CIÊNCIAS: A INTRÍNSECA RELAÇÃO ENTRE CÉREBRO E ESPÍRITO – PARALELOS E SIMILARIDADES

Na coluna CIÊNCIAS desta quinta-feira trago um artigo muito interessante e bem escrito por Fernando Gaspar Sobrinho sobre os paralelos entre cérebro e espírito. Como ocorre a relação entre essas duas entidades. Uma que está diretamente ligada a matéria, ao corpo humano. Nele está aprisionada e possui uma vida finita. A outra que permeia o campo do sutil, possui liberdade para abandonar o corpo de vezem quando e não está limitada a vida finita do corpo. Então lhe convido a ler o texto completo a seguir e entender como se dá essa intrínseca relação entre matéria e espírito!

Cérebro o órgão da alma - Planeta

Paralelos entre cérebro e espírito

“Existem similaridades na estrutura e na função do
cérebro e da mônada que constituem o ser humano. A
mônada corresponde, sob o ponto de vista espiritual,
ao cérebro físico. Refletir sobre esse fato favorece a
busca consciente pela saúde física e espiritual”

Fernando Gaspar Sobrinho*
O cérebro é o órgão mais importante do corpo humano e os neurônios que o constituem são células altamente diferenciadas, permanentes
e bastante exigentes. Nossos comportamentos, emoções e pensamentos estão relacionados a esse órgão. As ações motoras, nossos movimentos, os sentidos e a manutenção do equilíbrio e das funções corporais, como respiração, circulação, digestão, crescimento, reprodução, metabolismo e temperatura, entre outros, estão associados a regiões específicas do cérebro. Cada parte do cérebro, portanto, desempenha uma função, cuida de um segmento corporal e processa informações.

Além dessa biologia já aceita, o debate sobre a independência da consciência ou alma em relação ao cérebro permanece em aberto desde
a Antiguidade. O cérebro é um maestro biológico, mas, sob um ponto de vista metafísico, pode ser a batuta de uma alma maestra que rege
sua orquestra física. Na literatura teosófica, que divide o homem em diferentes elementos constitutivos, o componente mais espiritual do ser humano é chamado espírito (atman, em sânscrito) e é a fonte última e profunda de nossa consciência. É o ser humano sem cascas.

Neste texto vamos fazer analogias entre o cérebro e o espírito na perspectiva biológica-teosófica.

O cérebro é envolvido por sete revestimentos, que podem ser listados, de dentro para fora: as três meninges (pia-máter, aracnoide-máter e dura-máter), o osso do crânio e seus dois revestimentos (interno ou endósteo e externo ou periósteo), e a pele (couro cabeludo). Cada uma dessas camadas possui suas peculiaridades e suas funções. Elas protegem, isolam, filtram e nutrem o cérebro. Elas tornam viável a existência do cérebro num ambiente que, de outro modo, seria incompatível com sua vida. O cérebro, como outros órgãos vitais, não pode se relacionar diretamente com o meio exterior. O mesmo pode ser dito da relação entre o espírito e seus veículos materiais.

Segundo Jinarajadasa, em seu livro Os Sete Véus Sobre a Consciência, e outras obras similares, uma pessoa é constituída por sete princípios, sendo, do mais grosseiro ao mais sutil: físico, etérico (físico em estado sutil), kama (desejos-paixões-emoções), manas (mente inferior e mente superior), búdico (buddhi) e átmico (atman ou espírito). Este último, segundo a literatura esotérica, é revestido por um envoltório delicado: o ovo áurico. De certo ponto de vista, a consciência está para o cérebro como o espírito está para o ovo áurico. Dada a incognoscibilidade de atman, buddhi é tido como foco fundamental da vida. Portanto, a vida real é a de buddhi, cuja síntese prática é dada
pela fraternidade. A respeito, a fraternidade é o primeiro objetivo da Sociedade Teosófica.

Cada um daqueles princípios constitutivos se relaciona a complexas funções físicas, psíquicas e espirituais. Eles processam informações
que poderão afetar a consciência profunda e ao mesmo tempo são instrumentos que viabilizam a manifestação dessa mesma consciência.
Existe, guardadas as devidas proporções, uma similaridade numérica e funcional entre os revestimentos do cérebro e os espirituais.

Vejamos os sentidos e as ações corporais. Embora os impulsos nervosos oriundos dos órgãos dos sentidos, como os olhos e os ouvidos, possam chegar ao cérebro e nos fazer conscientes dessas percepções, ou seja, visão e audição, o cérebro em si é insensível. Ele pode ser tocado e cortado sem que a pessoa sinta nada, porque inexiste sensor de dor no cérebro. A cefaleia nunca advém do cérebro, mas
das estruturas a ele relacionadas. O cérebro também é incapaz de se mover sozinho, pois não possui estrutura locomotora. Portanto, ele não fala, não anda, não vê e não ouve. O cérebro é como o olho: tudo vê, exceto a si mesmo. A despeito disso, nenhuma das ações e sensações conscientes são possíveis sem o cérebro, o destino ou a origem desses impulsos nervosos. Mas para que tudo isso ocorra, o cérebro precisa de instrumentos, ferramentas capazes de sentir ou executar ordens. Esses órgãos estão distantes do cérebro; daí a necessidade de nervos para conduzir sinais. Quando o ser humano se torna consciente de algo à sua volta ou consigo próprio é porque a informação nervosa chegou até o cérebro, mais especificamente ao córtex, a substância cinzenta que o reveste. Por isso ele é considerado, junto com a medula espinal, parte do sistema nervoso central. Ele é o destino dos sentidos corporais que, por sua vez, começam no estímulo dos órgãos dos sentidos. Ele também é a origem física das ordens motoras para os músculos e secretoras para as glândulas.
Se alguém deseja fazer algo conscientemente, essa ordem partirá de modo obrigatório do córtex cerebral, que é sua camada mais superficial.

Após abordar o cérebro, voltemos ao espírito. Em Teosofia, a mônada é o cerne espiritual do ser humano. Ela é constituída de um complexo formado pelo espírito e pela chamada alma espiritual. O espírito é visto aqui como um princípio universal, comum a todos os seres humanos, e não uma individualidade personalista. Ele é tido como uma emanação imortal do princípio subjacente à origem e manutenção do universo, sendo, portanto, parte dessa própria fonte. Trata-se de algo cuja quintessência e sutileza estão além da cognição humana e, portanto, é abstrata, especulativa e intuitiva. Mas o ovo áurico que o envolve é menos abstrato e, em nossa analogia, corresponde ao córtex cerebral, destino do que pode ser assimilado e origem imediata dos impulsos espirituais.

Não é por acaso que a reflexão a respeito do espírito exige intuição. O instrumento imediato do espírito, seu veículo de manifestação, é a chamada alma espiritual, cuja principal característica é a perspectiva impessoal da vida e do cosmo e a percepção intuitiva de verdades. Na dimensão da alma espiritual, nos sentimos unidos e empáticos em relação a todos os outros seres. Tem-se acesso direto ao conhecimento das coisas. De algum modo, essa alma está conectada ao espírito e esse grau de visão universal é um indício da união atman-buddhi.

Um complexo multidimensional

Nos textos teosóficos-hindus, o espírito é atman e a alma espiritual é buddhi. Esta última pode ser influenciada por nossa mente superior ou abstrata (manas arupa, literalmente “mente amorfa”), que reflete e constrói nossos pensamentos melhores e mais altruístas. Já a mente concreta representa o aspecto inferior da mente, mais ligada ao que é terreno ou egoísta. Quanto mais forte a sintonia com os níveis superiores, mais intensa é a consciência de unidade cósmica, manifestada principalmente pela fraternidade, espiritualidade e sabedoria, e maior é o intercâmbio entre esses planos existenciais.

Logo, o ser humano é um complexo multidimensional. Podemos, assim, abordar as dimensões relativas ao que chamamos personalidade
transitória e à mônada imortal. A propósito, a mônada, em seu próprio nível, é incapaz, ela mesma, das tarefas da personalidade.

Do ponto de vista sensitivo, as experiências são processadas em seus respectivos níveis dimensionais até que determinados fluxos chegam à mente superior e à mônada, que é o destino daquilo que pode ser especialmente codificado e assimilado através das encarnações. Aqueles princípios sutis e o corpo que formam o ser humano funcionam como órgãos sensoriais e efetores para a mônada, ou seja, são portas de entrada para percepções e vias de saída dos fluxos monádicos. Em última análise, o desenvolvimento da mente superior e da mônada dependem das experiências vividas pelo indivíduo em suas diversas dimensões e existências. Como será visto adiante, o objetivo da vida é elevar a mente superior até harmonizá-la com buddhi e com esta fundir-se.

Retornemos ao cérebro para falar sobre seu desenvolvimento e potencialidades. Para alcançar sua plena capacidade, o sistema nervoso necessita se desenvolver, pois a criança nasce imatura. Por isso não anda nem fala. Com o tempo, a partir da nutrição e dos estímulos da experiência cotidiana, os neurônios crescem, formam conexões, circuitos, e codificam dados e habilidades. O cérebro se torna ativo, a memória e a destreza se expandem junto com o aprendizado: o ser alcança a maturidade. Isso permite a capacidade criativa, armazenadora e executora. O ser adquire protagonismo no mundo, deixando a passividade em prol da atividade.

Um processo semelhante ocorre com a mônada por meio das reencarnações. Ela se torna ativa, desenvolve suas potencialidades, se expande e amadurece progressivamente conforme se relaciona com os demais princípios da manifestação por meio da mente. Esses veículos-instrumentos se tornam melhores e capazes de expressar a força, a vontade, a genialidade, a virtude e a sabedoria, frutos da
ressonância monádica. Num estágio avançado, é dito que a mente superior se une à alma espiritual (buddhi) e o ser humano se realiza em seu atual momento evolutivo. Essa fusão é o moksa hindu ou o nirvana budista, o fim dos ciclos de renascimentos e mortes (samsara).

Aprendizado internalizado

Fisicamente, vimos que os impulsos nervosos que chegam ao córtex do cérebro são já processados e adaptados às condições exigidas. Porém, outro ponto a ser considerado diz respeito à circulação do sangue, pois nem todas as substâncias aí presentes têm acesso ao cérebro. Isso porque existe um filtro, uma triagem celular chamada “barreira hematoencefálica”. Deste modo, somente substâncias nobres de interesse do cérebro aí chegam.

Algo análogo se dá com a mônada e seus veículos. Somente aquilo que é assimilável pela mônada pode ter acesso a ela. A brutalidade das
paixões, os vícios, os pensamentos mesquinhos, as grosserias e o moralmente reprochável são descartados e reciclados em seus respectivos níveis insólitos. Nesses casos, somente o fluxo da lição é assimilado pela mente superior e daí pela mônada. As marcas e cicatrizes permanecem na Terra, enquanto o aprendizado é internalizado. As experiências se somam e desenvolvem a natureza interior. Práticas virtuosas têm acesso, por ressonância, aos princípios superiores do ser humano e agem diretamente no crescimento espiritual da pessoa. Essa capacitação progressiva da mônada-mente torna a individualidade que reencarna positivamente qualificada e capaz de prodígios maiores associados ao autocontrole, à mente sagaz e à vivência de emoções construtivas manifestas nas atitudes nobres. Assim, as chances de acertos crescem e os erros decrescem.

É importante considerar que todos os movimentos, sejam mentais, emocionais ou físicos, mobilizam energias próprias que repercutem em seus respectivos níveis ou dimensões. Isso significa que, de fato, toda ação gera consequências. É o karma hindu-budista, que resulta em júbilo ou sofrimento, conforme a qualidade, direção e intensidade da energia mobilizada. É, em certo sentido, a “providência” dos cristãos
ou as “mutações” de que fala Confúcio. Segundo Paulo, “o que o homem semear, isso ele colherá”.

Conclui-se que existem similaridades na estrutura e na função do cérebro biológico e da mônada teosófica que constituem o ser humano.
Para uma pessoa, a mônada corresponde, sob o ponto de vista espiritual, ao cérebro físico. Refletir sobre esse fato favorece a busca consciente pela saúde física e espiritual, haja vista o reconhecimento da importância de ambos. O paralelo entre nosso centro físico e o espiritual reforça a relação entre esses extremos enquanto princípios. As analogias discutidas aqui endossam o fundo espiritual que permeia a vida humana, colocando-o como meta existencial, uma vez que somos essencialmente espíritos e não apenas corpos.

* Fernando Gaspar Sobrinho é médico e professor universitário.

Fonte: Revista Sophia, 85ª edição

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