meus personagens internos são cheios de detalhes, o que me causa muita distração. E são muitos personagens antagônicos! Resumindo: há uma eterna briga interna na minha cabeça  e por isso que tem horas que faço uma coisa e no meio da atividade, resolvo fazer outra totalmente diferente. Finalmente alguém conseguiu explicar esse meu comportamento. Passei a vida escutando que sou inconstante, indecisa, além de “Maria vai com as outras”. Não é fácil ser eu.
Decidi que não farei mais bolões para a mega da virada. Cheguei a conclusão que não tenho sorte para jogos; na verdade, acho que gastei toda minha sorte em bingos que participei em hotéis fazenda, quando era criança. Ganhei cestas de palha e um jarro em cerâmica, que quebrou na viagem de volta. Nos jogos de tabuleiro sou expert em “voltar duas casas”. Quer recado melhor do que esse?
Estou entrando numas de assistir filmes em línguas desconhecidas. Sem legenda. Sabe aquela coisa de você cair em um país de costumes e língua totalmente diferente da sua? Pois é. Estou exercitando meu cérebro no sentido de captar a emoção. Tem muita coisa sendo feita extra Hollywood, com enredos fascinantes ( pelo menos do que posso apreender), um mundo de emoções, que dá até angústia. Nesse sentido, lembro que há muitos anos, estava assistindo a peça “Miss Saigon”, em inglês, com um amigo que não sabia mais que duas palavras nessa língua. De repente eu percebi que ele estava chorando e quando terminou o espetáculo ele comentou que tinha sido a coisa mais bonita que tinha visto. Eu, então, perguntei se ele tinha captado os diálogos, ao que ele respondeu, emocionado: -Ana, diálogos para quê?
Tenho visto séries, de virar noites. Para mim existem coisas na vida que daria prêmios aos inventores. Essa, de vermos filmes e séries a qualquer hora, com um cardápio tão variado, é mesmo genial. Coloco no mesmo patamar de quem inventou a colcha de matelasse, fralda descartável e sabonete líquido. Voltando às series, as que mais me pegaram “de jeito” foram “Maid”, uma das melhores coisas que assisti ano passado, e “Cenas de um casamento”, uma catarse com diálogos tão extensos, que ainda me pergunto como os atores decoraram. Acho que fizeram o mesmo curso que eu fiz! E antes que esqueça, as trilhas de abertura de algumas são sensacionais. Nesse aspecto, “The morning show” e  Sucession” estão reverberando nos meus ouvidos! Falando em música estou avançando no documentário sobre os Beatles, Get back. Incrível o processo de criação deles. Já os livros, estão em fila para serem devorados. Ganhei vários de presente de Natal! Mas antes deles, vou reler alguns que possuo de Lya Lyft, uma das escritoras que me deu o entusiasmo pela leitura.
O calor aumentou muito esse ano. Dizem que subiu mais dois graus. Passo os dias olhando para o horizonte na esperança que chova um pouquinho. Os pássaros, coitados, voam com uma asa e se abanam com a outra. Eu procuro me mexer o mínimo possível, mas uma gota de suor insiste em descer pela minha testa. Acho que a cabeça é o lugar mais quente do meu corpo; vive em constante ebulição. Morro de medo de fritar os meus neurônios e por isso estou sempre em busca de novas sinapses. Mas não pense que é fácil! É um exercício tão pesado quanto cross-fit. Dou especial atenção à área da  imaginação; o lúdico é uma das melhores coisas da vida! Pena que algumas pessoas não façam uso.
Hoje é o primeiro dia útil do ano; a responsabilidade bate à porta. No café vou comer as duas rabanadas que sobraram da ceia ( escondi na geladeira) e começar a trabalhar. Confesso que estou na maior preguiça, mas não tenho opção, não é questão de preferir agora ou depois. Diferentemente de mim, se perguntarmos a um pássaro se prefere asas ou gaiola, ele não pensará duas vezes. Acho que vou colocar um bode na sala, quem sabe assim…
Ana Madalena

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