ECONOMIA: A CONSEQUÊNCIA DE UMA CEGA DEVOÇÃO AO SISTEM DE METAS DA INFLAÇÃO TEM COMO CONSEQUÊNCIA A ATUAL CARISTIA DOS ALIMENTOS

O artigo a seguir publicado aqui na coluna ECONOMIA desta quarta-feira nos dá a exta noção do que causou a carestia dos alimentos durante a pandemia do coronavírus. Ele nos mostra que as políticas de metas de inflação são a real causa dessa carestia. E você pode entender bem melhor depois que ler o artigo completo e analisar os gráficos!

A atual carestia dos alimentos é consequência de uma cega devoção ao sistema de metas de inflação

Políticas de metas de inflação são a causa, e não a solução dos atuais problemas

 

Comecemos com um exemplo simples que, no entanto, reflete exatamente o que está se passando na economia brasileira neste momento pandêmico.

Imagine uma economia em que haja apenas dois produtos: maçãs e laranjas. Vamos trabalhar apenas com o curto prazo.  Há 10 maçãs e 10 laranjas, e uma oferta monetária total de $20.

Suponha que a interseção entre oferta de laranjas e demanda por laranjas determine um preço de $1,10 por laranja. Isso irá, simultaneamente, estipular o preço de cada maçã em $0,90.

(Se você multiplicar 10 laranjas por $1,10 e 10 maçãs por $0,90 terá um total de $20, que é a oferta monetária total da economia).

O preço relativo entre laranjas e maçãs reflete a demanda da sociedade por estes dois bens, sempre de acordo com sua relativa abundância — ou oferta.

Agora, suponha que as preferências das pessoas se alteram e elas passam a demandar ainda mais laranjas e menos maçãs. Ou seja, a demanda por laranjas aumenta e a demanda por maçãs cai. Faltam laranjas e sobram maçãs.

O efeito de curto prazo será um aumento no preço das laranjas e uma redução no preço das maçãs (caso a oferta monetária se mantenha inalterada).

Assim, suponha agora que o novo preço de equilíbrio seja de $1,20 para laranjas e $0,80 para as maçãs.

Isso representa um aumento de 9% no preço das laranjas (de $1,10 para $1,20) e uma redução de 11% no preço das maçãs (de $0,90 para $0,80).

Estatisticamente, essa alteração no padrão de consumo deveria levar a uma alteração no peso de cada item na cesta de consumo. No início, laranjas e maçãs tinham o mesmo peso, pois eram consumidas igualmente (10 de cada). Agora, sobram maçãs e faltam laranjas. Logo, laranjas deveriam passar a ter mais peso estatístico do que maçãs. Se isso for feito, o cálculo da inflação estará correto.

No entanto, se não fizermos essa alteração, e considerarmos que o peso dos dois itens na cesta de consumo das pessoas se manteve o mesmo — que é exatamente o que o IBGE fez; ou seja, o Instituto não alterou os pesos dos itens na cesta de consumo durante a pandemia (e, justiça seja feita, nem teria como) —, então temos que a economia está vivenciando uma deflação de preços de 2%, calculada como uma média ponderada dos dois bens (aumento de 9% nas laranjas, queda de 11% nas maçãs, ambos os itens sendo mantidos erroneamente com o mesmo peso na cesta de consumo).

E tudo por causa de uma simples mudança na preferência das pessoas, mudança essa que não foi levada em conta pela agência que calcula a inflação de preços, que não alterou a cesta de consumo das pessoas — com o novo padrão de consumo, laranjas deveriam ter mais peso que maçãs.

(Ironicamente, o IBGE alterou a metodologia da cesta no fim de 2019, antes da pandemia. A alteração foi correta; porém, com a pandemia, ficou desatualizada)

Ato contínuo, em decorrência do fato de o índice oficial de preços estar agora apontando uma deflação, o Banco Central — que tem como principal política manter este índice de preços aumentando 4% ao ano — terá de reduzir a taxa básica de juros e expandir a oferta monetária (aumentar a quantidade de moeda na economia) com o objetivo de estimular a demanda e, com isso, encarecer ainda mais a laranja (ou evitar que a maçã caia de preço).

Agindo assim, ele tentará fazer com que o índice oficial de inflação ao menos volte para perto de 4%.

E por que o Banco Central tem de atuar para encarecer as coisas? Por que ele tem de impedir que os preços caiam? Nenhum economista convencional sabe responder seriamente a essa pergunta, sem cair em contradição.

É assim no mundo real

Embora extremamente simples, o exemplo acima ilustra exatamente o que o Banco Central brasileiro está fazendo nesta era de Covid-19.

Por causa das quarentenas e do desligamento compulsório da economia efetuado por prefeituras e governos estaduais, a esmagadora maioria do setor de serviços foi fechada. A cesta de consumo do brasileiro foi profundamente alterada.

Com poucas pessoas saindo de casa, a demanda por itens como passagens aéreas, passagens de ônibus, hotéis, turismo, vestuário, lazer, estacionamentos, ingressos de cinema e teatro, utensílios domésticos, móveis, toalhas, lençol, fronhas etc. simplesmente sumiu.

Com a queda global no preço do barril de petróleo e a forte redução na circulação de veículos, combustíveis baratearam. Com o fechamento das escolas e a adoção do ensino à distância, várias instituições ofereceram redução nas mensalidades.

Tudo isso pode ser comprovado nos gráficos abaixo.

Itens como artigos de residência, vestuário e transporte apresentaram a menor taxa de crescimento em 20 anos. (Observação: o gráfico está no formato de média móvel de 12 meses, o que significa que os valores se referem à média dos valores mensais para cada período de 12 meses).

Captura de Tela 2020-10-16 a`s 15.37.09.png Gráfico 1: taxa média mensal, em um período de 12 meses, de inflação de preços dos itens “transportes”, “artigos de residência” e “vestuário

Observe que, no primeiro semestre, todos apresentaram deflação de preços.

Já a educação, embora não tenha entrado em deflação, apresentou uma queda fragorosa:

Captura de Tela 2020-10-16 a`s 15.37.33.pngGráfico 2: taxa média mensal, em um período de 12 meses, de inflação de preços do item “educação”

Por outro lado, alimentos e bebidas vivenciaram uma disparada de preços.

Consequentemente, e dado que estes itens possuem um peso considerável na cesta de consumo criada pelo IBGE para calcular o IPCA, o Banco Central reduziu acentuadamente a SELIC (fazendo com que a taxa real de juros se tornasse negativa e menor até mesmo que a da Suíça) e expandiu e atuou para expandir a oferta monetária, principalmente por meio do Orçamento de Guerra.

O gráfico a seguir mostra a evolução da taxa Selic e da oferta monetária (M1).

m1xselic.pngGráfico 3: linha azul, eixo da direita: M1; linha vermelha, eixo da esquerda: taxa Selic

Observe que a relação é quase sempre inversa. Quando a Selic sobe, a expansão da oferta monetária sofre uma desaceleração. Quando a Selic cai, expansão da oferta monetária acelera.

Igualmente, a forte expansão monetária em conjunto com juros reais negativos depreciaram fortemente o real. O dólar encareceu.

O gráfico a seguir mostra a evolução da taxa Selic e da taxa de câmbio.

selicxcambio.pngGráfico 4: linha azul, eixo da direita: taxa de câmbio (reais por dólar); linha vermelha, eixo da esquerda: taxa Selic

Observe que a relação é também quase sempre inversa. Quando a Selic sobe, a expansão a taxa de câmbio cai (ou pára de subir). Quando a Selic cai, a taxa de câmbio sobe.

O real, até o início de outubro, foi a moeda que mais se desvalorizou no mundo. Um feito.

Como consequência desta forte expansão monetária, desta forte redução dos juros e da ampla desvalorização da moeda, os preços em reais das commodities brasileiras negociadas no mundo e cotadas em dólares, como arroz, milho, soja e carne, subiram forte.

O gráfico abaixo mostra a evolução dos preços, em reais, das principais commodities agropecuárias brasileiras, segundo dados do Banco Central:

Captura de Tela 2020-10-16 a`s 16.04.03.pngGráfico 5: evolução dos preços das principais commodities agropecuárias.

Com os preços em reais em alta, as exportações de alimentos passaram a bater recordes. E isso gerou seu encarecimento, mesmo tendo havido recorde de produção.

O gráfico abaixo mostra a taxa de inflação dos preços dos alimentos em comparação com os demais produtos da cesta do IBGE.

Captura de Tela 2020-10-16 a`s 15.43.27.pngGráfico 6: taxa média mensal, em um período de 12 meses, de inflação de preços dos itens “alimentos e bebidas”, “transportes”, “artigos de residência” e “vestuário”

Portanto, essa disparada dos preços dos alimentos se deveu, basicamente, a três fenômenos:

1) auxílio emergencial de R$ 600 por mês para 67 milhões de pessoas, que está sendo feito majoritariamente via expansão monetária.

2) Isso gerou um aumento da quantidade de moeda injetada na economia pelo Banco Central.

3) E gerou também uma alta do dólar, a qual foi causada tanto pela injeção de moeda quanto pela pronunciada redução da Selic.

Já os preços dos materiais de construção também seguem batendo recordes, mas estes nem sequer entram no índice de preços ao consumidor.

Apenas mais um exemplo

Portanto, comparando-se ao nosso exemplo hipotético inicial, os alimentos e os materiais de construção são as laranjas, que tiveram aumento na demanda e subiram intensamente de preços. Já todo o resto da economia são as maçãs, que tiveram queda na demanda e relativa estabilidade nos preços.

O IBGE captou esse fenômeno, mas não alterou o peso de cada item nas cestas de consumo (e, como dito, nem teria como em tão curto espaço de tempo). E o Banco Central, que é guiado exclusivamente pelo resultado final do índice de preços, reagiu de acordo com seu objetivo de tentar encarecer tudo em 4% ao ano.

Para compensar a queda dos preços dos estacionamentos (vazios), das passagens aéreas (aviões parados), das diárias de hotéis (fechados) e das roupas (quase ninguém compra roupa sem ir à loja experimentar), o Banco Central injetou moeda a rodo para fazer subir outros preços e, com isso, manter a meta de carestia em 4% ao ano.

Consequentemente, acabou gerando uma brutal carestia nos alimentos, algo que todas as famílias sentem no supermercado. E nos materiais de construção. E ainda impediu uma salutar e necessária queda nos preços nos outros setores (em recessão com alto desemprego, custos devem cair para auxiliar uma recuperação mais rápida).

Todo o problema, portanto, está não apenas na devoção cega ao sistema de metas de inflação, como também na estipulação de um valor absurdamente alto para esta meta. Em outros países da América Latina, a meta de inflação é bem menor.

Ao passo que, no Brasil, o Banco Central tem como meta encarecer o custo de vida do brasileiro em 4% ao ano, no Chile, na Colômbia e no México essa meta é de 3%. No Peru, é de apenas 2% (veja a lista completa aqui).

Se, por exemplo, tivéssemos como meta 3% (quiçá 2%, como o Peru) em vez de 4%, a Selic não teria sido reduzida tanto quanto foi, e consequentemente não estaríamos vivenciando essa bizarra desvalorização do real e essa desumana carestia nos alimentos (em meio a uma pandemia e um alto desemprego).

Nosso padrão de vida estaria maior. E, ainda mais importante, não estaria sendo construído um cenário bombástico para o futuro.

Eis a evolução dos preços no atacado:

ipa.pngGráfico 7: taxa média mensal, em um período de 12 meses, de inflação de preços no atacado

Com uma taxa média de 1,58% ao mês, estamos com um acumulado de quase 21% em 12 meses. Trata-se, simplesmente, da maior taxa da história do real.

Se isso “vazar” para os consumidores (e ao menos uma parte irá vazar), um aperto nos juros poderá ser necessário no futuro — um aperto maior do que seria necessário caso a meta de inflação fosse mais civilizada.

Tal aperto poderá afetar a recuperação econômica.

Ter uma meta para o encarecimento do padrão de vida já é, por si só, algo bizarro e que não faz nenhum sentido. A meta ser alta é algo ainda mais bizarro. Mas a busca por essa meta levar ao encarecimento desnecessário itens essenciais beira o criminoso.

Apenas mais um caso de desarranjo econômico causado pela Banco Central, essa agência estatal responsável por planejar centralmente os preços chaves da economia.

Fonte:mises.org.br

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ECONOMIA: ESTAMOS VIVENCIANDO O NOVO FANATISMO DO SÉCULO, O LOCKDOWN

Nesta edição desta sexta-feira, aqui na coluna ECONOMIA você vai conhecer a mais nova ideologia totalitária que se chama “Lockdown”. Fruto da polaridade que assolou e tomou conta do mundo a partir de 2018, o Lockdown tomou corpo a partir da pandemia do coronavírus e se tornou o novo fanatismo do século. Então, convido você a ler o artigo completo a seguir e conhecer com mais profundidade essa nova ideologia política.

Lockdown: a nova ideologia totalitária

Vivenciamos o novo fanatismo do século

 

Toda ideologia política tem três elementos: uma visão do inferno com um inimigo que tem de ser esmagado; uma visão de um mundo mais perfeito; e um plano de transição de um para o outro.

Os meios de transição geralmente envolvem a tomada e a subsequente utilização total da ferramenta mais poderosa da sociedade: o estado.

Por esta razão, a tendência das ideologias é serem totalitárias. Eles dependem fundamentalmente de sobrepujar as preferências e escolhas dos indivíduos e substituí-las por um sistema de crenças e comportamentos planejado por algum comitê de iluminados.

Um caso óbvio é o comunismo. O capitalismo é o inimigo. Controlar os trabalhadores e abolir a propriedade privada seria o paraíso. E os meios para se alcançar isso seriam a expropriação violenta das posses da burguesia, com o assassinato dos resistentes.

O socialismo oferece uma versão mais suave do mesmo projeto: na tradição fabiana, você alcança estes mesmos objetivos por meio do planejamento econômico gradual.

A ideologia do racismo postula algo diferente. O inferno seria a integração étnica e a mistura de raças. O paraíso seria a homogeneidade racial. E os meios de mudança são a marginalização ou o genocídio de algumas raças.

O fascismo vê o livre comércio global, o individualismo e a imigração como os inimigos, ao passo que um poderoso nacionalismo seria o paraíso. E a maneira de se fazer a transição é tendo um grande líder. Você pode observar as mesmas características em certos tipos de tradicionalismo religioso teocrático.

Cada uma dessas ideologias vem com um foco intelectual principal, algum tipo de estória projetada para chamar a atenção. Exploração. Desigualdade. Teoria racial. Identidade nacional. Salvação. E cada uma vem com sua própria linguagem para sinalizar o apego à ideologia.

Praticamente todas as ideologias acima já são bem conhecidas e já estão bem desgastadas. O mundo já tem muita experiência prática com cada uma delas. É possível simplesmente recorrer à história para observar os padrões, reconhecer seus apoiadores e refutar suas teorias.

A nova ideologia totalitária

Este ano de 2020 nos deu uma nova ideologia com tendências totalitárias. Ela possui uma visão do inferno, do céu e um meio de transição. Possui um aparato de linguagem único. Tem um foco mental. Possui sistemas de sinalização para revelar e recrutar adeptos.

Essa ideologia tornou-se mundialmente conhecida como “lockdown”. Podemos também adicionar o sufixo “ismo” à palavra: lockdownismo.

Sua visão do inferno é uma sociedade na qual os patógenos circulam livremente. Seu paraíso é uma sociedade controlada inteiramente por tecnocratas médicos, cuja principal tarefa é a supressão de todas as doenças. O foco mental são os vírus e outras pragas. A antropologia é considerar todos os seres humanos como pouco mais do que sacos recheados de patógenos mortais. As pessoas suscetíveis à ideologia são as pessoas com vários graus de misofobia — outrora considerada um problema mental, mas que agora foi elevado à condição de consciência social.

Este ano foi o primeiro teste do lockdownismo. Ele já chegou impondo os controles mais intrusivos, abrangentes e praticamente globais de seres humanos na história registrada. Mesmo em países onde o Estado de Direito e as liberdades individuais são fontes de orgulho nacional, as pessoas foram colocadas em prisão domiciliar. Suas igrejas e empresas foram fechadas. Milhões de empreendedores e trabalhadores foram humilhados pelo estado, o qual, além de proibi-los de trabalhar, ainda afirmou que suas atividades não eram essenciais para ninguém. A polícia foi estimulada a impingir todos os decretos draconianos e a prender dissidentes que oferecessem qualquer resistência.

A devastação é comparável a períodos de guerra, exceto pelo fato de que foi uma guerra imposta pelo governo ao direito das pessoas de se locomoverem e comercializarem livremente.

E o que é mais impressionante é que, depois de tudo isso, ainda não foi apresentada uma mísera evidência empírica, de qualquer lugar do mundo, de que esta política totalitária, estupefaciente e sem precedentes teve algum efeito em controlar o vírus, para não dizer em aniquilá-lo.

Ainda mais impressionante, os poucos locais que permaneceram completamente abertos (Dakota do Sul, Suécia, Tanzânia, Bielorrússia) não perderam mais do que 0,06% da sua população para o vírus, em contraste a locais como Nova York e Grã-Bretanha, que se fecharam totalmente e apresentaram as mais altas taxas per capita de mortalidade.

A mesma metodologia

Logo no início, a maioria das pessoas concordou, pensando que a mediada era de alguma forma necessária e de curto prazo. Duas semanas se estenderam para 30 dias, que se estenderam para 7 meses, e agora somos informados de que nunca haverá um momento em que não mais seremos obrigados a continuar professando essa nova fé de política pública. Trata-se explicitamente de um novo totalitarismo. E, como ocorre com todos esses regimes, há um conjunto de regras para os governantes e outro distinto para os governados.

O aparato da linguagem agora é incrivelmente familiar: achatamento da curva, desaceleração da disseminação, distanciamento social, contenção em camadas direcionadas, intervenção não-farmacêutica.

O inimigo é o vírus e qualquer pessoa que não esteja vivendo sua vida de maneira exclusivamente voltada a evitar a contaminação. Como você não pode ver o vírus, isso geralmente significa gerar uma paranóia sobre O Outro: alguém diferente de você tem o vírus. Qualquer um pode ser um super disseminador, e você pode reconhecê-los por seu comportamento desobediente e não-submisso.

Repentinamente, “especialistas” e autoridades ao redor do mundo impuseram restrições sobre quem você pode receber em sua casa, proibiram todos os eventos, aboliram as viagens, e até mesmo atiçaram desconfiança contra animais de estimação. Tudo isso levou ao efetivo desmantelamento da rotina em todas as cidades, algo que ainda está longe de se recuperar.

O novo puritanismo e o desprezo pelas consequências

A postura dos adeptos do lockdown almeja uma sociedade de volta ao estado da natureza, com uma idílica purificação da vida. Essa neurose com uma sociedade sem patógenos ajuda a explicar uma das mais estranhas características do lockdownismo: seu puritanismo.

Observe que o lockdown atacou especialmente qualquer coisa que se pareça com diversão: filmes, teatros, eventos culturais, esportes, viagens, boliche, bares, restaurantes, hotéis, academias e clubes. Ainda agora existem locais com toques de recolher para impedir as pessoas de ficarem fora de casa até tarde — sem absolutamente nenhuma justificativa médica.

Se uma atividade é divertida, ela vira um alvo.

Existe um elemento moral aqui. O pensamento é que, quanto mais as pessoas estão se divertindo, quanto mais escolhas elas fazem por conta própria, mais doenças (pecados) se espalham. Trata-se de uma versão sanitária da ideologia religiosa de Savonarola, que levou à Fogueira das Vaidades.

O lockdownismo tem todos os elementos esperados. Tem um foco maníaco em uma única preocupação — a presença de patógenos —, com a exclusão de todas as demais preocupações. A menor das preocupações é a liberdade humana. A segunda menor preocupação é a liberdade de associação. A terceira menor preocupação são os direitos de propriedade. Tudo isso deve se curvar à disciplina tecnocrática dos mitigadores de doenças.

As constituições e os limites ao governo não importam. E observe também quão pouco a terapêutica médica aparece. Não se trata de fazer as pessoas melhorarem. Trata-se apenas de controlar toda a vida.

E vale notar também que não se deu a mais mínima atenção para as consequências não-premeditadas. A destruição de milhares de pequenas empresas e empregos levou milhões à depressão (com aumento substantivo no número de overdoses e suicídios). As vidas de incontáveis milhões ao redor do mundo foram despedaçadas. Em outras palavras, o lockdown não apenas não alcança bons resultados em termos de saúde pública, como, ao contrário, ele faz o oposto.

Isso nada mais é do que puro fanatismo, uma espécie de insanidade forjada por uma visão selvagem de um mundo unidimensional em que toda a vida é organizada em torno da prevenção de doenças.

Note-se, também, a ignorância (intencional) do fato de que nossos organismos (por meio do sistema imunológico) evoluíram junto com os vírus ao longo de um milhão de anos. Não há nenhum reconhecimento dessa realidade, mesmo entre os “especialistas”.

Ao contrário, o único objetivo é tornar o “distanciamento social” o novo credo nacional.

O objetivo

Isso tem de ser dito mais claramente: o que tudo isso realmente significa é a imposição da separação humana forçada. Significa o desmantelamento de mercados, cidades, eventos esportivos presenciais e o fim do seu direito de circular livremente.

Todo o argumento se baseia em um simples erro: a crença de que mais contato humano dissemina mais doença e mortes. Em contraposição a essa insanidade, o eminente epidemiologista de Oxford Sunetra Gupta argumenta que a globalização e mais contato humano amplificaram as imunidades e tornaram a vida vastamente mais segura para todos.

Os defensores do lockdown foram surpreendentemente bem-sucedidos em convencer as pessoas de seus pontos de vista malucos. Todo o necessário é você acreditar que o único objetivo de todos na sociedade é evitar o vírus. A partir daí, todas as implicações se tornam explícitas. Antes que você perceba, você já se juntou a um novo culto totalitário.

Para concluir

Os lockdowns estão cada vez menos parecidos com um gigantesco erro e cada vez mais semelhantes a uma ideologia política fanática, um experimento político que ataca frontalmente os postulados básicos da civilização.

Já passou da hora de levarmos essa ideologia a sério e combatê-la com o mesmo fervor com o qual indivíduos livres resistiram a todas as outras ideologias maléficas que visavam a destituir a humanidade de toda a sua dignidade, e a substituir as liberdades individuais pelos terríveis sonhos de intelectuais e seus fantoches empoleirados nos governos.

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: A EXPANSÃO DA OFERTA MONETÁRIA E AS CONSEQUÊNCIAS AMBIENTAIS

Um estudo bastante apurado sobre a relação entre juros artificialmente baixos, câmbio depreciado e degradação ambiental, o que está acontecendo neste momento no Brasil conclui que o ambiente é danificado desnecessariamente, uma vez que, no final, o padrão de vida dos consumidores não aumentou em nada. Então convido você a ler o artigo completo a seguir para entender como se chegou a essa conclusão!

A relação entre juros artificialmente baixos, câmbio depreciado e degradação ambiental

Estranhamente, os progressistas dão um passe-livre a isso

Nota do Editor

O artigo abaixo possui a adição de um trecho específico para torná-lo ainda mais crucial à realidade brasileira.

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Teóricos que defendem soluções de livre mercado para o ambiente já demonstraram que a melhor maneira de se preservar a natureza é estendendo a criatividade empreendedorial e os princípios do livre mercado para todos os recursos naturais, o que requer a completa privatização destes e uma correta definição e defesa dos direitos de propriedade que pertencem a eles.

Sem estes direitos, todos eles baseados na propriedade privada, o cálculo econômico se torna impossível, a correta alocação de recursos escassos para as aplicações mais demandadas é impedida e todos os tipos de comportamentos irresponsáveis são encorajados, o que leva ao consumo e à destruição injustificados de vários recursos naturais.

Entretanto, estes teóricos conservacionistas pró-livre mercado até hoje seguem ignorando uma outra grande causa do uso ineficiente e improdutivo dos recursos naturais: a expansão artificial do crédito — via redução artificial dos juros e consequentemente expansão da oferta monetária — que os bancos centrais orquestram e ciclicamente injetam nos sistemas econômicos por meio dos sistemas bancários.

A expansão artificial

Toda expansão creditícia artificial desencadeia, em sua fase inicial, uma bolha especulativa que pode ser caracterizada por uma “exuberância irracional”.

Quando o Banco Central reduz artificialmente os juros, ele fez com que aqueles investimentos que antes não eram atraentes repentinamente se tornem promissores. Quando os juros dos empréstimos bancários são reduzidos, aqueles projetos de longo prazo que antes eram inviáveis tornam-se agora — exatamente por causa dos juros mais baixos — aparentemente viáveis.

Esses projetos de longo prazo — como, por exemplo, empreendimentos imobiliários, construção de shoppings, fabricação de máquinas, e ampliação da capacidade produtiva das indústrias — são aqueles que demandam mais capital e mais investimentos vultosos. O que antes parecia caro, agora, repentinamente — por causa dos juros menores — parece bem mais acessível.

Esta fase da expansão creditícia provoca uma série de desequilíbrios e descoordenações na economia real. Como a taxa de juros é um preço como qualquer outro da economia, sua manipulação pelo governo irá, inevitavelmente, gerar distorções que se tornarão explícitas apenas no longo prazo.

Consequentemente, vários projetos e empreendimentos de longo prazo que antes da expansão do crédito se mostravam desvantajosos se tornam agora, por causa da queda dos juros, aparentemente (muito) lucrativos.

Esse novo dinheiro criado pelo Banco Central e injetado na economia por meio do sistema bancário (via concessão de empréstimos) faz empreendedores pensarem que outras pessoas pouparam dinheiro — reduziram seu consumo —, desta forma liberando capital para a economia. No entanto, a realidade é que não houve nenhum aumento na poupança, e nenhum aumento em bens de capital. Houve apenas criação de moeda e manipulação de juros.

E quando este processo de expansão monetária ocorre simultaneamente em nível mundial, as consequências são globais.

As consequências ambientais

E um dos resultados mais ignorados deste fenômeno é a desnecessária pressão que ele gera sobre todos os recursos naturais.

Árvores que até então não deveriam ser derrubadas se tornam extremamente desejadas por madeireiras, cuja matéria-prima está agora sendo demandada por vários setores imobiliários.

Por causa do boom na construção civil, a produção de cimento aumenta exponencialmente, o que por sua vez exige um aumento na produção de alumina, de sílica, de óxido de ferro e de magnésio, os quais são queimados juntos em um forno e pulverizados, transformando-se em seguida em concreto.

Para aumentar a extração de minerais, várias montanhas e vales são explorados e perfurados mais atabalhoadamente, sempre com urgência para se suprir a crescente (e artificial) demanda.

O aumento artificial da renda, gerado pelo crédito fácil, estimula uma maior demanda por uma gastronomia mais requintada, o que estimula a pesca predatória e uma maior quantidade de abate de animais.

Florestas são queimadas com mais frequência para aumentar o plantio de soja. A criação de gado, uma atividade que os ambientalistas dizem ser poluidora, se expande. A atmosfera é poluída. Os rios são contaminados.

Além dos minerais, aumenta-se também a prospecção de petróleo e gás com o intuito de se completar projetos excessivamente ambiciosos para os quais simplesmente não haverá demanda assim que eles ficarem prontos, dado que os consumidores estarão mais endividados e sua renda não terá aumentado como se previa inicialmente.

No Brasil

O gráfico a seguir mostra a evolução da taxa Selic e da oferta monetária (M1) no Brasil.

selicxm1.png

Gráfico 1: linha azul, eixo da direita: M1; linha vermelha, eixo da esquerda: taxa Selic

Observe que a relação é quase sempre inversa. Quando a Selic sobe, a expansão da oferta monetária sofre uma desaceleração. Quando a Selic cai, expansão da oferta monetária acelera.

Já o gráfico a seguir mostra a evolução da taxa Selic e da taxa de câmbio.

selicxcambio.png

Gráfico 2: linha azul, eixo da direita: taxa de câmbio (reais por dólar); linha vermelha, eixo da esquerda: taxa Selic

A desvalorização cambial (que deixou nossos produtos mais baratos em dólares) tornou extremamente atraente a exportação de soja, milho, gado e madeira. Daí não ser surpresa a explosão em seus preços e o consequente aumento das queimadas em áreas do pantanal e da Amazônia visando à troca de vegetação para outras mais resistentes ao gado, ao plantio de soja e à derrubada de madeira.

O gráfico abaixo mostra a evolução do preço do Boi Gordo, em reais, na B3:

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Gráfico 3: evolução do preço do Boi Gordo, em reais, na B3.

Já o próximo gráfico mostra a evolução do preço do milho, também na B3:

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Gráfico 4: evolução do preço do milho, em reais, na B3.

E agora, o preço da madeira, em reais, no mercado mundial.

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Gráfico 5: evolução do preço da madeira, em reais, no mercado mundial.

Por sua vez, o preço da soja, em reais, no mercado mundial.

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Gráfico 6: preço da soja, em reais, no mercado mundial.

Aqui, a evolução dos preços, em reais, das principais commodities agropecuárias brasileiras, segundo dados do Banco Central:

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Gráfico 7: evolução dos preços das principais commodities agropecuárias. Fonte: Banco Central

Finalmente, a evolução dos preços, em reais, das principais commodities industriais metálicas brasileiras, segundo dados do Banco Central:

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Gráfico 8: a evolução dos preços das principais commodities industriais metálicas brasileiras. Fonte: Banco Central

Para concluir, os preços dos imóveis no Brasil:

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Gráfico 9: índice dos preços dos imóveis no Brasil.

As consequências econômicas

No final deste ciclo, quando a expansão creditícia — que não pode se perpetuar para sempre, sob o risco de destruir a moeda — for interrompida, os juros de longo prazo subirão, a expansão monetária será desacelerada, a renda irá parar de crescer, e todos estes investimentos irão se revelar sem sustentação, pois não havia poupança real os lastreando. O mercado inevitavelmente irá impor o desejo dos consumidores e todos estes empreendimentos que até então pareciam lucrativos revelar-se-ão um grande desperdício.

Vários investimentos de longo prazo feitos durante o período da expansão monetária se tornam ociosos, revelando que sua produção foi um erro e um esbanjamento desnecessário (o que os fez ser distribuídos incorretamente no tempo e no espaço) porque os empreendedores se deixaram enganar pela abundância do crédito, pela facilidade de seus termos e pelos juros baixos estipulados pelas autoridades monetárias.

O resultado de tudo isso é que o ambiente é danificado desnecessariamente, uma vez que, no final, o padrão de vida dos consumidores não aumentou em nada.

Pelo contrário, aliás: os consumidores estão agora relativamente mais pobres em decorrência de todos estes investimentos errôneos e insustentáveis que foram empreendidos em decorrência da expansão artificial do crédito, investimentos estes que imobilizaram capital e recursos escassos para seus projetos, recursos estes que agora não mais estão disponíveis para serem utilizados em outros setores da economia.

No geral, a economia está agora com menos capital e menos recursos escassos disponíveis, pois boa parte foi imobilizada em empreendimentos insustentáveis no longo prazo.

É assim que a expansão do crédito, além de afetar toda a economia, ainda degrada desnecessariamente o ambiente.

Esta extremamente sucinta análise nos leva a uma óbvia conclusão: amantes da natureza, além de defender a privatização de todos os recursos naturais, deveriam também defender um sistema monetário de livre mercado, o qual não comporta um Banco Central manipulando e expandindo a oferta monetária e o crédito para atender aos desejos de curto prazo dos políticos.

Em suma, a defesa teria de ser de um sistema monetário baseado em um padrão-ouro puro. Este seria o único arranjo capaz de erradicar as recorrentes expansões econômicas artificiais e insustentáveis e suas subsequentes crises financeiras e recessões, ciclo este que tanto mal faz ao ambiente, à humanidade e a todo o processo de cooperação social.

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA-POLÍTICA: NESTA SEGUNDA FEIRA PAULO GUEDES E RODRIGO MAIA SE ENCONTRARÃO EM UM JANTAR NA CASA DO MINISTRO DO TCU

Paulo Guedes e Rodrigo Maia vão jantar nesta segunda

PAULO GUEDES E RODRIGO MAIA VÃO JANTAR NESTA SEGUNDA - Blog de Daltro Emerenciano

Estremecidos depois de inúmeros desencontros, declarações cortantes e dificuldade de definir uma agenda comum entre Executivo e Legislativo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se encontram nesta segunda-feira para tentar desinterditar o debate.

O encontro será num jantar na casa do ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas, relator, no órgão, das matérias relativas ao Ministério da Economia e interlocutor próximo de Maia, de ministros do STF e de senadores como Renan Calheiros (MDB-AL), que, surpreendentemente, também atua nos bastidores da tentativa de aproximar o ministro e o deputado.

Havia uma expectativa de que Guedes e Maia fossem se encontrar neste domingo, mas a conversa foi adiada. O ministro foi chamado no sábado para um almoço no Palácio da Alvorada. O clima foi descrito como “tranquilíssimo” por interlocutores do governo ao BRP, e o convescote serviu para distensionar o ambiente depois que o ministro da Economia terminou a semana espinafrando publicamente o colega Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional.

Bolsonaro brincou que Guedes “meteu a porrada”, e procurou descontrair o ambiente. Participaram do churrasco outros ministros e amigos da família Bolsonaro.

Jantar
A conversa de Maia e Guedes vai tentar destravar a agenda legislativa da economia, sobretudo a reforma tributária. Maia disse que Guedes interditou essa proposta ao ameaçar e nunca mandar a nova CPMF para o Congresso.

Na semana que passou, eles voltaram a trocar farpas. Guedes acusou Maia de se unir à esquerda para impedir as privatizações, e o deputado chamou o ministro de desequilibrado.

Fonte: Blog do BG

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ECONOMIA: PARA AUMENTAR ARENDA PER CAPITA OU TRABALHA-SE MAIS OU TRABALHA-SE COM MAIS PRODUTIVIDADE

O artigo publicado a seguir, aqui na coluna ECONOMIA, revela com muita maestria o segredo do enriquecimento econômico que passa pelo aumento de produtividade. O artigo também mostra a diferença da produtividade entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento e o porquê dessa grande discrepância. Então não deixe de ler esse importante texto para o seu conhecimento! 

O segredo do enriquecimento econômico – e por que os países em desenvolvimento continuam atrasados

Acumular capital e adotar tecnologias será perda de tempo e de recursos sem estes indivíduos

 

Há apenas duas maneiras de se aumentar a renda dos indivíduos — ou seja, a renda per capita — de uma sociedade: ou se aumenta o número de horas totais durante as quais se fabricam bens e serviços, ou se aumenta o número de bens e serviços fabricados por cada hora de trabalho.

Ou seja: ou trabalha-se mais ou trabalha-se com mais produtividade.

Estas são as duas únicas maneiras possíveis de se aumentar a renda de cada indivíduo da economia. Ou ele aumenta sua carga de trabalho e, consequentemente, passa a produzir uma quantidade maior de bens e serviços (cujas vendas irão lhe permitir mais renda), ou ele mantém suas horas de trabalho e passa a produzir mais coisas durante este mesmo intervalo de tempo (o que, igualmente, irá lhe permitir mais renda).

No longo prazo, é claro, o padrão de vida de qualquer sociedade só consegue melhorar de maneira sustentada se ela optar pela segunda alternativa: afinal, a quantidade máxima de horas que os indivíduos de uma sociedade podem trabalhar é materialmente limitada, de modo que só lhes resta elevar a produtividade.

Portanto, temos que maior qualidade de vida requer maior produtividade. Porém, eis o problema: a produtividade das economias em desenvolvimento está estancada.

Por que o Brasil segue parado: primeira teoria

No Brasil, por exemplo, segundo estudo do Insper em parceria com a consultoria Oliver Wyman, “entre 1996 e 2014, o índice que mede a produtividade, chamado de PTF (produtividade total dos fatores), caiu de forma acentuada em comparação com o resultado americano, saindo de 69% em 1996 para 48% em 2014.”

E mais: o trabalhador brasileiro leva uma hora para fazer o mesmo produto ou serviço que um norte-americano consegue realizar em 15 minutos e um alemão ou coreano em 20 minutos. Em termos de riqueza, o Brasil produz em uma hora o equivalente a US$ 16,75, valor que corresponde apenas a 25% do que é produzido nos EUA (US$ 67). Comparado a outros países, como Noruega (US$ 75), Luxemburgo (US$ 73) e Suíça (US$ 70), o desempenho do país é ainda pior.

Eis uma lista de 62 países em ordem de produtividade.

E eis um gráfico da revista The Economist mostrando a evolução da produtividade de Coreia do Sul, Chile, México, Brasil, China e Índia.

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Há um certo consenso sobre as causas da baixa produtividade:

  • Baixa qualificação e capacidade dos trabalhadores (capital humano)
  • Tecnologia atrasada e mal administrada nas empresas (capital físico)
  • Investimento caro e abaixo do necessário (capital financeiro)
  • Infraestrutura (rodovias, ferrovias, hidrovias, portos insuficientes e sucateados)
  • Burocracia complicada
  • Ambiente de negócios perverso

Tudo isso é verdade. E vale acrescentar também a hipótese de uma baixa qualidade do corpo administrativo das empresas. Os economistas Fabiano Schivardi e Tom Schmitz, em recente trabalho acadêmico voltado para as economias mais atrasadas da Europa, afirmam que pelo menos metade do atraso de produtividade desses países em relação à Alemanha se deve a uma má gestão das empresas, cujos administradores não souberam aproveitar a difusão da tecnologia.

Em outras palavras, por causa da má qualidade dos administradores e gestores, as empresas destes países não foram capazes de tirar o máximo proveito possível da incorporação de novas tecnologias — ou, mais ainda, essa incompetência impediu que muitas das tecnologias sequer fossem adotadas.

Consequentemente, com menos tecnologia adotada, houve menor demanda por mão-de-obra mais qualificada, o que redundou em salários menores do que poderiam ser.

Tudo isso, repetindo, na Europa.

Mas não é desarrazoado imaginar causas semelhantes no Brasil.

Podemos até mesmo ir um pouco além e concluir que, no final, todos os elementos listados acima apontam para um mesmo problema comum. Mais especificamente: a baixa acumulação de capital, o mau uso da tecnologia disponível, o baixo progresso técnico, o mau gerenciamento das empresas, e o baixo nível técnico da mão-de-obra decorrem de uma causa maior: a estrutura regulatória e protecionista do país protege as grandes empresas da concorrência externa e impede (por meio das regulações anti-truste) que as mais ineficientes sejam adquiridas pelas mais eficientes e com melhor qualidade administrativa.

Estando blindadas da concorrência externa e não podendo ser adquiridas por outras empresas mais eficientes, não há realmente por que se importarem com produtividade. Não há grandes riscos.

Baixa produtividade significa crescimento econômico de má qualidade

Vale lembrar que a produtividade nada mais é do que o resultado de uma divisão. Divide-se o PIB (que, grosso modo, é o total de bens produzidos por uma economia) pelo número de trabalhadores, e assim se obtém quanto cada trabalhador produziu.

Logo, se a produtividade ficou estagnada, então tem-se a obviedade matemática de que o PIB foi conduzido majoritariamente pelo aumento da mão-de-obra (o famoso “bônus demográfico”).

Ou seja, a economia cresceu simplesmente porque mais pessoas entraram no mercado de trabalho. Mais pessoas trabalhando e produzindo gerou um inevitável aumento dos bens e serviços produzidos (óbvio), e daí o PIB cresceu.

Mas isso é um crescimento “inercial”. Não é um crescimento duradouro. É o tipo de crescimento que tende a estagnar tão logo o número de pessoas entrando no mercado de trabalho pare de crescer.

E aí começa o verdadeiro problema.

Segundo a teoria neoclássica, se um país adota novas tecnologias que aprimorem a produtividade de sua mão-de-obra, haverá desenvolvimento econômico. Essas novas tecnologias normalmente são criadas pelos países ricos; ao passo que o criador dessas novas tecnologias irá auferir lucros extraordinários no curto prazo, todos irão ganhar ao adotarem essa tecnologia no longo prazo.

Isso significa que economias em desenvolvimento deveriam ser capazes de se aproximar mais das nações desenvolvidas tão logo adotassem essas novas tecnologias. Consequentemente, os mercados emergentes de hoje deveriam estar mais ricos do que as economias avançadas estavam antes da criação dessas tecnologias.

E, como mostram os dados acima, isso não ocorreu. As tecnologias estão disponíveis para os países mais pobres, mas elas não geraram maior crescimento econômico. Como a produtividade se manteve (ou até mesmo caiu), isso significa que o crescimento econômico nos países mais pobres foi gerado pelo aumento da mão-de-obra, e não por novas descobertas.

Por que foi assim? Por que a adoção de novas tecnologias gerou crescimento econômico nos países mais ricos e não nos mais pobres?

O professor Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard, já abordou este problema. Ele se apoiou na mesma tese de Friedrich Hayek: segundo ele, trata-se de um problema de conhecimento.

Friedrich Hayek argumentou em seu ensaio O Uso do Conhecimento na Sociedade que o conhecimento necessário para o avanço econômico é fundamentalmente subjetivo e está disperso por toda a sociedade. Seria impossível, por exemplo, condensá-lo e transmiti-lo por completo.

Ou seja, a natureza tácita do conhecimento faz com que seja extremamente difícil transmitir corretamente, para os países pobres, todas as coisas que foram aprendidas pelos países ricos no passado. Assim como ninguém aprende a andar de bicicleta apenas lendo um livro de física, o verdadeiro conhecimento também só é absorvido quando colocado em prática, pelo método da tentativa e erro.

Portanto, segundo esta teoria, o conhecimento necessário para o desenvolvimento econômico não está mastigado e pronto para ser aplicado, como uma receita de bolo, em países que até então desconheciam esses conhecimentos. O real desafio de um país em desenvolvimento é descobrir quais são os melhores métodos a ser aplicados em sua economia. Deve-se levar em conta o conhecimento específico da população desse país e, após um longo (e talvez doloroso) processo de tentativa e erro, determinar o que funciona melhor.

A tese, em si, é irrefutável. Mas também não explica tudo. Pode-se igualmente pontificar aqui sobre todos aqueles itens citados na seção anterior (imediatamente abaixo do gráfico), bem como as incertezas geradas pelos respectivos regimes políticos, ou mesmo sobre as décadas de desastre monetário geradas pelos bancos centrais desses países. Tudo isso certamente será válido. Mas ainda incompleto.

A causa principal do atraso dos países pobres é outra.

Para prosperar, tem de arriscar

A realidade é que, no final, todo e qualquer crescimento econômico decorre de uma só atitude: a assunção de riscos.

É sempre necessário haver um grupo de indivíduos dispostos a colocar seu capital e patrimônio em risco, visando a implantar uma nova idéia ou um novo projeto, com o objetivo de auferir altos retornos financeiros caso o risco incorrido se comprove acertado — isto é, caso eles saibam satisfazer os desejos dos consumidores.

É assim que ocorre o crescimento econômico: indivíduos assumindo riscos ao investirem o capital próprio (ou emprestado por terceiros) em uma idéia, a qual eles esperam irá agradar terceiros (consumidores) que voluntariamente irão pagar por ela.

Não há crescimento econômico sem a tomada de risco. Não há prosperidade sem indivíduos assumindo riscos em investimentos incertos.

Nem todos os riscos assumidos produzem crescimento (sempre há os investimentos mal sucedidos), mas se houver uma grande quantidade de assunção de riscos, o crescimento ocorrerá.

O que nos leva às seguintes obviedades:

  • Se os riscos necessários para se alcançar o crescimento forem diminuídos, mais crescimento ocorrerá.
  • Se as incertezas (políticas, jurídicas, regulatórias, monetárias e fiscais) forem reduzidas, mais risco será tomado, e mais crescimento ocorrerá.
  • Se as recompensas para aqueles riscos que se comprovarem bem-sucedidos aumentarem (por exemplo, uma redução dos impostos sobre os lucros e ganhos de capital), mais crescimento ocorrerá.
  • Se o custo de se assumir riscos diminuir (redução da burocracia e dos encargos sociais e trabalhistas), mais riscos serão assumidos e mais crescimento ocorrerá.

De novo: todo e qualquer crescimento econômico decorre da assunção de riscos (investimentos arriscados em projetos incertos). E o impulso humano, em todo e qualquer lugar do mundo, sempre foi o de avançar assumindo riscos que tragam recompensas condizentes (pois isso é o que melhora seu bem-estar).

Se o arranjo governamental vigente desestimula a assunção de riscos e, pior ainda, pune os mais bem-sucedidos, então é óbvio que não haverá muita assunção de risco. E aí não haverá crescimento econômico duradouro.

Se as barreiras à assunção de risco não forem reduzidas, ou se a recompensa pela assunção de riscos não for aumentada, não há como aumentar a taxa de crescimento da economia.

É realmente simples assim.

Os corajosos foram mais recompensados nos países ricos

Por mais cruciais que sejam os debates sobre produtividade, uso da tecnologia e uso do conhecimento disperso na sociedade, a realidade incontornável é que nada disso terá qualquer serventia se não houver um grupo de indivíduos dispostos a incorrer em riscos para empreender.

Sem a tomada de risco por parte de empreendedores, não há crescimento econômico substantivo.

Daí a importância de se criar um arranjo institucional que não crie barreiras ao empreendedorismo e à tomada de risco.

E, no final, é aí que está a reposta para as diferenças entre os países ricos e os países pobres: o ambiente empreendedorial.

Os países ricos são aqueles em que houve mais assunção de risco. E houve mais assunção de risco porque havia menos incertezas institucionais e menores punições para os bem-sucedidos (vide o fato de que, mesmo nos países escandinavos, o imposto de renda sobre pessoas jurídicas está entre os mais baixos do mundo).

Por isso, sim, acumular capital e fomentar a adoção de novas tecnologias (via abolição de tarifas de importação) são medidas cruciais. Porém, serão inócuas se não houver pessoas dispostas a incorrer em riscos para transformar idéias em coisas concretas. Sem pessoas tomando risco, não haverá crescimento econômico.

Consequentemente, o que é realmente crucial é abolir as barreiras que impedem estas pessoas tomadoras de risco (empreendedores) de atuar. Daí a importância de reformas estruturais que visem não apenas a aumentar a produtividade (e, consequentemente, o padrão de vida), mas também aumentar os incentivos à tomada de risco.

E isso envolve não apenas obviedades como flexibilizar o mercado de trabalho e o mercado de energia, reduzir burocracias, impostos e regulações, e permitir maior dinâmica concorrencial entre as empresas (para que as eficientes possam crescer e as ineficientes serem absorvidas ou desaparecerem), como também estabilidade monetária, fiscal e institucional: a certeza de que a moeda não será dilapidada (pois a recompensa do sucesso viria em uma moeda sem poder de compra), a certeza de que impostos futuros não serão aumentados (pois impostos maiores no futuro, além de serem um custo artificial, equivalem a punir os mais bem-sucedidos) e a certeza de que o arcabouço econômico e jurídico não será alterado.

Qualquer incerteza em qualquer um destes itens — e observe que todos estão ligados à política — já diminui os incentivos para a tomada de risco. Consequentemente, aniquilam qualquer perspectiva de crescimento econômico.

E, historicamente, os países mais pobres sempre foram aqueles que criaram mais incertezas no ambiente empreendedorial (afugentando os tomadores de risco). Com efeito, são pobres exatamente em decorrência disso.

Concluindo

No final, é realmente básico: para haver crescimento econômico é necessário haver pessoas com uma genuína mentalidade empreendedorial dispostas a incorrer em riscos para transformar idéias em coisas concretas. E tais pessoas só são abundantes em ambientes que lhes permitam atuar e, principalmente, usufruir as eventuais recompensas pelos riscos que assumiram.

Logo, as barreiras à atuação destas pessoas devem ser removidas ao máximo. Caso contrário, qualquer eventual acumulação de capital e adoção de novas tecnologias serão apenas perda de tempo e desperdício de recursos. Sem pessoas tomando risco, nada sai do lugar. E para haver tais pessoas, é necessário abolir as barreiras à sua atuação.

Foi isso o que historicamente fizeram os países ricos. E não foi isso o que historicamente fizeram os países pobres.

autor
Anthony P. Geller
é formado em economia pela Universidade de Illinois, possui mestrado pela Columbia University em Nova York e é Chartered Financial Analyst credenciado pelo CFA Institute.
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ECONOMIA: NUNCA FOMOS TÃO PRÓSPEROS EM TODA A HISTÓRIA DA HUMANIDADE QUANTO AGORA

texto

Os horrores da fome ao longo da história ensinam: jamais tome sua prosperidade como algo garantido

O grande infortúnio da prosperidade é esquecermos de como nos tornamos prósperos.

terça-feira, 8 set 2020

 

A adoção do capitalismo e o livre mercado permitiu que o Ocidente embarcasse em um período de crescimento econômico sem precedentes, o que fez com que o padrão de vida das populações ocidentais aumentasse continuamente, ano após ano.

Frequentemente, nós nos esquecemos de que bens e serviços que hoje consideramos triviais e rotineiros não eram usufruídos nem mesmo pelos mais ricos do mundo 100 anos atrás.

John D. Rockefeller foi um dos homens mais ricos da história, provavelmente o mais rico de toda a história. Seu patrimônio líquido ajustado pela inflação, embora varie de acordo com a fonte, seria o equivalente a várias centenas de bilhões de dólares. No entanto, John D. Rockefeller nunca, em toda a sua vida, teve um telefone celular. E foi somente no fim de sua vida, na década de 1930, que a televisão surgiu — e, obviamente, era de uma qualidade vastamente inferior às TVs que os pobres usufruem hoje.

A internet mudou completamente o nosso mundo, mas o pobre Rockefeller nunca, em toda a sua vida, pôde utilizar um aplicativo de enviar mensagens instantâneas para conversas com amigos e família. Rockefeller nem sequer podia ouvir a música que quisesse na hora em que quisesse. Ele não tinha acesso gratuito e instantâneo às últimas notícias do mundo.  A medicina era horrível para os padrões de hoje. Antibióticos ainda não estavam disponíveis. Serviços odontológicos eram extremamente dolorosos (a escova de dentes como conhecemos só surgiu em 1938).

Você mesmo provavelmente possui vários itens e coisas de luxo que não existiam na época dele (Rockefeller morreu em 1936). Até mesmo seu acesso a culinárias amplas e diversificados é muito mais amplo e imediato que era o de Rockefeller (veja mais detalhes aqui).

Com efeito, e retrocedendo ainda mais, o mundo no qual vivemos hoje é irreconhecível quando comparado ao mundo de 1800. Praticamente nada permaneceu igual. Esta evolução foi resultado de uma taxa de crescimento contínua de 2,5% ao ano, de 1800 a 1930, e de 2% ao ano desde 1950.  O gráfico abaixo, do site Our World in Data, mostra essa evolução do PIB mundial.

Tamanha geração de riqueza significa que algumas coisas deixam de ser um problema. Crises existenciais que ameaçavam a sobrevivência do homem centenas de anos atrás são hoje desconhecidas para a maior parte do mundo desenvolvido.

Um desses esquecidos horrores são as mortes em massa por inanição. Durante uma crise de fome generalizada, não é apenas você que não tem comida; seus vizinhos e amigos também passam pela mesma privação. Populações perecem.

Nesta situação, as plantações estão vazias. Os campos estão vazios. Os pastos estão vazios. Os silos estão vazios. Os mercados estão vazios. Os estômagos estão vazios. Esta situação persistia por vários meses seguidos, até que mais comida começasse a surgir novamente nas colheitas. Até então, tudo vazio.

Exemplos documentados

Cornelius Walford escreveu um livro em 1879 intitulado The Famines of the World (As Mortes por Fome no Mundo). O livro oferece um breve, porém angustiante e perturbador vislumbre sobre como era esse passado.

O início do livro fornece uma lista de todas as grandes inanições documentadas antes da publicação do livro, começando ainda 1708 a.C. Uma breve descrição é fornecida em cada verbete da lista de inanições.

Um registro inicial afirma: “ano 436… Fome: Milhares se jogaram no rio Tibre”. A maioria dos verbetes iniciais não traz grandes detalhamentos, o que é compreensível, dado que àquela época as informações eram bastante limitadas. Porém, tão logo você chega à Idade Média, os detalhes começam a surgir.

Eis alguns destaques:

  • Irlanda 963-64: Uma fome generalizada tão intolerável, “que os pais tiveram de vender seus filhos em troca de comida”.
  • Inglaterra 1073: Fome em massa, seguida por uma mortandade tão violenta, que os vivos não conseguiam cuidar dos doentes, e nem enterrar os mortos.
  • Irlanda 1586: “Há relatos de que carne humana virou alimento”.

Esta não é a única referência ao canibalismo, lamentavelmente. Tal ato é relatado em vários outros verbetes.

Este é provavelmente um dos livros mais depressivos que você lerá. Mas serve como um crucial lembrete e uma valiosa advertência.

Escolhi apenas alguns exemplos acima, mas há centenas de episódios listados por Walford. O grande número de exemplos é perfeitamente compreensível. Durante séculos, antes do capitalismo, bastava uma única colheita ruim para efetivamente arruinar uma sociedade por vários anos.

O conforto que damos como garantido

Para nossa mente moderna, acostumada aos mais corriqueiros e onipresentes confortos da atualidade, é difícil imaginar que houve um passado em que bastava haver uma colheita ruim para ter toda a sua vida destruída. No nosso mundo atual, a comida simplesmente está ali. Com a exceção de alguns eventos ocasionais e totalmente pontuais e efêmeros — como um desastre natural que provoca uma corrida aos supermercados e gera um desabastecimento das prateleiras —, nós nunca sequer pensamos na hipótese de que não existirá comida no dia seguinte.

Mesmo em meio à pandemia de Covid-19, com várias indústrias fechadas e várias cadeias de suprimento sendo interrompidas, nunca houve desabastecimento generalizado. Pode até haver aumento de preços (os quais têm uma função crucial), mas não houve desabastecimento. Isso é uma façanha para a qual ainda não demos a devida gratidão.

Para falar o óbvio, algo mudou fundamentalmente desde antigamente até hoje. Como foi que nos libertamos da realidade daquele passado narrado por Walford e chegamos a essa nossa atual realidade de conforto (inimaginável até mesmo para o maior dos magnatas do início do século XX)?

Obviamente, temos mais comida hoje do que havia no passado. Será que estamos simplesmente plantando mais alimentos? Sim, mas a resposta é muito mais complicada do que isso. Em nossa era moderna, e ao contrário daquela época, temos todos os tipos de transporte, temos tecnologias que beiram o inacreditável, temos máquinas e equipamentos capazes de sustentar um vasto número de pessoas, e temos infraestrutura moderna.

Não apenas para o processo de plantar e cultivar alimentos, mas também para empacotar, transportar, preservar e para tudo o mais que ocorre entre a colheita e a prateleira dos supermercados — são toda esta infraestrutura e todos estes equipamentos modernos que nos fornecem a capacidade de produzir e disponibilizar vastas quantias de comida.

Isso significa que a solução para a fome seria apenas ter melhores tecnologias? Afinal, vivemos em uma era de milagres tecnológicos. Podemos hoje fazer coisas que pareciam impossível há cem anos. Por que então a tecnologia não pode simplesmente nos dar mais comida? Porque a tecnologia, por si só, é uma resposta fundamentalmente vazia para essa questão.

A tecnologia em sua forma mais pura — o conhecimento — é apenas algo teórico. Ter uma planta para construir uma casa não faz com que a casa surja. É preciso ter os materiais e equipamentos necessários para construir a casa. Um aumento na quantidade de materiais é o que é realmente necessário para ajudar a aumentar a riqueza real.

E como isso ocorre?

As causas de tudo

O que é necessário é aquilo que os economistas chamam de capital. Capital é tudo aquilo utilizado na produção para ajudar a aumentar a produtividade do trabalho. Ter um martelo certamente aumenta a sua produtividade em bater pregos na madeira. A serra elétrica aumenta a produção em relação a um serrote ou a um machado. Um trator multiplica enormemente a produção agrícola em relação a uma enxada. O uso de máquinas e equipamentos modernos multiplica enormemente a produtividade dos trabalhadores.

A mágica do capital é que, com a mesma quantidade de mão-de-obra (ou de horas de trabalho individual), eu posso ser mais eficiente. Isso significa que com a mesma quantidade de trabalho eu consigo produzir mais bens.

O capital é acumulado pelo ato de poupar, isto é, abster-se do consumo. Uma sociedade que trabalha, produz e se abstém do consumo permite que os recursos criados e não consumidos sejam utilizados na construção de bens de capital que irão tornar o trabalho humano mais produtivo. Os recursos não-consumidos se tornam insumos para a construção de moradias, fábricas, infraestruturas, meios de transporte, maquinários, escritórios e imóveis comerciais, laboratórios, cientistas, arquitetos, universidades etc.

Inversamente, uma sociedade que consome 100% do que produz não possui um único bem de capital. Nesta sociedade não haveria moradias, fábricas, infraestruturas, meios de transporte, maquinários, escritórios e imóveis comerciais, laboratórios, cientistas, arquitetos, universidades etc. Todos os indivíduos estariam permanentemente ocupados (trabalhando duro) produzindo bens de consumo básicos — comidas e vestes — e não dedicariam nem um segundo para a produção de bens de capital, que são investimentos de longo prazo que geram bens futuros.

É a poupança, é o não desejo de consumir tudo, o que permite direcionar esforços para satisfazer não os desejos mais imediatos, mas sim as necessidades futuras. Com a poupança, são produzidos bens de capital que irão, por sua vez, fabricar os bens de consumo que serão demandados no futuro.

E por que não estava havendo acumulação de capital no passado? Certamente havia alguma acumulação, mas o processo de se construir e acumular cada vez mais capital era frequentemente frustrado pela ausência de algo crucial: direitos de propriedade.

Se eu gastar tempo e energia criando mais capital, mas este for confiscado ou destruído porque não há respeito aos direitos de propriedade, por que então se dar ao trabalho? Por que eu iria incorrer em todo esse esforço se eu nem sequer poderei usufruir os benefícios de minha maior produtividade?

É apenas quando os direitos de propriedade são firmemente estabelecidos que o capital pode começar a se acumular. O liberalismo clássico tornou-se predominante no fim do século XVIII e no XIX, gerando robustos direitos de propriedade e políticas laissez-faire. Previsivelmente, isso levou a um aumento nos estoques de capital, e a um crescente aumento no padrão de vida.

Este aumento sem precedentes no padrão de vida é frequentemente rotulado de “Revolução Industrial“.

É apenas quando se entende isso, que é possível entender por que não era possível ter “direitos trabalhistas”, férias remuneradas, trabalhar 6 horas por dia naquela época e ainda assim viver bem. Era simplesmente impossível ter nos séculos XVIII e XIX a qualidade de vida que usufruímos hoje no século XXI, a mesma renda e a mesma segurança no trabalho. É necessário levar em contra toda a acumulação de capital que ocorreu neste intervalo de tempo.

Naquela época, não havia a mesma acumulação de capital que temos hoje. A produtividade era menor, os investimentos eram menores, a quantidade e a variedade de bens e serviços eram menores. Assim como o respeito à propriedade privada.

Para concluir

As riquezas que usufruímos hoje não são permanentes. Elas não podem ser tidas como algo natural e garantido.

Caso venha a ocorrer uma regressão nos direitos de propriedade, iremos lentamente começar a regressar à vida de nossos antepassados.

O grande infortúnio de sermos economicamente próspero é que o conforto, a segurança e a certeza nos fazem esquecer de como nos tornamos prósperos.

A acumulação de capital sob um arranjo de respeito aos direitos de propriedade nos deu tudo o que temos hoje. Sem este arranjo, ainda estásimo vivendo naquela realidade do passado: inanição, doenças e com o espectro da morte apenas algumas horas à frente.

Jamais tome a sua prosperidade como algo garantido. Tudo pode mudar com apenas uma má escolha política, econômica ou filosófica (vide a Venezuela atual atual e todos os regimes socialistas do passado). Se houver uma inanição nas ideias econômicas, a inanição em nossos campos poderá voltar a ser uma realidade.

autor
JW Rich
é bacharel em economia pela Universidade de Charlotte, Carolina do Norte. Seus interesses são economia, história do pensamento econômico e filosofia.
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ECONOMIA: A NOVA CÉDULA DE R$ 200 É APENAS UMA CORTINA DE FUMAÇA PARA ENCOBRIR O VERDADEIRO PROBLEMA

Nesta edição da coluna ECONOMIA trago um artigo atualizadíssimo sobre a nova cédula de R$ 200, onde o autor ressalta que o objetivo do lançamento dessa cédula é lançar uma cortina de fumaça para distrair o público sobre algo muito mais relevante, que é o tamanho do estado, ou seja, a incompetência do governo para enxugar a máquina pública. Este que é o verdadeiro problema. Então lhe convido a ler o artigo completo a seguir para entender, através de dados técnicos e gráficos o que realmente está acontecendo com a nossa economia!

A cédula de R$ 200 não é o problema; a inflação é (com dados atualizados)

A chegada do lobo-guará está distraindo o público do verdadeiro problema: o tamanho do estado

Nota do Editor

Já está acontecendo.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) afirmou em nota que o setor tem sofrido “forte pressão” por aumentos de preços de itens da cesta básica.

Os preços dos alimentos cobrados pelos produtores estão em forte ascensão, e os supermercados estão segurando ao máximo este repasse de preços.

Em uma ação inédita, as varejistas passaram a expor publicamente a indústria de alimentos em redes sociais, numa estratégia para tentar evitar a percepção de ser o “vilão” dos aumentos.

A maior pressão está em itens como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja “com aumentos significativos”.

Eis um trecho da nota divulgadas pela Abras:

O setor supermercadista tem sofrido forte pressão de aumento nos preços de forma generalizada repassados pelas indústrias e fornecedores. Itens como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja com aumentos significativos.

Conforme apuramos, isso se deve ao aumento das exportações destes produtos e sua matéria-prima e a diminuição das importações desses itens, motivadas pela mudança na taxa de câmbio que provocou a valorização do dólar frente ao real.

Somando-se a isso a política fiscal de incentivo às exportações, e o crescimento da demanda interna impulsionado pelo auxílio emergencial do governo federal.

Reconhecemos o importante papel que o setor agrícola e suas exportações têm desempenhado na economia brasileira. Mas alertamos para o desequilíbrio entre a oferta e a demanda no mercado interno para evitar transtornos no abastecimento da população, principalmente em momento de pandemia do novo coronavírus (covid-19).

O setor supermercadista tem se esforçado para manter os preços normalizados e vem garantindo o abastecimento regular desde o início da pandemia nas 90 mil lojas de todo o país.

Como consequência, hoje, dia 4 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro pediu “patriotismo” aos donos de supermercado e que baixassem os preços.

O presidente errou completamente alvo (inaceitável para quem serviu no Grupo de Artilharia). O inimigo está ao lado dele.

Para quem acompanha este Instituto, nada disso é surpresa. A alta está sendo causada por aquele exato fenômeno que sempre foi por nós alertado: a política monetária insensata (e, nos últimos meses, insana) praticada pelo Banco Central, a qual causou uma brutal desvalorização da moeda e, consequentemente, incentivou os produtores de alimentos a mandarem boa parte da sua produção para o exterior.

Segundo a reportagem do jornal Valor Econômico, os produtores de alimentos “alegam que se trata de reajustes por conta de oferta e demanda, portanto, práticas naturais de mercado […]. Ainda, afirmam que a escalada do dólar, que eleva o preço global dos alimentos, ocorre em todos os mercados, e as empresas têm que se adequar a isso.”

A Abras está em seu direito de reclamar do aumento dos preços cobrados pelos produtores de alimentos. Mas os produtores estão corretos em sua atitude de reajustar preços. Eles estão apenas se adequando às condições monetárias do mercado. A real culpa está em quem gerencia a moeda, e não em quem produz.

Ademais, os aumentos de preços não estão apenas no setor alimentício. O setor de metais industriais também tem batido recordes, assim com todos os itens da construção civil.

O artigo abaixo já alertava que isso aconteceria. À época em que ele foi publicado, a mídia noticiava apenas a cédula de R$ 200, sem analisar as reais causas do surgimento dela. Só agora começaram a se atentar para o fato. Por isso, estamos republicando o artigo, agora com os dados atualizados.

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Enxadristas utilizam costumeiramente a manobra de diversionismo, cujo propósito é “distrair” o adversário e induzi-lo a desguarnecer uma casa vital para o desenrolar do jogo. Apresenta-se como ameaça imediata, mas muitas vezes revela-se inócua.

Na política e na comunicação institucional, é equivalente ao ‘factoide’.

Não é um fato determinante em si, mas parece. Muitas vezes os factoides são lançados por políticos, tal qual um balão de ensaio, com o mesmo objetivo da manobra de diversionismo no xadrez.

Outras vezes são autogestados por uma percepção pública equivocada.

Este último é o caso da vindoura cédula de R$ 200, que estampará a imagem do lobo-guará. Tão logo foi anunciada, a medida foi tachada pelos críticos do governo como prenúncio de futura inflação. Isso é falso.

Na realidade, confundiu-se causa e consequência.

A nova cédula é apenas consequência do que já ocorreu

A inflação de preços chegou antes do lobo-guará.

O índice de preços ao produtor amplo (IPA) — que mede essencialmente a variação dos preços dos produtos agropecuários e industriais nas transações interempresariais, ou seja, nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final— subiu 3,75% apenas no mês de agosto. E isso após ter subido 3,14% em julho.

Eis um gráfico da evolução dos preços mensais:

IPA-M.png

Gráfico 1: IPA mensal

Perceba que o atual valor mensal é o maior desde 2003.

No acumulado de 12 meses, a alta é de impressionantes 18,15%, como mostra o gráfico a seguir, que está no formato de média móvel de 12 meses (o valor na coluna da esquerda se refere a valores mensais; para saber o valor acumulado a cada 12 meses, basta elevar o valor da coluna da esquerda ao expoente 12. Assim, o atual valor de 1,4 significa uma inflação de preços de 18,15% em 12 meses (1,0112ˆ12).

IPAmediamovel.png

Gráfico 2: evolução mensal do IPA (média móvel acumulada em 12 meses)

O IPA é um dos componentes do IGP-M, que é o índice que serve usualmente como indexador de reajuste de aluguéis, dos planos de saúde, da mensalidade de escolas, de energia elétrica e de telefonia.

O IGP-M, por sua vez, apura preços de cerca de 1.400 itens, ante 350 apurados no IPCA, que é o índice oficial utilizado pelo Banco Central para balizar sua política monetária.

Em janeiro, o mercado estimava um IGP-M de 4,3% para todo o ano 2020. No entanto, de janeiro até julho, o IGP-M já apresenta alta de 6,7%.

Quando olhamos exclusivamente os produtos agrícolas, é possível constatar que a carestia está se acelerando fortemente. O gráfico a seguir mostra a média móvel acumulada em 12 meses da evolução do índice de preços dos produtos agrícolas no atacado. No acumulado de 12 meses, a alta de preços foi de 28%.

IPAOG.png

Gráfico 3: taxa de variação de preços dos produtos agrícolas no atacado (média móvel acumulada em 12 meses).

Mas não são só os produtos agrícolas. Os metais industriais também estão apresentando uma forte aceleração de preços. O gráfico a seguir mostra a evolução desses preços.

Metais.png

 Gráfico 4: evolução dos preços do metais industriais

Causas

As causas dessa carestia são basicamente duas.

1) A forte desvalorização cambial vivenciada pelo real perante o dólar (que saltou de R$ 4,02 no fim de 2019 para os atuais R$ 5,30) não só encareceu diretamente a importação de insumos industriais, como também estimulou enormemente a exportação de alimentos (ver também aqui). Quanto mais exportação de alimentos, menor a oferta no mercado interno.

2) A vigorosa criação de moeda feita tanto pelo governo brasileiro quanto pelos governos ao redor do mundo, como forma de tentar combater os efeitos recessiva da pandemia de Covid-19, está estimulando a demanda.

O gráfico a seguir mostra a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil.

M1.png

Gráfico 5: evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil até junho de 2020

Um aumento de quase 50% na quantidade de moeda em apenas 12 meses. É inflação de gente grande. É inflação de Argentina. Mas a cédula de R$ 200 é quem figura proeminente no noticiário.

Distrações

O público, distraído, permanece com foco no IPCA. Meta oficial de inflação há décadas, deixou de ser um bom medidor da carestia sofrida pelo brasileiro comum, ao ser manipulado por desonerações e outros truques. O exemplo clássico ainda é o do governo Dilma: de 2012 a 2014, o IPCA se manteve artificialmente baixo por causa do congelamento do preço da gasolina e por reduções artificiais de até 25% no preço da energia elétrica.

Analistas apontaram nos últimos dias que R$ 100 no início do Plano Real compravam 100 dólares e hoje compram apenas 19 dólares, e que a cesta básica em São Paulo custava R$ 68 em 1994, ante mais de R$ 550 hoje (o que é um fato). (O grama do ouro custava 12 reais e hoje custa 330 reais; e, de acordo com o IPCA acumulado, algo que custava 100 reais custa hoje 621 reais)

Porém, poucos mencionaram o aumento brutal da moeda em circulação (gráfico 5) promovido pelo Banco Central, o qual se intensificou ainda mais a partir de março, quando a oferta monetária passou de R$ 410 bilhões em fevereiro para R$ 550 bilhões em julho, aumento superior a 30%.

auxílio emergencial contribuiu para essa recente disparada, bem como o entesouramento — em épocas de enorme incerteza econômica, como a atual, as pessoas preferem ter em mãos moeda em espécie.

Com a demanda crescente por moeda durante a pandemia acompanhando a oferta, é natural que a inflação de preços ao consumidor leve um tempo para se manifestar de forma mais vigorosa no índice agregado de preços (IPCA).

A queda nos preços da gasolina (por causa da forte queda no barril de petróleo), da energia elétrica (por causa da redução do consumo das empresa e de desonerações dos governos estaduais) e das mensalidades escolares também está ajudando enormemente a segurar o IPCA.

No entanto, isso pode mudar rapidamente assim que a demanda por moeda volte aos níveis normais. E os preços dos alimentos — setor no qual não houve contenção do consumo — são um bom indicativo.

O lobo-guará é uma mera consequência

O problema, já está claro, não está nas novas cédulas de R$ 200. Estas são apenas consequência da expansão monetária, que já está em curso antes mesmo delas. A inflação de preços derivada dessa expansão monetária é um imposto invisível, que pune particularmente os mais pobres.

saudoso Joelmir Beting dizia que “a economia, ciência severa da escassez, enquadra a política, utopia alegre da abundância”. Infelizmente, a política populista atual prevalece sobre o conhecimento econômico.

A chegada do lobo-guará está distraindo a opinião pública do verdadeiro problema: os gastos do estado.

Toda a expansão monetária está sendo feita exatamente para possibilitar a manutenção dos gastos do estado, os quais agora foram inchados pelo Orçamento de Guerra criado para combater os efeitos da Covid-19.

A subida dos índices de preço enfatiza a urgência do controle de gastos públicos, mesmo diante de todas as dificuldades causadas pela pandemia. Sim, a causa fundamental de toda essa expansão monetária é o tamanho dos gastos públicos. Não se trata, obviamente, de reduzir o apoio aos mais necessitados, mas de acelerar as privatizações, a reforma administrativa e o enxugamento da máquina. É preciso cortar desde já as duas rubricas que representam cerca de 80% do total: salários dos servidores e aposentadorias de forma geral.

O leitor pode se perguntar: “A inflação está aumentando ou é impressão minha?”. Atenção ao factoide diversionista: a impressão é do BC mesmo.

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: O CÁLCULO DO PIB COMO É FEITO LEVA A ADOÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS INSENSATAS E DESTRUTIVAS

Nesta terça-feira o governo divulgou o PIB do último trimestre que caiu 9,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mas isso não significa que a economia está desaquecida ou em queda livre. Isso acontece porque a metodologia aplicada no cálculo do PIB mensura o trivial e ignora completamente o essencial, através de políticas públicas completamente erradas e, por isso mesmo, destrutivas. O artigo a seguir aborda tudo que o cálculo do PIB não mostra. Então não deixe de ler para entender como somos enganados!

Eis o grande problema com o PIB: ele mensura o trivial e ignora completamente o essencial

E isso leva à adoção de políticas insensatas e destrutivas

 

Dado que a pandemia de Covid-19 está levando a uma reavaliação das instituições e dos métodos operacionais ao redor do mundo, tem-se aí uma ótima oportunidade para reorientarmos nosso pensamento econômico, de modo que ele passe a corresponder mais corretamente às realidades da economia moderna.

E isso começa por abandonarmos a mensuração tradicional que se faz do PIB.

O Produto Interno Bruto é um anacronismo. Olhar a variação do PIB como indicativo da saúde da economia (que é o que, na prática, fazem os economistas, a mídia e os governos) faz tanto sentido quanto olhar para o número de calorias ingeridas por uma pessoa e daí determinar a sua saúde.

O PIB é simplesmente o valor monetário de todos os bens e serviços finais que foram comprados e vendidos dentro das fronteiras do país em um dado ano.

Apenas para relembrar, o PIB de um país é calculado por meio da seguinte (e extremamente simples) equação:

PIB = C + I + G + X – M

C representa os gastos do setor privado, I representa o total de investimentos realizados na economia, G representa os gastos do governo, X é o total de exportações e M, o de importações.

Todos os problemas com esta equação do PIB já foram destrinchados neste artigo, de modo que não necessitam ser repetidos aqui. A abordagem será outra. Aqui, será abordado tudo que o cálculo do PIB não mostra.

Visível, mas não calculado

A mensuração do PIB foi introduzida nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. O intuito era mensurar a capacidade de produção da economia americana naquele período belicoso. Sua intenção inicial era exclusivamente essa. Sendo assim, ele até fazia algum sentido para aquele período. Hoje, não mais.

Hoje, ele inadvertidamente passou a ser visto como mensurador de bem-estar, de modo que todas as transações monetárias por ele calculadas passaram a ser vistas como sendo um progresso e uma contribuição para a saúde econômica do país.

Sendo um produto de meados do século XX, o PIB serve para analisar a capacidade e a saúde de uma economia industrializada e homogênea, composta de poucos bens e serviços intangíveis.

Falando mais diretamente, o PIB foi criado para contabilizar carros, geladeiras, tanques e munições, e não para contabilizar aulas de ioga, armazenamento de dados nas nuvens, conferências via Zoom, motoristas de Uber, e vídeos monetizados do YouTube.

É revelador que os atributos mais enfatizados do PIB são os de que ele é fácil de ser compilado e fácil de ser entendido: apenas some tudo. Quanto mais, melhor. Viu? É simples.

Os significativos defeitos na mensuração do PIB não apenas o tornam um indicador enganoso, como também levam a conclusões erradas sobre o que faz a economia pulsar. Tais erros, por sua vez, levaram a políticas públicas extremamente custosas e prejudiciais.

O enfoque está errado

Esse enfoque exclusivo nos produtos finais mascara a real situação da atividade econômica. Como bem sabe qualquer um que já leu o clássico artigo “Eu, o lápis“, de Leonard Read, o grosso da atividade econômica está muito abaixo da superfície do produto final que compramos nas prateleiras.

Os produtos finais são transformados ao longo de múltiplas camadas de etapas intermediárias, desde o seu início como matéria-prima até o produto efetivamente finalizado e pronto para o consumo final. Auxiliando no processo de transformação estão os bens de capital, a mão-de-obra, e os insumos complementares que são necessários para a concretização do produto final.

É aí que as principais falhas da metodologia do PIB são reveladas.

A falácia da “dupla contagem”

Para evitar aquilo que os economistas rotulam de “dupla contagem”, o PIB não contabiliza o gasto das empresas com investimentos em bens intermediários.

Bens intermediários são classificados como aqueles utilizados (e exauridos) na produção de um bem final. Por exemplo, o pão vendido na padaria é um bem final. Equipamentos como as tigelas de mistura e os fornos comprados pelo padeiro e utilizados para fabricar o pão também são considerados bens finais no cálculo do PIB, pois eles não são exauridos no processo de produção.

Em contraste, a farinha, o trigo e outros ingredientes produzidos e incluídos no pão são considerados bens intermediários. Como tais, o dinheiro gasto pelo padeiro nestes itens não são incluídos no PIB.

Similarmente, a transportadora que entregou a farinha para a padaria forneceu aquilo que é considerado um serviço intermediário, de modo que o dinheiro gasto neste transporte também é deixado de fora do PIB.

A explicação clássica para se evitar a “dupla contagem” dos bens intermediários no PIB é exemplificada pela alegação de que, se a venda de aço fosse acrescentada às vendas da Ford, o aço seria contabilizado duas vezes: uma quando foi vendido para a Ford, e a outra quando a Ford vende o veículo contendo esse aço.

Mas essa lógica é falaciosa, pois ela iguala o valor total dos bens intermediários com o valor que eles acrescentam ao preço final de um produto.

Voltando ao exemplo do pão, imagine este simples cenário:

  • Um fabricante de fertilizantes vende sementes de trigo para um agricultor por $1.
  • Esse agricultor, que planta trigo, vende seu trigo para o dono do moinho de trigo por $3.
  • O dono do moinho de trigo faz a moagem e a trituração do grão, transforma o trigo em farinha de trigo, e então vende a farinha para o padeiro por $5.
  • O padeiro processa essa farinha, faz o pão, e vende o pão ao consumidor final por $6

O preço final de venda do pão é $6, mas o dinheiro total gasto nos bens intermediários no processo é $9. Obviamente, o total gasto nos bens intermediários não está incluído no preço de venda final.

O que de fato está incluído no preço de venda é o valor agregado em cada fase pelos bens intermediários.

  • O valor agregado pelo fabricante de fertilizantes é $1.
  • O valor agregado pelo agricultor de trigo é $2 (ele vendeu o trigo por $3, mas gastou $1 no fertilizante).
  • O valor agregado pelo dono do moinho de trigo é $2 (ele vendeu a farinha de trigo por $5, mas gastou $3 no trigo).
  • O valor agregado pelo padeiro é $1 (ele vendeu o pão por $6, mas gastou $5 na farinha de trigo).

É o valor agregado o que está incluído no preço final das vendas. Já o volume de gastos nos bens intermediários é descartado pelo PIB.

Os gastos em investimento, e não os gastos em consumo, representam a maioria dos gastos da economia

Tão logo todo o gasto em bens intermediários é levado em conta, temos que os gastos em consumo representam apenas aproximadamente 30% da economia.

O economista Mark Skousen há muito vinha clamando pela necessidade de uma mensuração que ele chama de Produto Integral, a qual captura todos os gastos da economia. Em 2014, esta mensuração finalmente foi adotada pelo Departamento de Comércio dos EUA. Ela revela que a maior parte da atividade econômica envolve não os gastos em consumo de bens finais mas sim investimentos das empresas na produção destes bens.

Daí podemos concluir empiricamente aquilo que a teoria já explicava há muito tempo: não é o consumo o que impulsiona a economia. São os investimentos.

Outros três problemas fundamentais

Além deste grave problema matemático-econômico, há outros três problemas fundamentais em se utilizar o PIB como uma medida da saúde geral da economia.

O primeiro é a sua incapacidade de fazer distinções qualitativas. Isso foi ilustrado pela minha comparação inicial entre PIB e ingestão de calorias humanas. As distinções qualitativas que o PIB é incapaz de fazer podem ser separadas em duas: diferenças qualitativas entre coisas semelhantes e diferenças qualitativas entre coisas distintas.

Eis um exemplo:

  • Um laptop de hoje que custa $3.000.
  • Um laptop de quinze anos atrás que custava $3.000.

De acordo com a equação do PIB, ambos representam contribuições equivalentes à saúde da economia. No entanto, qualquer ser racional consegue entender a enorme diferença nas capacidades dos computadores em questão. Só que isso é completamente ignorado ao se utilizar a métrica do PIB.

O mesmo ocorre no caso a seguir, que ilustra a segunda das duas maneiras como o PIB é incapaz de considere distinções qualitativas:

De novo, qualquer ser racional consegue entender que estas duas coisas fazem contribuições qualitativamente distintas para a saúda econômica e pessoal do país. No entanto, e novamente, em termos de PIB, não há nenhuma distinção entre ambos.

O segundo problema em se utilizar o PIB como uma mensuração da saúde geral da economia é que ele não inclui nenhuma mensuração das perdas que a economia vivenciou ao longo do ano.

Houve furacões ou enchentes devastadoras? Tudo o que aparece na estatística do PIB é um aumento nos gastos com construção.

Três novos smartphones e um microchip muito mais rápido surgiram este ano? Você não encontrará a depreciação dos modelos anteriores na métrica do PIB.

A produção de energia termoelétrica aumentou? Uma indústria, ao produzir algum bem, consumiu recursos naturais até seu completo esgotamento? O custo da degradação ambiental não aparece no PIB. A violência levou a um aumento dos gastos com proteção individual (cercas elétricas, alarmes, câmeras internas)? O PIB sobe. Mas o efeito deletério da criminalidade não aparece.

Finalmente, o terceiro problema básico em se utilizar o PIB como mensurador da saúde geral da economia é que ele não contabiliza trabalho não-assalariado — isto é, o tempo gasto limpando a casa, cuidando das crianças ou cozinhando. Pague para alguém fazer isso e esse trabalho será incluído no PIB; faça você mesmo, e ele não será. Faz sentido?

E aqui vai um extra: se você vai para o seu trabalho caminhando em vez de dirigindo, isso é “ruim” para economia.

Esse exemplo, por si só, já mostra por que precisamos de ir para além da atual mensuração do PIB.

Para concluir

Basear-se na enganosa e falaciosa mensuração do PIB como indicador da saúde da economia faz com que políticos priorizem medidas destrutivas voltadas a objetivos errados.

O enfoque sempre será o de aumentar o consumo (o C da equação) via políticas de “estímulo”, aumentar os gastos governamentais, incentivar as exportações por meio de desvalorizações cambiais e restringir as importações por meio de tarifas protecionistas. Tudo em detrimento da poupança e do investimento privado. Isso irá apenas levar a um maior endividamento das pessoas e a uma exaustão da capacidade produtiva da economia.

Se ao menos a pandemia de Covid-19 levasse a uma reformulação do PIB…

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: NO 2º TRIMESTRE O AUXÍLIO EMERGENCIAL SEGUROU A QUEDA DO PIB QUE SERIA AINDA MAIOR

Por Marta Cavallini e Raphael Martins, G1

 

Com aumento do desemprego e queda de renda por conta da pandemia do novo coronavírus, o brasileiro foi obrigado a cortar gastos. A família de Hilderlania Alves, contudo, faz parte de um grupo que sentiu efeitos contrários: sua renda dobrou e permitiu a compra de roupas, calçados, produtos de limpeza e até adquirir pacote de dados de internet no celular.

Hilderlania Alves e sua mãe, Luciana Nunes, já receberam quatro parcelas do Auxílio — Foto: Arquivo pessoalHilderlania Alves e sua mãe, Luciana Nunes, já receberam quatro parcelas do Auxílio

O fenômeno tem nome e sobrenome: Auxílio Emergencial. Foi ele o principal responsável por recompor a renda perdida de 60 milhões de pequenos empresários, liberais e profissionais informais, e por dar gás para o consumo, principal motor da economia brasileira.

Até agora, o programa tem aprovadas 5 parcelas de R$ 600 para cada beneficiário (mães chefes de família recebem parcelas de R$ 1,2 mil). Outras 4 parcelas de R$ 300 foram anunciadas nesta terça-feira (1º) pelo presidente Jair Bolsonaro, e devem ser oficializadas por Medida Provisória.

Para economistas ouvidos pelo G1ainda que o benefício não tenha sido suficiente para reverter a queda de 9,7% do PIB neste segundo trimestre de 2020, o tombo seria bem maior se não houvesse a transferência de renda.

Cálculo feito pela MB Associados a pedido do G1 mostra que a queda do PIB neste trimestre sem o Auxílio Emergencial poderia chegar a 18,2%. Em suas previsões, a consultoria esperava uma queda de 11,7% no período – uma diferença, portanto, de 6,5 pontos percentuais. Segundo economistas, os auxílios do governo (que incluem também programas de estímulo como o Pronampe) fizeram o PIB brasileiro ter queda similar à de países desenvolvidos.

“Os programas de auxílio de renda ajudaram a manter certo padrão de consumo, especialmente das classes mais baixas de renda”, diz o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

“Se, em 2008, houve discussão sobre um uso mais agressivo de política monetária, dessa vez não havia alternativa a não ser o uso também agressivo da política fiscal”, afirma.

O caminho da recessão: como o Brasil chegou à queda histórica do PIB

Ainda que tenha amortecido a queda, o auxílio teve ação limitada no período pelo fechamento da economia. Abril ficou marcado como mês mais difícil da crise não só pela redução de renda, mas pelo impedimento da produção pelas medidas de isolamento social para combater a disseminação da Covid-19.

Mesmo em maio e junho, quando fábricas e lojas começaram uma lenta reabertura, os ganhos setoriais foram desbalanceados. Ganhos do varejo foram mais consistentes que indústria e serviços.

Principalmente no primeiro mês, mas também nos demais, a renda extra foi encaminhada para bens essenciais, como alimentos e farmácias, e parte extrapolou para pequenos reparos da casa, em materiais de construção, e renovação do ambiente doméstico, como eletrônicos e eletrodomésticos.

Sem uma ingerência maior do isolamento, a expectativa é de que os efeitos das injeções de recursos sobre o consumo fiquem mais claras no terceiro trimestre

Ganho real

Como mostrou reportagem do G1 em agosto, o auxílio aumentou a massa agregada de rendimentos do brasileiro em 2,1%, segundo cálculos da FGV, e evitou que mais de 30 milhões de pessoas caíssem para baixo da linha de pobreza e diminuiu índices de desigualdade.

Na prática, os efeitos se mostram no exemplo de Hilderlania Alves: a estudante de 27 anos viu sua qualidade de vida melhorar desde abril, quando os rendimentos da casa subiram de R$ 1,3 mil para R$ 2,5 mil por mês.

Bolsista de um curso pré-vestibular, Hilderlania mora com a mãe, Luciana, e o pai, Arcádio, em Iguatu, interior do Ceará. Luciana Nunes tem 50 anos, é dona de casa e agricultora. A família deixou de receber o Bolsa Família quando tiveram acesso à aposentadoria por invalidez do pai, Arcádio Bezerra, de 55 anos, há mais de quatro anos.

Cada uma recebe R$ 600 do auxílio e já tiveram depositadas quatro parcelas do benefício.

“Melhorou bastante a nossa vida em vários aspectos. Estamos pagando as contas em dia, como luz e gás, que antes era bem difícil de conseguir. E estamos conseguindo comprar produtos que antes seriam inviáveis, além de melhorar a variedade de alimentos”, diz Hilderlania.

A estudante conta que sua família deixou de depender da disponibilidade dos medicamentos em postos de saúde e colocou na cesta de compras produtos de beleza, como cremes e maquiagens. O dinheiro também foi usado para manter os estudos, com novos materiais escolares e o novo plano de internet móvel no celular.

“Nossa alimentação tinha basicamente carboidratos e proteínas de valor mais acessível como frango, ovos e carne moída. Agora, temos uma alimentação mais saudável, com carne de primeira, fígado, queijo, costela bovina, linguiças, peixes e vegetais”, afirma.

Ainda que o futuro do programa esteja incerto, a família de Hilderlania tem consciência de que o auxílio, no modelo atual, vai acabar. Em um esforço extra, fazem o possível para guardar ao menos 10% da renda repassada pelo governo.

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ECONOMIA: ENTENDA PORQUE O NOSSO PESADELO FISCAL E MONETÁRIO NÃO TEM FIM

Poucas vezes publiquei aqui na coluna ECONOMIA texto tão esclarecedor como o que estou publicando neste domingo do economista americano Anthony P. Geller, sobre expansão monetária e fiscal. Por isso convido você a ler o artigo completo a seguir e entender melhor o que está acontecendo com a nossa economia atualmente e quais as consequências dessa política!

Nosso pesadelo fiscal e monetário não tem fim – e agora em forma de bomba-relógio

Três gráficos para trazer você de volta ao mundo

O governo, por definição, não produz nada. Ele não tem recursos próprios para gastar. O governo só pode gastar aquilo que ele antes confiscou via tributação ou tomou emprestado via emissão de títulos do Tesouro. Ou então ele pode simplesmente criar moeda.

Todas essas três medidas geram consequências negativas para a economia.

A criação de moeda pode apenas fazer com que os preços dos bens e serviços subam no longo prazo, pois imprimir moeda não tem o poder de fazer com que surjam mais produtos na economia. A existência de mais papel-moeda ou dígitos eletrônicos não tem o poder milagroso de transformar recursos escassos em bens materiais. A moeda não é um meio de produção; ela não produz nem bens de consumo e nem bens de capital. Logo, aumentar a quantidade de moeda existente não causará uma maior produção de tratores, carros, computadores, máquinas, sapatos, tomates e pães. A moeda é simplesmente um meio de troca que facilita as transações.

Ao tributar, o governo toma aquele dinheiro que poderia ser usado para investimentos das empresas ou para o consumo das famílias, e desperdiça esse dinheiro na manutenção da sua burocracia. A tributação nada mais é do que uma destruição direta de riquezas. Parte daquilo que o setor privado produz é confiscado pelo governo e desperdiçado em burocracias improdutivas (ministérios, agências reguladoras, secretarias e estatais), maracutaias, salários de políticos, agrados a lobistas, subsídios para grandes empresários amigos do regime, propagandas e em péssimos serviços públicos.

Esse dinheiro confiscado não é alocado em termos de mercado, o que significa que está havendo uma destruição da riqueza gerada.

Pior: ao tributar, o governo faz com que a capacidade futura de investimento das empresas seja seriamente afetada, o que significa menor produção, menor oferta de bens e serviços no futuro, e menos contratação de mão-de-obra.

Já ao tomar empréstimos — ou seja, emitir títulos —, o governo se apropria de dinheiro que poderia ser emprestado para empresas investirem ou para as famílias consumirem.

Não há mágica ou truques capazes de alterar essa realidade: quando o governo se endivida, isso significa que ele está tomando mais crédito junto ao setor privado. E dado que o governo está tomando mais crédito, sobrará menos crédito disponível para financiar empreendimentos produtivos. Isso significa que o governo está dificultando e encarecendo o acesso das famílias e das empresas ao crédito.

E isso é fatal, sobretudo, para as micro, pequenas e médias empresas.

E piora: a emissão de títulos gera o aumento da dívida do governo, cujos juros serão pagos ou por meio de mais impostos ou por meio de mais lançamento de títulos.

E isso leva ao reinício do ciclo vicioso.

Na atual pandemia de Covid-19, os governos ao redor do mundo estão recorrendo majoritariamente à impressão de moeda e ao endividamento. O governo brasileiro não é exceção.

Os números

O governo brasileiro, que já era uma insana e insaciável máquina de destruição de riqueza, se tornou ainda pior durante a atual pandemia. E isso não é uma frase ideológica ou meramente demagógica. Uma simples olhada em seus números fiscais nos permite constatar isso.

O estado brasileiro sempre gastou muito mais do que arrecada via impostos, pois tem um grande estado de bem-estar social para sustentar. Agora, porém, sob a pandemia, pode-se dizer que a coisa degringolou completamente.

Como as receitas tributárias caíram e os gastos governamentais voltados para o “combate” à pandemia — o que majoritariamente inclui o repasse de auxílios financeiros a desempregados e autônomos — aumentaram substantivamente, o déficit orçamentário explodiu. Logo, o governo tem de se endividar (pedir empréstimos) ainda mais para poder financiar esses maiores déficits.

O gráfico abaixo mostra a evolução do déficit nominal do governo (tudo o que o governo gasta, inclusive com juros, além do que arrecada) a cada ano.

1.png Gráfico 1: evolução do déficit nominal do governo federal (Fonte e gráfico: Banco Central)

O descalabro, que começou realmente ao final de 2011, e que se intensificou a partir de meados de 2014, estava dando sinais de arrefecimento em 2019. No entanto, com a Covid-19, o déficit alcançou níveis inauditos.

Nos últimos 12 meses, o governo gasta R$ 750 bilhões a mais do que arrecadou via impostos. Ou seja, o governo federal se endividou em um montante de R$ 750 bilhões nesse período. São R$ 750 bilhões que ele absorveu do setor privado. São R$ 750 bilhões que deixam de financiar investimentos produtivos apenas para fechar as contas do governo.

Mas agora vem a parte realmente assustadora: pegue esses R$ 750 bilhões que o governo federal absorve via empréstimos em 12 meses e some aos R$ 2,512 trilhões que as três esferas de governo arrecadaram em 2018 via impostos. São R$ 3,26 trilhões que o estado retirou do setor privado e destruiu no financiamento de sua própria máquina.

Isso equivale a 45% do PIB, uma vez que o PIB foi de R$ 7,3 trilhões em 2019.

E aí você começará a entender por que será difícil para um país ainda em desenvolvimento enriquecer e prosperar sob esse atual arranjo. Não há mágica capaz de subverter essa realidade.

As consequências desses déficits seguidos? A óbvia explosão da dívida pública. O gráfico abaixo mostra a evolução da dívida bruta do governo federal desde julho de 1994. A dívida nada mais é do que um acumulado de déficits. Assim, o gráfico abaixo mostra o volume de dinheiro que foi absorvido pelo governo federal para financiar seus déficits — dinheiro este que, caso não houvesse déficits, poderia ter sido direcionado para o financiamento de investimentos produtivos:

2.png

Gráfico 2: evolução da dívida total do governo federal (Fonte e gráfico: Banco Central)

O gráfico acima mostra que nada menos que R$ 6 trilhões já foram absorvidos pelo governo federal para sustentar sua máquina e sua burocracia. São R$ 6 trilhões que deixaram de financiar empreendimentos produtivos.

Impossível mensurar os custos econômicos das empresas que deixaram de ser abertas, dos empregos que deixaram de ser gerados e das tecnologias que deixaram de ser criadas simplesmente porque os investimentos não foram possíveis por causa da absorção de recursos pelo governo federal.

Ressaltando que uma dívida bruta de R$ 6 trilhões para um PIB que foi de R$ 7,3 trilhões representa uma porcentagem de 82% do PIB. Segundo o Banco Central, considerando os números parciais da economia em 2020, a dívida bruta já está em 85,5% do PIB.

No grupo dos países em desenvolvimento, apenas Angola possui uma dívida maior.

A velha conhecida

E, para completar o cenário trágico, estamos vivenciando uma expansão monetária (inflação) sem precedentes na era do real.

O gráfico a seguir mostra a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil.

3.png Gráfico 3: evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil. (Fonte e gráfico: Banco Central)

Observe a disparada ocorrida a partir de março, um movimento completamente atípico e inaudito. Nos últimos 12 meses (de junho de 2019 a junho de 2020), o aumento foi de 40%.

Eis o cenário: de um lado, o governo financia seus déficits vendendo títulos públicos para investidores. A dívida aumenta. De outro, o Banco Central — por meio do Orçamento de Guerra — passou a imprimir moeda para comprar ativos em posse dos investidores (os mecanismos e as leis que permitiram essa impressão monetária já foram detalhados aqui).

Ou seja: houve déficit, houve impressão de moeda e houve aumento do endividamento.

Estamos hoje vivenciando políticas fiscal e monetária ultra-expansionistas e heterodoxas. A política fiscal é um keynesianismo turbinado. E a política monetária é claramente inspirada na Teoria Monetária Moderna, que está à esquerda de Keynes e que já foi considerada radical até mesmo por Paul Krugman. A inflação de preços, como inevitável consequência, já começa a se manifestar.

E agora, para completar, o Senado resolveu jogar dimetil mercúrio na floresta em chamas: derrubou o veto presidencial ao reajuste salarial dos funcionários públicos, o que pode representar um rombo adicional de até R$ 120 bilhões naquele déficit que já está em R$ 750 bilhões.

Bomba-relógio

Enfrentar essa crise fiscal não é um tema ideológico; as cifras de déficit e endividamento, que teimam em ser inflexíveis, são de natureza contábil. Não há ideologia que refute ou altere a realidade demonstrada pelos gráficos 1, 2 e 3.

Há 240 anos, Adam Smith dizia que “quando a dívida pública alcança certo nível, não é mais paga integralmente; a falência do governo é disfarçada por pagamentos de faz de conta.” Smith se referia aos meios que o governo utiliza para levantar recursos: impostos, endividamento e inflação.

Aumentos de impostos são evitados pelos governantes sob pena de perda de popularidade, vide o recente episódio da CPMF. O endividamento é o método favorito, só que, para além de um determinado nível de dívida, a deterioração do risco de crédito pode inviabilizar tudo, e, no extremo, o mercado não emprestará mais ao governo. Para evitar o calote, a consequência final é a inflação por monetização de dívida. Pagará a conta, portanto, aquele grupo de interesses que não vota nem é organizado: o das futuras gerações.

No tic-tac da bomba, o STF já proibiu a redução de salários de funcionários públicos prevista na Lei de Responsabilidade Fiscal, políticos defendem a implosão do teto de gastos, o Congresso autorizou o governo a descumprir a regra de ouro e agora há a ameaça de reajustes para o funcionalismo público.

Como detalhado neste artigo e neste neste, manter sua poupança majoritariamente em reais é algo cada vez mais arriscado.

Fonte: Mises Brasil

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