CRÔNICAS: DESCOBERTAS, POR ANA MADALENA

Hoje trago mais um maravilhoso texto, aqui na coluna CRÔNICAS, da grande escritora das horas vagas, Ana Madalena, nossa colaboradora e fundadora desta coluna. Com muita simplicidade e naturalidade ela comenta e disserta sobre o seu novo cotidiano em casa de praia alugada, em praia não divulgada para não atrair os fãs, com a sua auxiliar de cozinha, uma nativa chamada Nina. Vale a pena ler fechar os olhos e se imaginar no lugar dela de tão bem contada que essa história!

” É como um sol de verão queimando no peito,
Bate um novo desejo em meu coração…”
           Canção de verão, Roupa nova

Descobertas

O veraneio começou e vai ser daqueles, com direito a muito protetor solar e creme hidratante. Está muito quente, em todos os sentidos; praias lotadas e festinhas por toda parte. Ainda bem que estou bem longe de todo esse burburinho; na virada do ano mudei meu local de home office e agora estou numa casa à beira mar, um lugar praticamente deserto.
Os primeiros dias foram confusos; a rotina rígida que tive há tantos anos foi para o espaço. O barulho das ondas do mar e o balanço das folhas dos coqueiros embalaram meu sono até mais tarde. A minha sorte é que, com o aluguel da casa, veio uma ajudante de cozinha. Acordo com o café pronto, um verdadeiro banquete de frutas coloridas e outras coisinhas. Na minha “vida passada”, só tinha tempo para uma xícara de café e crackers. Estou no lucro.
A internet por aqui “dá para o gasto”, disse o proprietário. Por sorte, consigo fazer meu trabalho; as reuniões online faço propositalmente com o cenário da praia, enchendo uns poucos de admiração e matando uns muitos de inveja. Essas reuniões são praticamente minha única conexão com o mundo exterior. Ainda não fui ao vilarejo fazer compras; por aqui vem sempre um vendedor de frutas, cujo peso/medida é feito com garrafas pet, uma evolução das antigas latas de óleo, segundo ele. Compro meia garrafa de todas as frutas! Em dias intercalados ele também traz um peixinho, vindo diretamente da rede do arrasto. Um luxo!
A mocinha que trabalha aqui é bem franzina, um “sibito baleado”, como ela disse que era chamada, apesar de ter um nome lindo, uma homenagem à bisavó. Não sei se Nina é “magra de ruim”, mas por via das dúvidas, desde que cheguei, fazemos as refeições juntas, que por sinal são as melhores que já provei. No começo ela ficou envergonhada, mas agora até repete o prato. Ela é muito calada, um ” bichinho do mato”, mas eu sempre puxo assunto e logo no primeiro dia descobri que ela tinha problemas para lavar louça. -Eu não gosto, mas lavo, viu? É porque tenho trauma de infância; levei muita surra quando criança; minha mãe dizia que os copos ficavam com “cheiro”. Fui solidária com seu trauma, afinal quem não os tem?  Se listasse os meus …
Decidi que lavaria a louça e ela enxugaria; seria uma oportunidade para eu ficar um pouco em pé, uma vez que trabalho sentada o dia todo. Ela estranhou minha atitude e também meu método.
– A senhora usa essas esponjas todas de uma vez?
– Expliquei que tinha uma para panelas, outra para pratos e talheres e uma para copos.
– Ela perguntou como eu sabia qual era para cada uma, se todas eram iguais?
– Mostrei a letra que escrevi para identificá-las.
– Ela conferiu e murmurou “uhum”. Depois disse-lhe o que lavar primeiro.
– Ela olhou espantada: E tem isso, é?
– Expliquei que meu escorredor era “de primeiro andar”, e por isso eu lavava primeiro os pratos, que logo secavam, e depois os copos, pois assim a água não empoçava sobre eles.
– Ela me olhou como se tivesse feito uma grande descoberta. Espantada mesmo ficou quando viu o armário de roupas, dobradas milimetricamente iguais e cabides com mesmo espaçamento.
– Sim, tenho “toc” e tentei explicar a Nina, mas ela não entendeu.
Nina apareceu toda sorridente na manhã seguinte. Disse que falou para a mãe “das minhas formas” de cuidar da casa e disse que vai treinar para fazer igual. Depois, meio sem jeito, perguntou como eu aprendi a ler. Essa pergunta me pegou de surpresa e questionei se já tinha estudado. Respondeu com o mesmo monossílabo “uhum”, mas completou dizendo que a escolinha do vilarejo tinha fechado há tempos e tinha esquecido muita coisa.
Carlos Drummond de Andrade disse que “entre a raiz e a flor, há o tempo”. Pensando nisso, prolonguei minha estadia aqui por mais dois meses;  Nina vai me ensinar a cozinhar e eu lhe retribuirei,  ensinando a ler e escrever. Tenho certeza que nosso verão vai ser de grandes Descobertas!
Ana Madalena

Este post tem um comentário

  1. Lauren

    Ana, adorei esse texto, até porque me reconheço nos “tocs”!
    Parabéns.

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