CRÔNICAS: ANATOMIA DO ÓDIO, POR ANA MADALENA

Toda quarta-feira é dia de CRÔNICAS, aqui no Blog do Saber e hoje temos mais uma inspirada, divertida empolgante crônica da nossa querida, agora free lancer, Ana Madalena, sob o título “Anatomia do Ódio”, que trata das suas experiências e peripécias pelo mundo cinematográfico, aproveitando par comentar o extravagante episódio ocorrido na festa do Oscar em Hollywood nesta segunda-feira. Portanto lhe convido a ler mais essa instigante história.

ANATOMIA DO ÓDIO


O cinema entrou na minha vida muito cedo;  lembro que, quando criança, meu pai comprou um projetor e nos finais de semana assistíamos filmes na parede da sala. De lá para cá muito mudou, menos meu gosto pela sétima arte. Houve um tempo em que fui “resenheira”,  quando, por hobby, escrevia para o jornalzinho de uma locadora de vídeo. Eu recebia, com alguma antecedência, uma fita que ainda levaria um tempo para ser comercializada e a assistia, tendo o cuidado de prestar atenção nos mínimos detalhes, principalmente na fotografia e diálogos. Desde então, aprendi a apurar meu olhar e valorizar muitos profissionais que eu sequer imaginava que eram tão importantes numa película. Por isso eu sou dessas que, quando termina o filme, ainda aguardo um pouco para ler o nome de algumas dessas pessoas. E não perco uma premiação sequer, embora minha torcida nem sempre seja a de quem recebe o Oscar.

Das locadoras de vídeo para cá, muito se transformou, principalmente a forma de consumirmos filmes; os empoeirados DVDs e fitas de vídeo fazem parte de um passado para lá de esquecido. O cinema agora está também dentro de casa, com um catálogo de títulos sem fim, fazendo jus às novas smart TVs, de tamanhos e imagens de cinema; ela voltou repaginada para a sala de estar, reunindo família e amigos, em torno de mais de dez títulos de streaming, nome dado a essa tecnologia, onde podemos ter acesso a filmes e séries num click. Confesso que sou muito apegada às séries e sofro quando termino de maratonar, imaginando se encontrarei outra tão boa quanto…. Por sorte, o algoritmo, assim como eu, é muito carente e está sempre à postos, sugerindo novos títulos. Ele acerta na maioria das vezes!

Há uns vinte anos surgiu o ” Framboesa de Ouro”, prêmio que elege os piores da indústria ( o Oscar já existe há mais de 90 edições). No inicio, dessa premiação, “ganhar” um Framboesa era  insulto e humilhação, mas, estranhamente, de uns anos para cá,  mais precisamente com as redes sociais, o prêmio ganhou certo status, uma vez que é escolhido por críticos de cinema, jornalistas e internautas, esses últimos responsáveis por falar tão mal dos ganhadores, que acabou “catapultando” esses títulos a um novo nicho de mercado. A expressão ” falem bem, falem mal, mas falem de mim” caiu como uma luva para os ganhadores. A indústria observou que quanto mais o filme era “achincalhado”, mais aumentava sua audiência, no estilo “vamos todos odiar juntos”. Já existem até produtos culturais sendo feitos para serem odiados e outros, que foram fracassos no cinema,  redescobertos no streaming, alguns recebendo a classificação de “cult”.

O ódio, acredite,  é o novo pretinho básico! E, em se tratando de engajamento, já foi comprovado que o ódio une mais do que o amor, vide a fama do “hater profissional”, pessoa que se empenha em criticar nas redes sociais de forma sistemática. Alguns o fazem por puro prazer, outros projetam suas frustrações e sentem necessidade em falar mal; como num vício , onde só conseguem  sentir felicidade,  odiando. Infelizmente o número de haters só aumenta.

A “Terra de ninguém”, alcunha do ambiente cibernético, é a garantia do anonimato para a propagação do ódio. Vale lembrar que existe uma lenda sobre a origem do Facebook, que teria sido idealizado por Zuckerberg para ser um lugar de conhecer garotas de forma mais rápida e para denegrir a imagem da sua ex-namorada, corroborando a ideia que, desde o princípio, a rede social teve como um dos objetivos humilhar e difamar as pessoas. Também vale ressaltar que o preconceito  e a xenofobia sempre existiram  mas, com as redes sociais, a intolerância elevou esses preconceitos a  níveis inimagináveis.

O Instagram foi concebido para ser um álbum de fotos, que podiam ser curtidas e comentadas. Anos depois, outros recursos foram criados e, como por encanto,  apareceram os influencers digitais, que, com sua popularidade, transformaram a forma de vender e consumir produtos. O Instagram também virou um comércio e o ódio aumentou! Os “influencers” começaram a ganhar fortunas com a venda de produtos,  elevando o valor do post a patamares nunca vistos; muitos deles viraram milionários, tanto na conta bancária, quanto em seguidores. A relação de trabalho também mudou; hoje um influencer pode conseguir um contrato simplesmente por ter uma legião de pessoas que o segue. As empresas, sabedoras desse poder, têm nas redes sociais uma extensão do currículo do candidato; com um clique podem fazer um raio X, extraindo informações de comportamento, envolvimento político e cultural. Nunca a humanidade se expôs tanto!

Segundo a Bíblia,  a vaidade, um dos sete pecados capitais,,  é algo enganoso, que leva a ostentação e idolatria. Anda de mãos dadas com o exibicionismo, um prato cheio para as redes sociais, ávidas por novos usuários que  publiquem algo e postem fotos, recheadas de filtros. A resposta é imediata, tanto para elogiar, quanto para criticar. Dependendo do conteúdo, o post é viralizado, de tal forma que até em Marte é compartilhado. Se há uma coisa que os haters fazem muito bem, é o linchamento virtual. Mas existe luz no fim do túnel…

As redes sociais se alimentam de notícias e de imediatismo; o linchamento de alguém  é logo esquecido. A rotatividade de odiados e de cancelamentos é enorme; os paparazzi deram início a essa tarefa tempos atrás, principalmente no Reino Unido e em  Hollywood. Hoje, com a facilidade do celular, qualquer pessoa pode contribuir para o círculo do ódio. O lado bom dessa história é que existe um tempo útil para uma notícia permanecer sendo comentada, até porque em qualquer esquina da vida terá sempre alguém dando motivos para ser odiado.

A festa do Oscar foi domingo passado e, como era esperado, homens e mulheres desfilaram no tapete vermelho, vestidos para uma grande festa. O glamour finalmente estava de volta; depois de dois anos sem a celebração presencial! Estava tudo perfeito, até que… Pow! Um Will Smith, enraivecido com uma piada de extremo mau gosto feito pelo comediante Chris Rock, não se conteve e estapeou o apresentador. A plateia, assim como eu, ainda ficou alguns segundos sem saber se o tapa  fazia parte da apresentação… Não, não fazia. As redes sociais e todos os canais de televisão foram à loucura e Will Smith é o mais recente escândalo da vez. Quanto ao apresentador, ele está tranquilo, afinal ficou famoso pelo seriado que escreveu ” Todo mundo odeia Chris”.

Will ganhou o Oscar na categoria de melhor ator, pouco tempo depois do tapa. Fez um discurso emocionado e, sabedor do código de conduta da Academia, pediu desculpas a todos. O teor da piada e o porquê da reação, todos já sabem nos quatro cantos do mundo! O tribunal da Internet imediatamente tomou partido; não há um ser humano na face da Terra que não saiba quem é Will, Chris, Jada e alopecia, portanto encerrarei por aqui, mas voltarei a qualquer momento comentando um novo escândalo!

Até a próxima! Espero que você tenha odiado essa crônica e viralize! É disso que se trata…
Ana Madalena

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