CRÔNICAS: FRED, POR ANA MADALENA

Caro(a) leitor(a),

Nesta quarta-feira tenho o enorme prazer de publicar, aqui na coluna CRÔNICAS mais um dos maravilhosos contos da nossa ex-colaboradora Ana Madalena, que se chama simplesmente “Fred”, um personagem que povoa o seu criativo imaginário que mais parece a sua cara metade. Convido você a ler essa incrível e empolgante história!

Como conversar com meu marido sobre problemas financeiros? | Exame Invest

Fred


Dizem que o amanhecer é para padeiros e amantes. Eu não sou nem uma coisa nem outra! O amanhecer para mim é resultado de uma crise de insônia daquelas… A lua é meu sol, se é que me entende. Já fiz de tudo para tentar regularizar meu sono, até simpatias! De nada adiantou. Alguns dizem que agora é  porque o sol entrou em Virgem; outros falaram da Lua, de Saturno. A verdade é que pode ser por qualquer coisa, inclusive nada. Os amigos me presentearam livros de auto-ajuda; já li tudo sobre a higiene do sono e mudança de hábitos, mas nada funcionou. A lembrança que tenho do meu melhor sono, foi quando operei as amidalas, aquele soninho profundo de anestesia. Já cheguei ao ponto de anotar num caderninho meu top 10 do sono, mas nem cheguei ao item 8. Agora resolvi deixar para lá, talvez porque exista Fred na minha vida.

Pois é, Fred é um amigo daqueles para toda hora, principalmente quando a vaca está indo para o brejo. Ele tem uma forma de falar tão calma que dá até quentinho no coração. Com Fred libero as minhas constipações emocionais; ele sempre diz que é péssimo reter alguns sentimentos. Ele é quase meu Freud, do tanto que me ajuda.

Eu e Fred tivemos um breve namoro na adolescência; o fim não foi trágico nem cômico, foi apenas um fim. Percebemos que éramos mais amigos do que um casalzinho apaixonado. Por sorte, continuamos amigos, coisa rara depois de um término.  Eu sou dessas, de manter as amizades, telefonar para ouvir a voz, apesar de hoje em dia ser até invasão de privacidade telefonar para alguém.

Voltando a Fred, ele passou por uma separação há algum tempo: um casamento de vinte e tantos anos, dois filhos, três gatos, um cachorro e duas tartarugas. Ah, e cinco peixinhos. Tudo isso dentro de uma casa linda, com um jardim digno de campeonato inglês. A ex esposa, minha amiga, uma mulher maravilhosa, me ligou certo dia, pedindo para eu ir ao seu consultório. Ela, então, abriu seu coração e disse que eles estavam se separando. Eu fiquei chocada! Eles eram aquele tipo de casal que catalogaria como “perfeito”, mas entendi suas razões. Realmente não faz sentido viver com alguém só por causa dos filhos, principalmente por não serem mais crianças.

Coincidentemente, Fred ligou no mesmo dia. Marcamos um almoço, que emendamos com jantar. Eu dei meu ombro amigo e depois de muito ouvi-lo, concordei com sua explicação. Os dois tinham razões diferentes para não quererem estar mais juntos e entendi que minha presença ao ouví-los foi uma espécie de validação da decisão. É muita inteligência emocional conseguir se separar sem culpas ou remorsos. Eles tinham inteligência de sobra! Ela mudou de cidade; os filhos, já adultos, deram muita força aos pais, um deles seguiu com a mãe e o outro, o mais velho e financeiramente independente, aproveitou o momento para dar seu grito de independência. Fred continuou morando na mesma casa; tinha um apego emocional àquele lugar.

Com a separação, ficamos muito próximos. Sabe a corda e a caçamba? Bem isso. Fred tem uma história de vida linda, mas vou descrever a versão curta: ele sempre foi um “gato”, transbordando testosterona! Hoje, com cabelos grisalhos, está dando de mil a zero no jovenzinho engenheiro que conheci. Ele trabalha coletando dados nos oceanos, tipo salinidade, niveis de carbono, ou qualquer outra coisa que não seja criptonita. O melhor dessa versão de Fred é que agora ele virou notívago como eu, chega até a filosofar dizendo que é melhor lidar com pessoas noturnas do que diurnas. Perguntei certa vez quem eram as pessoas noturnas que ele estava conversando além de mim. Não, não é ciúme, apenas senti uma certa ameaça à minha exclusividade, afinal eu fui quem apresentou a vantagem das altas horas.

Fred gosta de citações, disse que aprendeu comigo, embora ele reescreva em cima da original. Algumas, cá pra nós, ele muda totalmente o sentido, motivo de algumas discussões . Hoje recebi a seguinte mensagem:
– Hoje o dia está maravilhoso. Nunca houve um dia assim!
Perguntei de quem era a citação e ele respondeu que “poderia” ser dele. Rimos! Ele sabe que eu sei que não é,  mas isso não tira o brilho da mensagem, em tão poucas palavras. Admiro quem tem concisão, coisa que jamais, repito, jamais terei.

Falando em dia, hoje ele está tímido, nem sol nem chuva, mas nublado. Para alguns, o melhor dos mundos, eu mesma adoro dias assim. Para outros, uma espera de que algo aconteça, ou que o sol vença as nuvens ou que elas deságuem. Para mim, agradecimento! E para não fugir das citações, ” Se eu não tivesse visto o sol, a sombra eu suportaria. Mas essa luz fez do meu deserto, um deserto que antes não existia”. Adoro Emily Dickinson!
Fred, obrigada por fazer parte do meu deserto…

Ana Madalena

Deixe uma resposta