CRÔNICAS: GAMBIARRAS, POR ANA MADALENA

Nesta quarta-feira tenho a honra de publicar, aqui na nossa coluna CRÔNICAS, mais um muito bem elaborado conto da minha querida e competente escritora, Ana Madalena, que nos presentei com uma Crônica espetacular intitulada GAMBIARRAS, sobre relacionamentos, nossas coincidências e nossas diferenças. O que pesa mais numa relação a dois? Então convido você a ler a mais um texto vibrante, empolgante e original desse gênio das CRÔNICAS. 

O Divã Dellas: É Namoro ou gambiarra?

Gambiarras

O que vou lhe contar aconteceu sábado passado. De lá para cá muito mudou, principalmente na vida de Helena.
Estávamos no barzinho do restaurante; adoro sentar nos bancos altos do balcão para apreciar a alquimia na feitura de um drink. O bartender colocou uma dose de gin, um saquinho de chá de frutas vermelhas, mexendo levemente, completou a taça com bastante gelo e água tônica, derramando bem devagar para não perder nenhuma bolha que, segundo ele, é o que faz a diferença. E finalizou com uma rodela de limão siciliano e um pauzinho de canela. Meu amigo Fred preferiu o whisky, bebida que acho charmosa, mas não gosto do sabor. Fizemos um brinde e apreciamos  sem moderação.
A mesa que havíamos solicitado ficara pronta;  era para quatro pessoas, pois aguardávamos um casal de amigos que nos encontraria um pouco mais tarde. De um lado da mesa havia um sofá, do outro duas cadeiras de madeira pesada, dessas que lembram as antigas casas de fazenda. Escolhi ficar no sofá e meu amigo, a cadeira em frente. Aproveitamos para pedir “bis” dos nossos drinks.
 -Ana, você que gosta de História, sabia que o gin surgiu com os povos Incas?  Eles descobriram os poderes medicinais do quinino, que era extraído da casca de uma árvore. Anos depois, os militares britânicos usaram essa substância para combater a malária, mas como acharam o sabor amargo, adicionaram água, açúcar e frutas cítricas, quando perceberam  que esses ingredientes melhoraram consideravelmente o gosto do remédio, que depois foi substituído pela “famosa” cloroquina. Um pouco depois, os  ingleses começaram a produzir água tônica e o resultado foi o drink que você tanto gosta!  Por falar nos ingleses, o que você achou do jubileu da rainha? Sei que você, assim como eu, consome tudo da família real.
– É verdade, mas também foi muita coincidência eu estar por lá exatamente no dia do casamento de Diana. Eu fiquei contagiada com a vibração do povo e ainda  comprei vários souvenirs, canecas e chaveiros com o rosto dos noivos, embora nunca tenha gostado de Charles, principalmente depois da série The Crown. Em compensação,  sinto uma especial simpatia por Betinha. Não é fácil abrir mão da própria vida, ainda tão jovem, para se dedicar à monarquia.
– Ah, mas nem com tanta mordomia?
– É, realmente mordomia é o que não falta, mas eu não trocaria um dia da minha vida para viver como ela. Prefiro minha vidinha prosaica, minha casa aconchegante, meu banheiro com toalhinhas de bico de croché… Deus me livre de uma enorme sala de banho, revestida de mármore gelado! E aqueles quartos, com quilômetros de cortinas pesadas? É tudo muito impessoal… Eu fico imaginando se ela acha sorte ou azar passar tanto tempo no trono, mas pressinto que goste. Imagine você  que até dois anos atrás, antes da pandemia, ela tinha em média, trezentos compromissos por ano! Eu canso só de pensar. São tantas coisas envolvidas…É chato ter que escolher roupas para cada evento, feitas sob medida, para não correr o risco de alguém estar vestindo igual! Eu li que as cores vivas dos vestidos são propositais para que a rainha se destaque na multidão. E o penteado? O mesmo desde que se tornou rainha! Não sei como ela aguenta se ver… Eu já teria feito um franjão repicado! Mas dizem que esse estilo é para melhor acomodar os chapéus e a coroa. Por falar em coroa, a coisa que mais me incomoda é saber que  Charles assumirá o trono quando estiver quase um octogenário; ele deveria abrir logo mão para o filho.
– Duvido, Ana! Acho que ele espera por esse dia desde que nasceu, só não contava que Betinha fosse tão saudável.
Passamos boa parte da noite tecendo comentários sobre a realeza, como se fôssemos intimos. Num determinado momento, minha amiga Helena, que acabara de chegar, falou:
– Vocês viram a roupinha do caçula de Kate? Pertenceu a William! Adoraria ver o acervo deles, deve ter cada coisa… As crianças estão lindas, enormes. E o caçula? Uma graça! Ele roubou a cena, com caras e bocas,  e de certa forma redimiu muitas mães (falou apontando para si) que acham seus filhos danados demais e às vezes esquecem que são apenas crianças.
–  Meghan estava linda naquele Dior branco,  comentou Fred, que é fã dela desde a série “Suits”, e também adora moda. E continuou:
– Dizem que a cor  branca foi usada tanto por Kate, quanto por Meghan, como sinal de paz, muito embora os filhos de Diana não ficaram hora nenhuma juntos. Dizem que William não quer conversar com Harry por hipótese alguma;  está desconfiadíssimo do que ele possa colocar no documentário que está preparando para o Netflix. Harry acusou a família real de ter cometido racismo, não contra Meghan, mas contra as crianças, que ainda sequer tinham nascido, e que por sinal são idênticos ao pai.
– Hoje eles comemoraram o primeiro aninho de Lilibeth Diana. A rainha foi com Charles  e mais algumas pessoas da realeza para a festinha mas, providencialmente, Kate e William estavam numa visita oficial noutro local, comentou Helena. O marido dela, Luís, que até então não havia dito nada, mas detesta a realeza , saiu-se com essa:
– Vocês sabiam que a rainha pode ter a guarda automática dos netos e bisnetos ? Existe uma lei, há mais de 300 anos, que autoriza a guarda da rainha em caso da  morte dos pais ou, simplesmente, se lhe der na telha. Acho que a velhinha foi nesse niver só para sentir o clima… Não se espantem se ela tomar as crianças. Ela ainda está com aquela entrevista que eles deram a Oprah entalada na garganta!
Fred exalta-se:
– Meu irmão, que pensamento sinistro! Nada a ver! Voce quando não gosta de uma coisa…Vamos mudar de assunto.
Eu, que não sou de beber e já estava no terceiro drink, falei:
– Minha gente, vamos falar sobre o amor! Vem aí o dia dos namorados e…
Não consegui concluir. Luís, que devia estar de pá virada, falou:
– Esse negócio de amor é uma bobagem. Não aguento esse povo que fica falando em felicidade, romantismo, mesmo depois de uma certa idade. Isso é para adolescentes, que não tem boleto para pagar. Quero ver ser romântico com uma rotina de casa, filhos, trabalho…
Helena levantou-se, pegou meu gin e jogou em cima dele. Eu, que já estava quase cochilando, no quentinho do sofá, levei um susto! Eles só não foram aos tapas, porque Fred segurou a situação. Helena, ainda furiosa, falou:
– Nem venha com esse discurso! Eu estou segurando a onda em casa desde que você foi demitido. Alias, desde que casamos. Não vejo você mexer um centímetro para procurar trabalho. Vive no celular. Aposto que é conversando com mulheres. Não pense que sou idiota! E sabe do que mais? Cansei desse casamento de faz de conta!
O silêncio tomou conta da mesa e eu, que sempre tenho algo a dizer, fiquei sem graça. O clima pesou e Luís foi embora, não sem antes entregar a chave do carro.  Ela, num misto de indignação e alívio, pediu desculpas e o cardápio. Estava faminta! Ela sempre que se estressa, desconta na comida. Fizemos os pedidos e, como que saída de um folhetim de Manoel Carlos, onde suas Helenas não são perfeitas e sempre surpreendem,  ela disse:
– Meu casamento é uma gambiarra. E não é de agora. Eu tento consertar aqui e ali, mas tudo vai quebrando. Acho que aguentei essa situação por muito tempo… É triste ver um sonho virar pó; é uma forma de luto. Mas não quero mais pensar sobre isso, não agora. Vamos conversar abobrinhas!
– Vamos, amiga, disse Fred. E continuou em tom confidencial:  Não se preocupe; vamos ajudá-la no que precisar!  Todos nós, em algum momento, já vivemos ou viveremos algum tipo de gambiarra, algo provisório na nossa vida. Isso acontece nas melhores familias de Londres!
E, para quebrar o clima, falei:
– Vocês estão assistindo Pantanal? Estou adorando Maria Bruaca! E o que são aqueles peões, minha gente?
Rimos muito e terminamos a noite fazendo brindes:
– Um brinde à Betinha e sua longevidade, outro a Maria Bruaca, por sua liberdade e por fim, mas não menos importante, um brinde à nossa amizade!
Ana Madalena

Deixe uma resposta