CRÔNICAS: CAFEZINHO DE RUBEM BRAGA, POR LAURA AIDAR

Seguindo com a nossa série de 8 crônicas famosas comentadas por Laura Aidar, Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, hoje a homenagem vai para Rubem Braga, com a crônica “Cafezinho”. Boa leitura!

2. Cafezinho – Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:

– Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante.

Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:

– Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:

– Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:

– Ele está?

– alguém dará o nosso recado sem endereço.

Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:

– Ele disse que ia tomar um cafezinho…

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:

– Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí…

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

A crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem havia saído para tomar um cafezinho.

Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.

Laura Aidar
Escrito por Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Fonte: Cultura Genial

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