CRÔNICAS: ENTRE NÓS, POR ANA MADALENA

O texto de hoje, aqui na coluna CRÔNICAS mostra todo o talento e versatilidade da escritora Ana Madalena num conto que mistura história real com ficção. Uma história como muitas que já assistimos, um dia, nas novelas televisivas, mas que também já aconteceu bem parecido na vida real e no final ficamos sem saber ou ter certeza se a história foi real ou apenas fruto da fértil imaginação dessa incrível autora. Então, convido você a experimentar essa aventura e tentar decifrar nas entrelinhas deste conto até que ponto é real!

” E quando o dia não passar de um retrato, colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz
O que vai ficar na fotografia,
São os laços invisíveis que havia”.
                  Fotografia, Leoni 

Entre nós

O ódio também é vínculo. Li essa frase em  algum lugar e me fez lembrar uma cerimônia de casamento. Antes que você imagine coisas, adianto que não tem nada a ver diretamente com os noivos, nem tão pouco comigo. Deixo aqui apenas a reflexão que muitas vezes transformamos laços em nós, criando prisões que poderiam ser evitadas.
Eram dois irmãos unidos também por uma empresa familiar. O comércio, iniciado pelo pai, obteve muito êxito na administração dos filhos. Um, pragmático e bastante tímido, outro sonhador e falante. O primeiro cuidava da parte administrativa e o segundo cuidava  das vendas. Eles eram inseparáveis e tocaram os negócios por muitos anos.
O tímido casou bem jovem com a namorada de adolescência. O falante levou a sério a vida de solteiro e de tio dos três sobrinhos, uma menina e dois meninos. Adorava as crianças e sempre as levava para passear. Difícil era não vê-lo com algum deles. A sobrinha mais velha era o seu xodó; uma menina alegre e carismática!
O casamento acabou depois de 16 anos;  havia um zum zum zum na cidade que a esposa o traía há tempos. Os filhos, já em idade de escolher, optaram por ficar com o pai, pois apesar de ser muito introvertido, sempre foi pai presente, daqueles que coloca as crianças para dormir, leva para escola e está em todos os momentos importantes. A ex-esposa era, digamos assim, uma mulher fútil que vivia para ela mesma. Só o marido não enxergava.
A noite de micareta estava animada. O tio, que era um carnavalesco nato, se esbaldou. Gostava de sair em blocos com os amigos, mas não era de beber. Era animado por natureza. Estranhamente naquele dia, parecia ter tomado todas; os amigos desconfiaram que tivessem posto um ” boa noite cinderela” no seu copo. Por sorte quem estava no mesmo camarote era sua ex- cunhada, que cuidou de levá-lo pra casa.
No outro dia pipocou nas redes sociais várias fotos íntimas deles dois, que ela mesma postou. Foi um escândalo! Mas, na verdade, tudo que a foto mostrava era um homem “apagado”, com uma mulher sensualizando. Todos diziam que ela tinha feito isso para se vingar; a partilha de bens não saíra ao seu gosto, mas até provar que “babado não era bico”… Foi rompida a sociedade na empresa e os laços familiares.
Julia estava linda no dia do seu casamento.
Os padrinhos já estavam perfilados quando ela viu seu tio chegando. Ficou feliz, afinal era um segundo pai e ela sempre o apoiou no episódio das fotos, tanto que nem convidou sua mãe, que sumira do mapa havia muito tempo, mas essa é outra longa história que não cabe aqui.
O fotógrafo, que estava fazendo fotos da chegada da noiva, percebeu a mudança de ares e presenciou uma discussão entre pai e filha. Percebendo a tristeza no olhar de Julia, criou coragem para conversar com o pai, que transpirava exaltado. Calmamente, entregou-lhe um copo de água e um lencinho de papel, avisando que já estava na hora deles entrarem. Depois, usando de psicologia, disse-lhe que esperava um dia ter a mesma alegria que ele estava tendo em casar uma filha e que daria o melhor de si para que todo amor entre eles transparecesse nas fotos. Essas palavras surtiram um efeito mágico.
O pai de Julia apontou para o irmão e pediu ao fotógrafo que o chamasse.  Na porta da igreja os irmãos tiveram uma longa conversa. E eu… Bem, estava em casa quando meu pai ligou pedindo que levasse a caixinha de remédios da minha mãe, que esquecera em cima do mesa. Sim, meus pais foram convidados desse casamento pelos avós de Julia. Enquanto eu aguardava a cerimonialista vir pegar a caixinha,  assisti o choro e o abraço dos irmãos. Os nós foram finalmente desatados.
Ana Madalena

Este post tem um comentário

  1. Jucileide Cronemberger

    Geente… Que escritora maravilhosa é essa Ana Madalena!?! É o seguinte, não sou a pessoa que lê muuito, mas leio e sei apreciar um texto aonde quem escreve quer que abnsg seja compreendida(…). Gosto de textos que me convidam a continuar, ficar até o final. Ana Madalena, é exatamente uma dessas escritoras que me faz sentir o cheiro do café, refletir sobre a “questão” posta… Na crônica ENTRE NÓS, me peguei tão atenta assistindo os acontecimentos narrados, me senti na “assembleia” aguardando o desfecho, com ansiedade de quem assistia in-loco. Parabéns!

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