ECONOMIA: A CÉDULA DE R$ 200 É CONSEQUÊNCIA DA INFLAÇÃO ACUMULADA

O brilhante economista Hélio Beltrão nos dá um aula impressionante sobre a o porquê da emissão da nova cédula de R$ 200. Segundo o cientista econômica a causa de tudo isso esta no tamanho do Estado. Um Mastodonte que se arrasta carregando em seu dorso uma pesadíssima máquina pública, burocrática, corrompida e emperrada, que acintosamente insiste em manter o estado brasileiro na berlinda do desenvolvimento. Portanto lhe convido a ler o artigo completo a seguir e entender o que nos impede de sermos o país do futuro! 

A cédula de R$ 200 não é o problema; a inflação é

A chegada do lobo-guará está distraindo o público do verdadeiro problema: o tamanho do estado

 

Enxadristas utilizam costumeiramente a manobra de diversionismo, cujo propósito é “distrair” o adversário e induzi-lo a desguarnecer uma casa vital para o desenrolar do jogo. Apresenta-se como ameaça imediata, mas muitas vezes revela-se inócua.

Na política e na comunicação institucional, é equivalente ao ‘factoide’.

Não é um fato determinante em si, mas parece. Muitas vezes os factoides são lançados por políticos, tal qual um balão de ensaio, com o mesmo objetivo da manobra de diversionismo no xadrez.

Outras vezes são autogestados por uma percepção pública equivocada.

Este último é o caso da vindoura cédula de R$ 200, que estampará a imagem do lobo-guará. Tão logo foi anunciada, a medida foi tachada pelos críticos do governo como prenúncio de futura inflação. Isso é falso.

Na realidade, confundiu-se causa e consequência.

A nova cédula é apenas consequência do que já ocorreu

A inflação de preços chegou antes do lobo-guará.

O índice de preços ao produtor amplo  (IPA) — que mede essencialmente a variação dos preços dos produtos agropecuários e industriais nas transações interempresariais, ou seja, nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final— subiu 3,14% apenas no mês de julho. E isso após ter subido 2,22% em junho.

Eis um gráfico da evolução dos preços mensais:

IPAmensal.png

Gráfico 1: IPA mensal

Perceba que o atual valor mensal é o maior desde 2003.

No acumulado de 12 meses, a alta é de impressionantes 14,30%, como mostra o gráfico a seguir, que está no formato de média móvel de 12 meses (o valor na coluna da esquerda se refere a valores mensais; para saber o valor acumulado a cada 12 meses, basta elevar o valor da coluna da esquerda ao expoente 12. Assim, o atual valor de 1,12 significa uma inflação de preços de 14,3% em 12 meses (1,0112ˆ12).

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Gráfico 2: evolução mensal do IPA (média móvel acumulada em 12 meses)

O IPA é um dos componentes do IGP-M, que é o índice que serve usualmente como indexador de reajuste de aluguéis, dos planos de saúde, da mensalidade de escolas, de energia elétrica e de telefonia.

O IGP-M, por sua vez, apura preços de cerca de 1.400 itens, ante 350 apurados no IPCA, que é o índice oficial utilizado pelo Banco Central para balizar sua política monetária.

Em janeiro, o mercado estimava um IGP-M de 4,3% para todo o ano 2020. No entanto, de janeiro até julho, o IGP-M já apresenta alta de 6,7%.

Quando olhamos exclusivamente os produtos agrícolas, é possível constatar que a carestia está se acelerando fortemente. O gráfico a seguir mostra a média móvel acumulada em 12 meses da evolução do índice de preços dos produtos agrícolas no atacado. No acumulado de 12 meses, a alta de preços foi de 28%.

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Gráfico 3: taxa de variação de preços dos produtos agrícolas no atacado (média móvel acumulada em 12 meses).

Mas não são só os produtos agrícolas. Os metais industriais também estão apresentando uma forte aceleração de preços. O gráfico a seguir mostra a evolução desses preços.

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 Gráfico 4: evolução dos preços do metais industriais

Causas

As causas dessa carestia são basicamente duas.

1) A forte desvalorização cambial vivenciada pelo real perante o dólar (que saltou de R$ 4,02 no fim de 2019 para os atuais R$ 5,34) não só encareceu diretamente a importação de insumos industriais, como também estimulou enormemente a exportação de alimentos (ver também aqui). Quanto mais exportação de alimentos, menor a oferta no mercado interno.

2) A vigorosa criação de moeda feita tanto pelo governo brasileiro quanto pelos governos ao redor do mundo, como forma de tentar combater os efeitos recessiva da pandemia de Covid-19, está estimulando a demanda.

O gráfico a seguir mostra a evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil.

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Gráfico 5: evolução do M1 (papel-moeda em poder do público mais saldos em conta-corrente) no Brasil até junho de 2020

É inflação de gente grande, mas nas manchetes figura a nota de R$ 200.

Distrações

O público, distraído, permanece com foco no IPCA. Meta oficial de inflação há décadas, deixou de ser um bom medidor da carestia sofrida pelo brasileiro comum, ao ser manipulado por desonerações e outros truques. O exemplo clássico ainda é o do governo Dilma: de 2012 a 2014, o IPCA se manteve artificialmente baixo por causa do congelamento do preço da gasolina e por reduções artificiais de até 25% no preço da energia elétrica.

Analistas apontaram nos últimos dias que R$ 100 no início do Plano Real compravam 100 dólares e hoje compram apenas 19 dólares, e que a cesta básica em São Paulo custava R$ 68 em 1994, ante mais de R$ 550 hoje (o que é um fato). (O grama do ouro custava 12 reais e hoje custa 357 reais; e, de acordo com o IPCA acumulado, algo que custava 100 reais custa hoje 621 reais)

Porém, poucos mencionaram o aumento brutal da moeda em circulação (gráfico 5) promovido pelo Banco Central, o qual se intensificou ainda mais a partir de março, quando a oferta monetária passou de R$ 410 bilhões em fevereiro para R$ 540 bilhões em julho, aumento superior a 30%.

auxílio emergencial contribuiu para essa recente disparada, bem como o entesouramento — em épocas de enorme incerteza econômica, como a atual, as pessoas preferem ter em mãos moeda em espécie.

Com a demanda crescente por moeda durante a pandemia acompanhando a oferta, é natural que a inflação de preços ao consumidor leve um tempo para se manifestar de forma mais vigorosa no índice agregado de preços (IPCA).

A queda nos preços da gasolina (por causa da forte queda no barril de petróleo), da energia elétrica (por causa da redução do consumo das empresa e de desonerações dos governos estaduais) e das mensalidades escolares também está ajudando enormemente a segurar o IPCA.

No entanto, isso pode mudar rapidamente assim que a demanda por moeda volte aos níveis normais. E os preços dos alimentos — setor no qual não houve contenção do consumo — são um bom indicativo.

O lobo-guará é uma mera consequência

O problema, já está claro, não está nas novas cédulas de R$ 200. Estas são apenas consequência da expansão monetária, que já está em curso antes mesmo delas. A inflação de preços derivada dessa expansão monetária é um imposto invisível, que pune particularmente os mais pobres.

saudoso Joelmir Beting dizia que “a economia, ciência severa da escassez, enquadra a política, utopia alegre da abundância”. Infelizmente, a política populista atual prevalece sobre o conhecimento econômico.

A chegada do lobo-guará está distraindo a opinião pública do verdadeiro problema: os gastos do estado.

Toda a expansão monetária está sendo feita exatamente para possibilitar a manutenção dos gastos do estado, os quais agora foram inchados pelo Orçamento de Guerra criado para combater os efeitos da Covid-19.

A subida dos índices de preço enfatiza a urgência do controle de gastos públicos, mesmo diante de todas as dificuldades causadas pela pandemia. Sim, a causa fundamental de toda essa expansão monetária é o tamanho dos gastos públicos. Não se trata, obviamente, de reduzir o apoio aos mais necessitados, mas de acelerar as privatizações, a reforma administrativa e o enxugamento da máquina. É preciso cortar desde já as duas rubricas que representam cerca de 80% do total: salários dos servidores e aposentadorias de forma geral.

O leitor pode se perguntar: “A inflação está aumentando ou é impressão minha?”. Atenção ao factoide diversionista: a impressão é do BC mesmo.

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ECONOMIA: ESTABELECIMENTOS LOCALIZADOS NA ORLA DE NATAL VOLTAM A FUNCIONAR

Quiosques da orla urbana de Natal são autorizados a retomar serviços

Com as portas fechadas desde março, estabelecimentos localizados na orla urbana de Natal voltaram a funcionar após regulamentação do novo decreto de reabertura das atividades econômicas no Rn

Por Redação – Publicado em 06/08/2020 às 00:40

Reabertura dos estabelecimentos localizados nas orlas marítimas estava previsto para acontecer no dia 29 de julho

Os quiosques de praia voltaram a funcionar nesta quarta-feira (5) em Natal. A medida foi regulamentada pelo novo decreto estadual que estabelece a reabertura das atividades econômicas no Rio Grande do Norte.

Os estabelecimentos estavam fechados por conta do decreto estadual 29.742, de 4 de junho, que determinou o fechamento das orlas marítimas de todo o Rio Grande do Norte. Com isso, a medida impedia a retorno dos comerciantes aos locais de trabalho nas praias urbanas de Natal. O segmento estava com as portas fechadas desde março por conta das restrições.

Com o novo decreto publicado nesta quarta-feira, os estabelecimentos comerciais localizados na orla puderam retomar os serviços. A permissão também libera a venda de bebidas alcoólicas pelos estabelecimentos.

Além dos quiosques de praia, a terceira e última fração do plano estadual da retomada das atividades econômicas do Governo do Estado também autorizou a reabertura de shoppings centers, bares, restaurantes e food parks acima de 300 metros, desde que sigam as recomendações e cumpram as medidas para evitar o contágio pelo novo coronavírus.

A reabertura dos estabelecimentos localizados nas orlas marítimas estava previsto para acontecer no dia 29 de julho, mas o Governo do Estado adiou a liberação em razão dos dados epidemiológicos e dos indíces de ocupação hospitalar para os casos de Covid-19. Hoje, a taxa geral de ocupação de leitos é de 59%.

O secretário de Tributação, Carlos Eduardo Xavier, alertou que os estabelecimentos devem reforçar ações para garantir a segurança para clientes e trabalhadores. “Os estabelecimentos têm que reforçar os cuidados para não haver retrocesso”, pontuou.

Fonte: Agora RN

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ECONOMIA: HISTÓRIA, HUMOR, MEMÓRIA E CONHECIMENTO PARA NÃO SE COMETER OS MESMOS ERROS DO PASSADO

O memorável artigo escrito por John S. Chamberlain é o destaque da nossa coluna ECONOMIA desta quinta-feira, que trás 12 exemplos de trapalhadas econômicas ocorridas em vário países distintos ao longo da história das civilizações, incluindo dois episódios hilários da nossa frágil economia brasileira. Convido você a ler o artigo completo a seguir para conhecer, rememorar, entender, aprender e poder fazer um melhor juízo de valor sobre quem escolher para próximo governante.

Doze trapalhadas econômicas históricas

Um museu de grandes novidades

 

Sempre que você ouvir um político falando sobre questões econômicas, esconda-se e proteja-se. Pode apostar que vem por aí alguma trapalhada.

A sorte desses iluminados é que suas interferências erosivas geralmente são de efeito lento sobre a economia. Contudo, de vez em quando, os grandes sábios conseguem produzir um verdadeiro colosso, que, além de derrubá-los, destrói também todo o seu país. A seguir, doze exemplos históricos dessas trapalhadas.

1. Cobre muito caro e morra

No ano 301, o imperador romano Diocleciano publicou o seu Edictum De Pretiis Rerum Venalium, isto é, Édito Sobre os Preços dos Alimentos, o qual visava à reestruturação do sistema de cunhagem de moedas e determinava um congelamento de salários e preços de vários tipos de bens, especialmente alimentos.

A penalidade para quem vendesse acima dos preços estipulados era a morte. Cópias desse édito foram insculpidas em pedras e em monumentos de todas as partes do império.

Eis uma dica para futuros ditadores: jamais entalhem nas pedras suas trapalhadas, a menos que queiram que as pessoas riam de sua estupidez pelo resto da eternidade.

O édito foi um desastre. Comerciantes estocaram seus bens, recusando-se a vendê-los pelo preço imposto pelo governo. Outros estocaram simplesmente para não correr o risco de serem erroneamente acusados de estarem vendendo a preços acima do determinado, ficando assim sujeitos a execuções. Os trabalhadores reagiram ao congelamento de salários desaparecendo do expediente ou simplesmente ficando sentados, sem fazer nada. Com o tempo, o édito passou a ser ignorado e se tornou objeto de escárnio e gozação, algo que diminuiu permanentemente o prestígio e a autoridade do império.

2. Tosando o Lobo Inglês

Você sabe que está fazendo algo de errado quando seus inimigos se tornam heróis populares como Robin Hood.

O bom senso diz que é mais fácil tributar os fracos e repassar o dinheiro para os fortes; porém, após o fracasso de sua política de administração florestal, o Rei João I de Inglaterra decidiu tentar o inverso. Ele liberou os nobres da obrigatoriedade de fornecer soldados e material militar à coroa, mas, em troca, ordenou que eles pagassem uma pesada “scutage” — taxa paga em substituição ao serviço militar.  Rapidamente, surgiram 10.000 Robin Hoods querendo matá-lo, perseguindo-o de forma bem organizada.

Ao ser humilhantemente obrigado a assinar a Magna Carta em 1215, que deu início à monarquia constitucional e limitou os poderes do rei, João I conseguiu ganhar algum tempo. Porém, já no ano seguinte, ele voltou a viver em fuga. Após perder todas as suas posses (ele havia confiscado algumas jóias da coroa) em uma intempestiva tentativa de atravessar um rio, ele enlouqueceu, teve disenteria e morreu pouco tempo depois.

3. Dinheiro de papel é incrível

O quinto Khan da Pérsia se chamava “Gaykhatu“, o que significa “Incrível” em mongol.

Em 1294, após esbanjar afobadamente todo o dinheiro deixado por seus predecessores, ele não tinha como enfrentar uma forte epidemia de peste bovina que começava a devastar o gado de seus cidadãos. Incrível propôs uma solução incrível para seus problemas financeiros: dinheiro de papel.

Inventada por seu chefe Kublai Khan, na China, a ideia de um dinheiro de papel foi uma dádiva dos céus. Ele poderia imprimir notas de papel idênticas às chinesas, decretar pena de morte para qualquer um que se recusasse a aceitá-las, e todos os seus problemas estariam resolvidos. Incrível!

Mas, para a infelicidade de Incrível, ele não se preocupou muito com detalhes técnicos como conversibilidade e controle de capitais, coisas com que Kublai Khan havia se preocupado em demasia; e o resultado foi o total fracasso do projeto. O caos econômico foi inevitável. Incrível foi deposto e executado no ano seguinte.

4. Comprarei todas as espadas que você fizer

No período Muromachi (1336 a 1573), os mandarins da dinastia Ming, na China, adotaram a política de comprar e importar espadas dos japoneses com o objetivo de impedir que os incômodos “bárbaros” que ocupavam aquelas ilhas tivessem acesso a essas armas. A reação dos japoneses foi um regozijo só, e se deu dentro do espírito daquele antigo comercial de Doritos, feito por Jay Leno: compre o quanto você quiser; vamos fazer mais.

5. Nenhum contrabando será permitido

Controle de preços sempre será algo estúpido, independente da época, mas é necessário um enorme grau de imbecilidade para se praticá-lo quando sua região está sitiada.

Em 1584, as forças controladas por Alessandro Farnese, Duque de Parma e Piacenza, estavam cercando a maior cidade da Holanda, Antuérpia, durante a Revolta Holandesa (Guerra dos oitenta anos). De início, o cerco foi em vão, pois as formações em linha do exército do duque eram porosas, e a Antuérpia conseguia receber suprimentos por via marítima.

Mas o duque era sortudo, pois a cidade decidiu voluntariamente se bloquear a si própria. Os magistrados da cidade decretaram um limite de preços para os cereais. Como consequência, os contrabandistas, que até então vinham furando o bloqueio, se tornaram consideravelmente menos entusiasmados para fazer entregas de alimentos. Em meio à fome geral que se seguiu, a cidade teve de se render no ano seguinte.

6. A fábrica de ouro de Veneza

Em 1590, a República de Veneza estava em declínio. Dezenove anos antes, ela havia gloriosamente se defendido dos turcos otomanos, vencendo a Batalha de Lepanto, porém tendo perdido o Chipre, a maior possessão da república.

Em 1585, o recém-eleito doge (magistrado supremo), em vez de jogar para o público moedas de ouro — como era tradicional na cerimônia de ascensão —, havia jogado moedas de prata.  Sobrecarregada de impostos, tarifas, taxas, obrigações, dízimos, multas e comissões, a economia já havia vivido dias melhores.

Inesperadamente, de toda essa treva surgia uma nova esperança. Um veneziano chamado Marco Bragadini, há muito desaparecido, mas que estava morando na Lombardia, havia descoberto uma maneira de criar ouro.

Porém a república tinha de agir rápido, alertou Bragadini, pois o duque de Mantua estava louco para pôr as mãos nesse invento valioso. Uma tropa de soldados foi enviada imediatamente, e Bragadini entrou seguro e triunfante na cidade, com mais três galés. Testes científicos rigorosos foram ordenados pelo senado para verificar o poder do “anima d’oro”, o qual apenas Bragadini possuía. O alquimista despejou mercúrio em um cadinho, acrescentou uma pitada de seu pó secreto e colocou fogo na mistura. Rapidamente, o mercúrio se transformou em ouro. Era tudo verdade, afinal.

Os preços das capas e dos frascos do alquimista dispararam. Signor Bragadini calmamente informou ao senado que ele poderia produzir seis milhões de ducados ou qualquer quantia que eles quisessem. Em troca, ele assegurou que não queria nada, mas apenas ser um humilde servo de seu país.

Naturalmente, o senado colocou todos os recursos de Veneza à disposição de Bragadini. Os nobres corriam em manada até o alquimista, implorando para que ele os incluísse em seu negócio. Porém, os meses se passaram e a produção de ouro revelou-se desapontadoramente escassa.

Aparentemente, havia limites para a velocidade na qual o ouro poderia ser criado.  Sentindo uma crescente impaciência com os pífios resultados de seu trabalho, Bragadini fugiu sorrateiramente para Munique, onde o Duque Guilherme V da Baviera (também conhecido como Guilherme, o devoto) suplicava seus serviços.

Infelizmente para o maestro Bragadini, nesse meio tempo o Papa Sisto V havia morrido e sido substituído pelo farisaico Papa Gregório XIV, que considerava o alquimista e seus dois cachorros crias do diabo. Gregório XIV imediatamente deu ordens para que os três — Bragadini e seus dois cães — fossem executados, ordem essa que Guilherme, o devoto, imediatamente cumpriu.

O senado de Veneza decidiu fingir que a coisa toda jamais havia acontecido.

7. Como lidar com entesouradores

À medida que a fome gerada pela Revolução Francesa foi ficando fora de controle, em 1793, um grupo radical chamado “Comitê da Segurança Pública”, liderada por Maximilien Robespierre, assumiu o controle. O comitê decidiu solucionar o problema da fome decretando a “Lei de Maximum”, um conjunto de políticas decretando um limite de preços para o pão e outros bens comuns.

Quando essas medidas se revelaram incapazes de aumentar a oferta de alimentos, o comitê enviou soldados para o interior do país com o intuito de confiscar violentamente os cereais dos perversos agricultores, que estavam “entesourando” tudo. Robespierre e seu comitê foram mandados para a guilhotina no ano seguinte.

8. O sonho de um desocupado, o fim de um império

Em 1880, a tecnologia ferroviária estava avançando rapidamente, e os russos receberam do Extremo Oriente inúmeros pedidos de autorização para a construção de ferrovias privadas.  Porém, para os paranóicos aristocratas de Moscou, não bastava apenas negar o pedido desses estrangeiros inconfiáveis; era necessário também que os russos construíssem sua própria ferrovia para o oriente, de modo a manter os orientais fora da Rússia.

Sob a liderança de sua Paranóia Real, o Czar Alexandre III, o estado russo começou a pedir uma enormidade de empréstimos estrangeiros para construir a ferrovia Transiberiana, de 8.000 quilômetros, o maior projeto de obra pública desde as grandes pirâmides de Gizé.

Alexandre (e seu império) mais tarde morreria em decorrência de lesões sofridas em um acidente ferroviário. Quando esse projeto dominado pela corrupção foi finalizado em 1904, o filho de Alexandre, Nicolau II — o último czar russo —, estava tecnicamente falido. Guerras e revoltas começaram a assolar o império. Em vez de transportar artigos de comércio, a nova ferrovia estava transportando prisioneiros políticos e suprimentos para soldados.

Quando a Rússia rolou suas dívidas em 1907, já era óbvio para os grandes bancos que o império estava financeiramente condenado. Apenas pequenos investidores se arriscavam a conceder novos empréstimos. Mesmo com a suspensão do pagamento da dívida, a economia da Rússia já estava tão debilitada, que ela não sobreviveria à Primeira Guerra Mundial.

Nicolau II foi executado em 16 de julho de 1918.

9. É preciso uma vila para produzir a fome

Em 1984, o fracasso da colheita na Etiópia apresentou um novo conjunto de problemas para a junta marxista, chamada “Derga”, que controlava o governo. Os programas de estatização e de controle de preços, que eles haviam implementado há anos, pareciam menos eficazes que nunca.

Obviamente, o problema todo estava nos vestígios de capitalismo que ainda infectavam a economia.

Portanto, a junta resolveu adotar medidas ainda mais vigorosas, como a proibição do comércio de cereais. Por mais estranho que pareça, tal medida não acabou com a fome.

O ditador Mengistu Haile Mariam, inspirado pelo brilhante sucesso agrícola do camarada Stálin na década de 1930, imediatamente promulgou um novo conjunto de ideias batizado de “vilagização”. Sob esse plano, os dispersos habitantes rurais da Etiópia seriam aglomerados em vilas modernizadas com infraestrutura de ponta.

Como era de se esperar, nem todos os beneficiários desse plano compreendiam o charme utópico dessas vilas, o que fazia com que eles tivessem de ser levados à força para o local — para o bem deles próprios. Infelizmente, o esperado aumento na produção agrícola nunca se materializou, e milhões morreram de fome. O país sucumbiu a um permanente estado de guerra civil, que só acabou em 1990, após a União Soviética ter parado de subsidiar a Derga.

Mengistu fugiu para o Zimbábue, onde se tornou um proeminente conselheiro dos governantes daquela nação, gerando humanitários resultados.

10. Reeditando Diocleciano[*]

Na ânsia de inovar, o presidente brasileiro José Sarney achou-se capaz de dar uma lição em Diocleciano. Em 1986, após anos de crescente inflação, Sua Excelência baixou um decreto congelando os preços de todos os bens e serviços da economia brasileira. Já que era impossível atacar as causas da febre — isto é, reduzir a expansão monetária praticada pelo Banco Central —, então que se quebrasse o termômetro: o simples congelamento de preços bastaria para acabar com os efeitos dessa inflação monetária.

O resultado foi maravilhoso. Carros usados tornaram-se mais caros que carros novos, as carnes desapareceram dos açougues (mas prontamente reapareciam tão logo o comprador ofertasse uma quantia extra por baixo do balcão) e o governo acabou tendo de literalmente prender bois no pasto para impedir suas exportações, que eram bem mais vantajosas.

Após noves meses de desabastecimento e escassez, o governo abandonou seu decreto. Como a expansão monetária jamais fora interrompida, os preços dispararam imediatamente e o presidente chegou a ser apedrejado dentro de um ônibus.

Saiu do governo com 6% de aprovação.

11. Rublos: você os via, agora não os vê mais

Em 22 de janeiro de 1991, Mikhail Gorbachev, o presidente da União Soviética, decretou que todas as cédulas de 50 e 100 rublos não mais poderiam ser aceitas, e deveriam ser trocadas por novas cédulas durante os três dias seguintes apenas, e somente em pequenas quantias.

O efeito de tal medida foi o de instantaneamente aniquilar uma grande parte da poupança e do capital acumulado dos cidadãos soviéticos.

Em 26 de janeiro, ele deu sequência a essa medida genial, ordenando agora que a polícia fizesse buscas em todas as lojas e pontos de comércio, e exigisse os históricos de qualquer negócio a qualquer momento.

Os problemas econômicos do regime se aceleraram e entraram em uma espiral de morte. Gorbachev renunciou a 25 de dezembro e, no dia seguinte, o Soviete Supremo se dissolveu, acabando com os quase 75 anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

12. Um museu de grandes novidades[*]

Após quase uma década de crescimento econômico impulsionado por políticas macroeconômicas razoavelmente sensatas, a presidente do Brasil Dilma Rousseff decidiu inovar. No caso, “inovar” significava “regressar” a políticas econômicas que já haviam sido amplamente desacreditadas nas décadas de 1970 e 1980.

Adotando políticas econômicas que se resumiam a estimular o consumo sem estimular a oferta, aumentar os gastos públicos, maquiar as contas do governo, aumentar as tarifas de importação, aumentar o crédito concedido por bancos estatais, tabelar o lucro de empresas, congelar o preço da gasolina e baixar os preços da energia elétrica na caneta, a mandatária fez com que um país que até então apresentava bons indicadores econômicos passasse a apresentar dois anos seguidos contração econômica, taxa de inflação de preços próxima a dois dígitos, desemprego crescente e sem perspectiva de melhora, taxa de câmbio em forte desvalorização, custo de vida em forte ascensão, gasolina e tarifas de utilidade pública em disparada, endividamento recorde da população, e investimentos em prolongada contração.

Sua taxa de aprovação despencou a níveis próximos aos do Diocleciano brasileiro da década de 1980. Os apoiadores do seu partido, outrora os mais fanáticos do país, bateram em retirada, envergonhados. Apenas os militantes pagos ainda se arriscavam a fazer defesas pontuais da presidente e do partido, mas sempre enfatizando que se opunham vigorosamente à política econômica. Gerou-se o movimento dos “contrários a favor”.

Após implantar o seu museu de grandes novidades, a mandatária não concluiu o mandato. E estraçalhou a imagem do seu partido.

[*] Acréscimo do editor

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: GOVERNO CONFIRMOU RETOMADA DAS ATIVIDADES ECONÔMICAS PARA ESTA QUARTA FEIRA

Por G1 RN

 

Carlos Eduardo Xavier, secretário de Tributação do Rio Grande do Norte — Foto: ReproduçãoCarlos Eduardo Xavier, secretário de Tributação do Rio Grande do Norte

O Governo do Rio Grande do Norte confirmou que está mantida para esta quarta-feira (15) a retomada do calendário de reabertura das atividades econômicas do Rio Grande do Norte, durante a pandemia do novo coronavírus. A informação foi divulgada pelo secretário de Tributação do estado, Carlos Eduardo Xavier, na entrevista coletiva realizada diariamente no centro administrativo do estado.

“Publicamos ontem quatro portarias que regulamentam a questão dos protocolos sobre a retomada das atividades econômicas. Vamos dar sequência essa semana iniciando a segunda fração da fase 1 e a primeira fração da fase 2”, afirmou.

De acordo com ele, é preciso que os empresários sigam as regras estabelecidas pelas portarias do estado, para que evitar o aumento da contaminação. Caso contrário, ele afirmou que o estado poderá voltar a pausar o cronograma de reabertura ou mesmo voltar atrás e voltar a determinar o fechamento dos serviços.

“É fundamental que sejam cumpridos os protocolos estabelecidos. Nós não vencemos essa pandemia ainda. Ainda estamos no meio dela. E é fundamental que haja o comprometimento da população, dos empresários, dos trabalhadores dos estabelecimentos que estão sendo abertos, que esses protocolos sejam cumpridos”, declarou.

É exigido uso de máscaras, controle de acesso, com quantidade de pessoas limitada ao tamanho do estabelecimento, disponibilização de álcool em gel, entre outros pontos.

A decisão do governo do estado ocorre mesmo com a taxa de ocupação dos leitos de UTI para Covid-19 continuando acima dos 80% – percentual que havia sido usado como meta para estabelecer a reabertura ou não das atividades econômicas. Na entrevista coletiva, a Secretaria Estadual de Saúde informou que a taxa estava em 83% nesta terça (14). Às 12h55, o sistema Regula RN – onde são administrados os leitos de UTI no estado – a taxa de ocupação estava em 84,4%.

“Esse talvez seja o momento mais desafiador para a sociedade. Os números são melhores do que a gente tinha anteriormente, em razão da desaceleração do crescimento da pandemia e da expansão de leitos. Ainda temos, até amanhã, a perspectiva de abertura de 15 leitos, que deve reduzir a ocupação por leitos críticos, o que nos dá a tranquilidade de continuar o processo de retomada”, disse o secretário.

Sobre as portarias citadas pelo secretário Carlos Eduardo Xavier, a primeira trata das fases e medidas sanitárias gerais a serem adotadas pelos segmentos socioeconômicos no Plano de Retomada Gradual da Atividade Econômica relativas ao Decreto Estadual nº 29.742, de 4 de junho de 2020. As outras três trazem os protocolos dos segmentos contemplados na fase 1 – fração 1 (iniciada no dia 1º de julho) e fração 2 – e na primeira fração da segunda etapa do plano.

O que abre

A segunda fração da primeira fase era prevista para o dia 8 de julho, mas foi suspensa pelo governo por causa da taxa de ocupação de leitos, segundo informou a governadora Fátima Bezerra (PT). Após a suspensão, o governo remarcou a fração para esta quarta (15), junto com a primeira fração da fase 2, com a reabertura das academias.

Os estabelecimentos que poderão abrir nesta quarta-feira (15) são:

  • Lojas – (até 600 m 2 e com “Porta para Rua”)
  • 1. Lojas de móveis, eletrodomésticos e colchões
  • 2. Lojas de departamento e magazines (que não funcionem em Shoppings ou Centros Comerciais)
  • 3. Agências de Turismo
  • 4. Calçados
  • 5. Lojas de brinquedos, artigos esportivos e de caça e pesca
  • 6. Instrumentos musicais e acessórios, equipamentos de áudio e vídeo, de eletrônicos/informática e de equipamentos de telefonia e comunicação
  • 7. Joalherias, relojoarias, bijuterias e artesanatos
  • 8. Cosméticos e perfumaria
  • Alimentação – restaurantes, lanchonetes e food parks de até 300 m2, desde que comportem apenas 4 pessoas por mesa, mantendo a distância de 2 metros entre as mesas e de 1 metro entre pessoas, sem venda e consumo de bebida alcoólica no estabelecimento.
  • Também ocorre a primeira fração da Fase 2, que prevê reabertura de academias de ginástica, box de crossfit, estúdio de pilates e afins sem uso de ar-condicionado.
Fonte: G1
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ECONOMIA: A CRUEL DESIGUALDADE ENTRE FUNCIONALISMO PÚBLICO E DESEMPREGADOS NO SETOR PRIVADO

O artigo que ora publicamos aqui na coluna ECONOMIA nesta terça-feira é de uma profundidade singular. Poucas vezes pude me deparar com tanta informação junta sobre um determinado assunto. Uma verdadeira enciclopédia sobre emprego, renda, legislação, geopolítica, sociologia, desigualdade, justiça, injustiça e claro, economia. Portanto se você quiser entender como chegamos a situação econômico-financeira e social atual e o porquê países como Portugal e Grécia que passaram por crises profundas há 10 anos hoje gozam de uma situação econômica tranquila, leia o artigo completo a seguir! 

O oásis do funcionalismo público brasileiro na crise

Milhões de desempregados no setor privado; emprego garantido e zero centavo a menos no setor público

 

No deserto, convivendo com a escassez de água e comida, o oásis é um refúgio temporário para viajantes em travessias difíceis. Não sendo propriedade de alguém, oferece algum conforto para todos que passam pelo mesmo difícil caminho.

Não é o caso do sentido aqui empregado, já que no mesmo território, e no mesmo caminho, o abrigo só serve para poucos.

No Brasil, antes da pandemia, de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgada em março, tínhamos no setor privado aproximadamente 33,6 milhões de pessoas com carteira assinada e 38 milhões de trabalhadores informais. Estes incluem desde os trabalhadores sem carteira assinada (11,6 milhões) até trabalhadores por conta própria (24,5 milhões).

Os grupos acima, quando somados à força de trabalho desocupada no mesmo período, equivalente a 12,3 milhões de desempregados, significam 84 milhões de brasileiros que lutam no dia a dia para procurar ou manter seus empregos e sua renda (veja todos os números aqui).

Nesse sentido, enfrentar a crise é uma batalha que os torna semelhantes como brasileiros.

No universo de trabalhadores brasileiros ainda faltam os trabalhadores do setor público, também chamados de servidores públicos pela sua natureza universal de servir ao público (compreendida, corretamente, como uma nobre atividade desde o Império Romano). Somadas as diferentes esferas de governo, civis e militares, os servidores públicos no Brasil são aproximadamente 11,4 milhões.

A crise econômica é global. E, como em vários outros países, no Brasil milhões de trabalhadores já perderam seus empregos e salários. Atualmente, mais da metade dos brasileiros não tem trabalho.

Governos, incluindo o brasileiro, adotam programas bilionários (que serão pagos com os impostos de todos contribuintes) para tentar mitigar o sofrimento dos que perdem sua renda, integralmente ou parcialmente, da noite para o dia.

Brasileiros, todos, navegam na mesma crise econômica, correto? Não. Nem todos da mesma forma. Para uma minoria, os trabalhadores do setor público, os empregos são garantidos por lei. E os salários, obviamente, são garantidos pelos impostos pagos pelos trabalhadores do setor privado.

Austeridade portuguesa e grega

Além do estatuto da estabilidade no emprego, sequer é possível admitir algum pequeno ajuste temporário de salários no serviço público.

No fim de junho, o STF negou a possibilidade de reduções temporárias de salários condicionadas à redução de jornadas de trabalho (no julgamento de matéria relativa à Lei de Responsabilidade Fiscal), algo já feito em larga escala pelos trabalhadores do setor privado – e, ainda assim, só para aqueles que tiverem a sorte de manter seus empregos em meio à crise.

Muitos países procuram reforçar sua identidade e propósito de união em momentos mais difíceis, como guerras, epidemias, desastres naturais ou crises econômicas. Em todas essas situações, a estabilidade da sociedade, em meio à exigência de maior sacrifício pessoal, passa também pela percepção da maioria de que o sacrifício temporário é distribuído de maneira justa e solidária.

Tratamento igual entre iguais, sacrifícios maiores para aqueles que podem contribuir mais em períodos excepcionais. Tudo em nome de uma união necessária para a travessia de um caminho difícil. Um teste, que pode sinalizar o quão próspero pode ser o futuro de uma nação.

Para não voltarmos muito longe no tempo, como nos períodos das grandes guerras mundiais – que moldaram o sentimento de união de países como o Japão, Alemanha, Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos e tantos outros —, fiquemos com algumas crises econômicas mais recentes.

Em Portugal, depois da crise de 2008/2009, o déficit nominal do setor público atingiu o recorde de 11% do PIB em 2010, com um crescimento negativo do PIB de 3% no mesmo ano. Vale lembrar que as atuais projeções para o déficit nominal do Brasil em 2020 já estão em 16% do PIB.

O programa de ajuste português, que anos mais a frente permitiu aquele país ser saudado como um exemplo de recuperação econômica (e com participação conjunta de partidos de direita, centro e esquerda), procurou distribuir esforços entre o setor privado e o setor público.

Na aprovação da primeira fase do programa, em 2010, ao incluir a redução e congelamento futuro dos salários no serviço público, o primeiro-ministro de Portugal da época, José Sócrates, ressaltou a importância de um algum esforço solidário do setor público, em meio a uma grande onda de demissões e reduções salariais no setor privado.

Em 2011, em mais uma onda de ajustes, o governo português extinguiu o 13º e o 14º salários para o funcionalismo público e aposentados portugueses que recebiam mais de mil euros. (Leia tudo sobre o ajuste de Portugal aqui).

Na Grécia, a crise de 2008/2009 levou o déficit nominal a patamares ainda mais altos: acima de 13% em 2013, com uma queda do PIB que havia chegado a 10% no ano anterior.

O ajuste grego também envolveu partidos de diferentes orientações ideológicas, incluindo o Syriza, partido radical de esquerda e antigo crítico de medidas de ajuste fiscal.

O processo de ajuste grego foi ainda mais longo e sofrido do que o de Portugal, mas o país voltou a ter superávit nominal entre 2016 e 2019, a dívida pública voltou a ficar estável — ainda que em patamar extremamente elevado — e o crescimento econômico também retornou (antes da Covid-19), ainda que a taxas modestas.

Na Grécia, até pelo peso maior do setor público na economia local, os cortes de salários e benefícios foram ainda maiores do que em Portugal. Entre 2010 e 2012 foram cinco rodadas de ajustes, que na soma significaram mais de 30% de reduções salariais no funcionalismo público, além da revisão de outros benefícios.

Em cada uma das rodadas de ajuste na Grécia, mesmo com diferentes coalizações políticas, a justificativa de reduções salariais no setor público foi a mesma de Portugal: o esforço precisava ser de todos, num país onde a taxa de desemprego havia saído de 7,5% em 2008 para quase 30% no início da década passada.

Salários no setor público brasileiro

Segundo estudo do Banco Mundial divulgado em conjunto com o Ministério da Economia no ano passado, intitulado “Gestão de pessoas e Folha de Pagamentos no Setor Público Brasileiro – o que dizem os dados?“, servidores federais no Brasil ganham 96% a mais do que recebem trabalhadores da iniciativa privada que exercem funções semelhantes.

O número acima, chamado de “prêmio salarial”, é o mais alto na amostra de 53 países pesquisados pelo Banco Mundial, como mostra o gráfico abaixo.

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Prêmio Salarial do Setor Público em Relação ao Setor Privado por País

No caso dos estados, aquele número é de 36% mais elevado do que a média do setor privado. Nos municípios o prêmio salarial é equivalente ao do setor privado.

O mesmo estudo mostrou que, em 2019, 44% dos servidores do executivo federal, o poder federal com a menor média salarial, recebiam mais de R$ 10 mil reais por mês. Essa remuneração coloca esses servidores nos 5% superiores da distribuição de rendimentos domiciliares per capita dos brasileiros calculada pelo IBGE para o ano de 2019.

Como essa distribuição foi verificada antes da atual crise econômica, a tendência é piorar a performance relativa dos rendimentos do setor privado.

teto salarial do setor público brasileiro foi reajustado no ano passado em 16,3%, aproximadamente quatro vezes a inflação de 2019, de 4,31%. O valor, R$ 39,2 mil, coloca esse teto entre o 0,5% superior do rendimento domiciliar per capita.

Dado que em 2019 a metade mais pobre da população viveu com uma renda média de R$ 850 por mês, R$ 39,2 mil equivalem a 46 vezes mais do que ganharam em média a metade dos brasileiros.

O teto salarial já seria uma belíssima remuneração, mas há milhares de servidores no Executivo, Legislativo e Judiciário, na União e nos estados que recebem muito além desse valor. Perde-se a conta de remunerações acima de 60-70-80 mil reais por mês infladas por todos os tipos de adicionais e auxílios — os famosos “penduricalhos” — que fogem de uma definição legal mais rigorosa para o conceito de teto remuneratório. Outra pendência esquecida nas gavetas do governo e do Congresso Nacional.

As distorções dentro da própria máquina garantem privilégios ainda mais imorais

É preciso ser dito também que, na outra ponta da distribuição salarial do setor público, há milhões de funcionários públicos em estados e, principalmente municípios, com rendimentos baixos ou comparáveis aos praticados no mercado.

Há enormes desigualdades no tratamento dentro do próprio setor público. E são tratamentos desiguais no sentido de privilegiar exatamente quem ganha mais.

Alguns estados atrasam suas folhas de pagamento pelas suas crises financeiras, agora agravadas com a pandemia da Covid-19. No entanto, há um agravante: quando a receita de todo o setor público estadual cai de forma inesperada, como em 2020, os poderes executivos estaduais são proibidos de pedir que o legislativo, o judiciário e o Ministério Público estaduais compartilhem o “sacrifício”.

Os executivos estaduais acabam tendo de resolver sozinhos a crise, sem dividi-la com os outros poderes e órgãos independentes (como o Ministério Público), onde exatamente se encontram os salários mais altos.

Os poderes executivos estaduais estão proibidos de tentar reduzir os repasses da execução orçamentária (os chamados duodécimos) para os outros poderes quando há frustração de receitas. Mais uma decisão recente do STF, junto com a que proibiu a redução salarial no setor público associada à redução de jornada de trabalho.

Vejamos apenas um exemplo das muitas distorções que se acumulam no setor público brasileiro, seja pela legislação vigente ou por decisões do STF já mencionadas.

No Rio Grande do Sul, hoje, uma professora do ensino fundamental com doutorado que receba uma remuneração pouco superior a R$ 3.000 receberá a totalidade do seu salário com mais de 30 dias de atraso. No mesmo estado, no mesmo setor público, um desembargador que tenha uma remuneração total mensal de R$ 60.000  (20 vezes maior) receberá a integralidade de seus vencimentos rigorosamente em dia.

A constatação é de que a atual estrutura de remunerações no setor público brasileiro, comparativamente ao setor privado, não é só desconectada em relação ao que acontece em outros países, mas é também parte agravante da descomunal desigualdade de renda que vigora no País.

Voltando à crise atual no Brasil

No momento em que o mundo volta a discutir o compartilhamento de esforços entre setor privado e público no enfrentamento de uma crise, isso ainda parece ser uma barreira intransponível no Brasil. E temos exemplos recentes muito próximos do país indo em outra direção.

A Colômbia aprovou em abril deste ano um imposto adicional transitório para servidores públicos que ganham acima de 10 milhões de pesos (o equivalente a 10 mil reais no Brasil).

No Chile, o parlamento discute de maneira avançada a extensão de reduções salariais temporárias no serviço público, depois do salário de parlamentares e outras autoridades públicas terem sido reduzidos em até 50% ao final de 2019.

No Uruguai, depois de cortar 20% do seu próprio salário e de outros dirigentes públicos, o presidente Lacalle Pou avançou na aprovação de um desconto temporário entre 5% e 20% para servidores com remuneração mensal superior a 80.000 pesos (o equivalente a R$ 9.000).

No Brasil, qualquer iniciativa recente de propor alguma redução temporária de salários, seja pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia ou alguns outros poucos parlamentares, não passa de uma primeira manifestação de intenções.

Além da enorme força das corporações do setor público, aparentemente o próprio presidente da República não enxerga prioridade neste esforço. O máximo que se fez até agora, após forte trabalho de convencimento do ministro Paulo Guedes, foi congelar os atuais salários do serviço público de apenas alguns categorias até o final de 2021.

Mesmo nesse esforço louvável, há muitas dúvidas sobre como será possível controlar aumentos disfarçados, como promoções de carreiras e concessões de auxílios diversos.

Para concluir

Toda essa bonança é bancado pelos impostos pagos por quem trabalha e produz riqueza — e que, consequentemente, ganha bem menos.

E que agora está desempregado.

Enquanto a alta casta do funcionalismo ganha entre R$ 10.000 e R$ 60.000 por mês (em alguns casos, ganham mais de R$ 100 mil), o trabalhador do setor privado, que é quem produz e é tributado para sustentar toda essa farra — não houvesse trabalhador do setor privado, não haveria salário para funcionalismo público —, está com uma renda média de R$ 2.300 por mês.

A injustiça causada pelo estado não poderia ser mais fragorosa.

Quando terminarmos o ano de 2020, deveremos ter a maior queda da história do PIB brasileiro (algo entre menos 7% e menos 9% pelas últimas estimativas), alguns novos milhões de desempregados e muitos outros milhões de empregados do setor privado com salários muito abaixo do início da atual crise.

Será uma travessia muito difícil até o Brasil voltar a crescer e começar a recuperar os empregos perdidos nessa crise. Para aqueles que têm a felicidade de mantê-los por lei, um verdadeiro oásis no deserto, seria no mínimo um gesto de solidariedade e união compartilhar uma pequena parte do sacrifício. Uma demonstração de que a crise, assim como o país, é de todos.

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: EMPRESA QUE JÁ TINHA PARTICIPAÇÃO NO POLO DA PETROBRÁS NO RN, ANUNCIA COMPRA DO MESMO CAMPO DE EXPLORAÇÃO.

Por G1 RN

 

Sede da Petrobras no Rio Grande do Norte — Foto: Bruno Vital/G1Sede da Petrobras no Rio Grande do Norte 

A Petrobras assinou nesta quinta-feira (9) um contrato para a venda de toda a sua participação nos campos de Pescada, Arabaiana e Dentão, localizados em águas rasas da Bacia Potiguar (Polo Pescada), no estado do Rio Grande do Norte. Os campos serão vendidos à OP Pescada Óleo e Gás Ltda., empresa subsidiária da Ouro Preto Óleo e Gás S.A., que já tinha 35% de participação no negócio.

De acordo com a empresa, valor da venda é de US$ 1,5 milhão, que deverá ser pago em duas parcelas: US$ 300 mil na assinatura do contrato e US$ 1,2 milhão no fechamento da transação, sem considerar os ajustes devidos.

“O fechamento da transação está sujeito ao cumprimento de condições precedentes, tais como a aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)”, informou a Petrobras.

Segundo estatal, a venda está de acordo com as diretrizes para desinvestimentos da empresa e com os decretos federais que tratam da cessão dos direitos à exploração e produção.

“Essa operação está alinhada à estratégia de otimização do portfólio e à melhoria de alocação do capital da companhia, passando a concentrar cada vez mais os seus recursos em águas profundas e ultra profundas, onde a Petrobras tem demonstrado grande diferencial competitivo ao longo dos anos”, informou ainda a empresa.

Sobre o Polo Pescada

O Polo Pescada compreende três campos de águas rasas: Pescada, Arabaiana e Dentão, localizado no estado do Rio Grande do Norte. A Petrobras é operadora dos três campos com 65% de participação e a OP Pescada Óleo e Gás Ltda detém os 35% restantes em consórcio.

A produção média do Polo Pescada de janeiro a junho de 2020 foi de aproximadamente 260 barris de óleo por dia (bpd) e 190 mil m3/dia de gás.

Em dezembro de 2019, a Petrobras concluiu a venda de toda a sua participação em 34 campos de produção terrestre de petróleo no estado à empresa Potiguar E&P S.A, subsidiária da Petrorecôncavo S.A dentro do seu plano de desinvestimento.

Fonte: G1 RN

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ECONOMIA: COM JUROS REAIS NEGATIVOS E MENORES DO QUE OS SUÍÇOS BANCO CENTRAL VIROU “TRADER”

texto

Nossos juros reais estão menores que os da Suíça. E o Banco Central virou “trader”

Adivinhe quem sai perdendo com essa captura regulatória

Independência do Banco Central funciona em raríssimos casos ao sul do Equador. Talvez Austrália e Nova Zelândia.” – Alexandre Schwartsman.

No dia 17/06, oito pessoas se aglomeraram em uma sala no Banco Central de Brasília, anunciaram seus votos e inauguraram uma nova era: nunca antes na história deste país a taxa básica de juros esteve tão baixa.

O Copom determinou que a taxa Selic agora é de 2,25% ao ano. Isso significa que os juros reais estimados para os próximos 12 meses não apenas estão negativos, como também estão menores que os da Suíça!

Vale repetir: em termos exclusivamente de política monetária, já ultrapassamos a Suíça.

Apesar do marco histórico, esse corte da Selic era esperado pelo mercado. Até por isso, Paulo Guedes, Ministro da Economia, decidiu iniciar em maio uma turnê pelas principais instituições do sistema financeiro brasileiro. E, em uma live organizada pelo Itaú/Unibanco, comentou que o Banco Central iria chuveirar liquidez na economia inteira caso o país começasse a demonstrar indícios de depressão econômica.

Parece óbvio, mas, nestes curiosos tempos, vale a pena sublinhar o normal: o Banco Central está sofrendo captura regulatória do Ministério da Economia. O ministro da economia está abertamente estipulando o que uma autarquia controlada por outro ministro — o presidente do Banco Central tem status de ministro — irá fazer.

Na prática, o Banco Central, que já não tinha independência, perdeu também a autonomia.

Talvez a declaração soe um pouco injusta e dura demais. Afinal, para o Banco Central sofrer captura regulatória primeiro teríamos de ter uma autoridade monetária verdadeiramente independente do governo. E, nesse ponto, vale ressaltar que o próprio Paulo Guedes advogava pela independência do BCB em 2018 e 2019.

No entanto, ainda no fim de 2019, o Ministro da Economia esqueceu que o Real é uma moeda fiduciária de um país emergente e declarou que a cotação boa do dólar era acima de R$ 4,20. Depois, disse que não estava preocupado com a alta do dólar. E então, já em 2020, e aparentemente um tanto assustado com a rápida escalada da moeda americana, ele disse que o dólar apenas chegaria em R$ 5,00 se o governo fizesse muita besteira. Uma vez ultrapassada essa barreira, ele disse que o dólar acima de R$ 5 era bom para abater dívida pública.

Ora, se o Ministro da Economia declara que há possibilidade de sua moeda sofrer forte desvalorização, ele indiretamente está forçando o mercado a reavaliar sua moeda e realizar uma nova precificação.

Dito e feito. Em meados de maio, o dólar comercial alcançava sua máxima histórica: R$ 5,97. Teria o governo feito muita besteira? Ou teria o mercado financeiro percebido que o Banco Central não tinha mais autonomia, e que o Ministro da Economia, que sempre defendeu moeda fraca, era quem de fato comandava o Banco Central?

A independência do Banco Central

Pauta historicamente liberal, a independência do Banco Central é uma ferramenta que busca blindar a moeda fiduciária, espinha dorsal de qualquer economia, da política, essencialmente conjuntural e efêmera.

A ideia, nascida na Alemanha, país que experimentou os riscos políticos e econômicos de uma hiperinflação em seu passado, surgiu em 1951 inicialmente com o Deutsche Bundesbank.

Após o sucesso do modelo alemão, as décadas de 1960, 70 e 80 observaram, no mundo desenvolvido, diferentes níveis de adoção ao sistema de Banco Central independente. A ótica de uma autoridade monetária à parte do sistema político apenas seria desafiada com o surgimento do New Public Management neo-zelandês.

A ideia do Reserve Bank of New Zealand era simples: um regime de metas de inflação de preços seria estabelecido trienalmente por um comitê formado pelo Presidente do Banco Central e pelo Ministro das Finanças (Economia ou Fazenda, chame do que quiser).

Eram os anos 1990: o grunge estava morto, éramos tetra campeões mundiais e utilizávamos a nossa mais nova moeda, o Real.

Livre da inflação, o Brasil de Fernando Henrique Cardoso decidiu entrar no consenso social-democrata de Tony Blair (Labour Party) e Bill Clinton (Democrats). Em um intervalo de oito anos, criaríamos dez agências reguladoras em um programa de “Reforma do Estado” capitaneado pelo ultra-keynesiano Luiz Carlos Bresser-Pereira.

No apagar das luzes da gestão de Gustavo Franco no Banco Central, Armínio Fraga decidiu apostar na estratégia de “ancorar as expectativas” e alterar completamente o regime cambial. Sua solução? O modelo de metas inflacionárias neo-zelandês.

A ideia era bem-intencionada e pareada com os diversos bancos centrais que adotavam medidas parecidas na época, inclusive o próprio Deutsche Bundesbank.

No entanto, na América Latina e, especialmente no Brasil, políticas monetárias influenciam diretamente na taxa de câmbio e, consequentemente, não costumam ter um perfil de estabilização. Na verdade, o costume local indica: na primeira chance política, qualquer “presidente” populista pode e deve assumir os rumos da moeda.

A captura do Banco Central

Foi ainda em outubro de 2019 que Paulo Guedes levantou a tese de que uma alta no preço do dólar teria uma consequência positiva na economia: bastava o Banco Central vender suas reservas da moeda norte-americana, repassar os lucros para o tesouro e, voilà!, todos os nossos problemas fiscais estariam resolvidos. (Algo bizarro, como explicado aqui).

Ato contínuo, tornou-se explícito para o mercado financeiro que o Banco Central queria um dólar caro exatamente para efetuar essa mágica. Quanto mais caro o dólar, maior o valor das reservas internacionais, maior seria o repasse do Banco Central para o Tesouro.

E então, o mercado financeiro entregou o dólar que o BC queria.

No entanto, como é costume ao abrirmos caixas de pandora, nem sempre o que se quer é o que se tem. Novamente, a primeira incongruência a ser levantada é o fato de o Ministro da Economia, o mesmo que advogava em 2019 por um Banco Central independente, ser favorável a uma intervenção governamental na autoridade monetária.

O conceito basilar do New Public Management, que inaugurou a redemocratização no Brasil, é que ministérios do governo não podem intervir em autarquias regulatórias. Por isso se discute tanto sobre mandatos dessincronizados, modelos de governança pública e independência de atuação para as agências reguladoras. Tudo em vão na mão do capturador.

E não é necessário ir tão longe para entender como interesses escusos capturaram nossa autoridade monetária.

Gustavo Franco, em seu livro A Moeda e a Lei, fala que o Banco Central Brasileiro apenas nasce como ente regulador na década de 1990. E, de lá pra cá, conseguimos contar ao menos três vezes em que o congresso nacional, em parceria com o executivo, interveio diretamente no funcionamento do Banco Central.

A primeira captura ocorre com a Lei Nº 10.179/2001, que, pela primeira vez, regulamenta a permuta de títulos entre o Tesouro Nacional e o Banco Central.

A segunda captura se dá em meio à crise financeira de 2008, com a esdrúxula Lei Nº 11.803/2008, que confundia ativos do Banco Central com passivos da União e vice-e-versa.

Já a terceira captura ocorreu no ano passado, com a Lei Nº 13.820/2019 (discutida aqui).

Apesar da legislação mais recente suprimir absurdos propostos em 2008, a nova lei inaugura, com mais clareza, a utilização de ativos do Banco Central para o abatimento da dívida pública da União.

Isso fica claro quando o ex-secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, falava em remessas de R$ 500 bilhões, advindas das Reservas Internacionais do Banco Central, para reduzir o peso do déficit orçamentário do governo, que deve chegar a R$ 600 bilhões em 2020.

Para completar a sopa de letrinhas de intervenções no Banco Central, Paulo Guedes, na fatídica reunião ministerial divulgada pela imprensa, explicava aos seus colegas que a expansão da carteira do BNDESPar, com aquisições de papéis das companhias aéreas brasileiras, se tornaria, no longo prazo, em uma operação lucrativa para a União.

E o que isso tem a ver com o Banco Central? Tudo. Não é o caso de agora, mas a inauguração do canal entre Tesouro Nacional e Banco Central pode se tornar em mais um instrumento de expansão monetária. Basta uma breve guinada heterodoxa — neste ou em qualquer futuro governo — para abrirmos novamente vislumbrados a caixa de pandora.

E isso sem mencionar também o fato de que qualquer operação do BNDES gera intervenções nos juros do mercado de crédito, o que obriga o Banco Central a reavaliar sua política monetária.

Mas quem se importa? Até agora, o governo já gastou R$ 6 bilhões e, consequentemente, até os brasileiros que nunca entraram em um avião são sócios da Azul, Gol e Latam.

Que fique a lição: na terra onde gasto é vida, é mais fácil acreditar no ET de Varginha do que em independência do Banco Central.

Como se proteger da política

Percorremos um longo caminho para entender a diferença entre deixar a política monetária nas mãos de um burocrata (Banco Central Independente) ou deixá-la nas mãos de um político (Banco Central Brasileiro).

Enquanto um bom burocrata desvaloriza o seu patrimônio paulatinamente ao longo de sua vida, um bom político, típico de nossas republiquetas latino-americanas, costuma abrir a caixa de pandora, emitir moeda e fazer evaporar, magicamente, toda a poupança de sua família.

Como evitar isso? Se expor a outras moedas e a outros ativos reais. Se o Banco Central do seu país não tem atuação independente do governo eleito, o seu patrimônio também será dependente de mandos e desmandos políticos. Renda fixa? Ibovespa? Tudo exposto ao real. Educação financeira é o primeiro passo pra liberdade e, na era da informação, fazemos comparações justas.

Até o fechamento desta análise, e considerando os resultados a partir de 1º de janeiro, o real havia se desvalorizado em 26,5% frente ao dólar; 37,4% frente ao ouro; e 41,8% frente ao bitcoin em 2020.

Ou, colocando de outra forma, o dólar encareceu 36% em relação ao real. O ouro, 60%. E o bitcoin, 72%.

Confira o gráfico.

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Gráfico 1: encarecimento do ouro (linha amarela), do dólar (linha verde) e do bitcoin (linha preta) em 2020

Aos moradores da republiqueta tropical avessos às inovações tecnológicas, apresento o vosso futuro: em 2011, o CQC Argentina veio a São Paulo e fez uma simples pergunta aos transeuntes na Avenida Paulista: Qual é o preço da sua casa em dólar? Na época, custando R$1,75, não havia sentido pensar em seu patrimônio em outra moeda.

Quando a mesma pergunta foi realizada em Buenos Aires, não havia um argentino que não soubesse valorar sua casa na moeda norte-americana.

Hoje, após aquelas oito pessoas em Brasília decidirem sobre a taxa Selic e colocarem o Brasil com juros reais negativos e em um nível menor até mesmo que o da Suíça, o dólar fechou a R$ 5,46.

E aí eu pergunto: qual é o preço da sua casa em dólar?

Este artigo foi originalmente publicado no site blocktrends.com.br

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: UMA EXCEÇÃO PERIGOSA PARA A MAIORIA E GANHOS PARA UNS POUCOS

TEXTO

A PEC do “Orçamento de Guerra” e a bazuca do Banco Central

Os reais ganhadores e todos os perigos para o resto de nós

Nota do Editor

Hoje, 23/06/2020, foi regulamentada pelo Banco Central a PEC que permite que a instituição, em uma medida inédita, possa comprar ativos privados (como debêntures, carteiras de créditos e certificados de depósitos bancários (CDBs) de bancos e fundos de investimento.

Em coletiva para explicar a medida, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que a instituição “prefere pecar para o lado do excesso do que para o da parcimônia”.

Eis aqui o resumo em PowerPoint da apresentação.

Abaixo, o artigo que publicamos sobre isso, ainda em abril deste ano.

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O Senado aprovou, nesta sexta-feira, a PEC 10/2020, do Orçamento de guerra.

O objetivo da PEC é separar do orçamento geral da União os gastos para conter os danos causados pela Covid-19.

Clique aqui para ler a íntegra da PEC aprovada.

Este artigo irá abordar exclusivamente as novas e totalmente inéditas atribuições concedidas ao Banco Central.

Bazuca

A PEC autoriza o Banco Central — em tese, apenas durante o estado de calamidade pública, que vai até 31 de dezembro de 2020 — a comprar e a vender tanto títulos públicos quanto títulos privados nos mercados secundários

Isso é inédito. Até então, o Banco Central sempre foi autorizado apenas a operar títulos públicos com instituições do mercado primário.

Eis como sempre funcionou:

a) O Tesouro Nacional faz leilões de títulos públicos para arrecadar dinheiro e com isso financiar seus déficits. O leilão ocorre no mercado primário, isto é, no mercado em que tudo se origina.

b) As únicas entidades que podem comprar os títulos do Tesouro diretamente nesses leilões são aquelas chamadas de dealers primários.

c) E quem são os dealers no Brasil? Os principais bancos do país e três corretoras. Eis a lista deles.

d) Apenas essas entidades podem participar dos leilões do Tesouro. Apenas elas podem comprar diretamente do Tesouro. Uma vez comprados os títulos, aí sim elas os revendem para todas as outras do sistema financeiro. Este é o mercado secundário.

e) Já o Banco Central faz as suas operações de mercado aberto exatamente junto a estes dealers: ele compra título do Tesouro em posse delas quando quer expandir a base monetária (por exemplo, em uma redução da Selic); e vende títulos do Tesouro para elas quando quer contrair a base monetária (por exemplo, em um aumento da Selic).

Até hoje, isso era tudo o que o Banco Central podia fazer: comprar e vender títulos do Tesouro junto a instituições financeiras listadas como dealers primários. Se uma corretora como Órama ou Easynvest, que operam apenas no mercado secundário, quisessem vender títulos do Tesouro ao Banco Central, não seria possível.

Agora, porém, com o Orçamento de Guerra, tudo mudou. Falando diretamente, o Banco Central não apenas passa a poder comprar títulos do Tesouro em posse de qualquer instituição financeira no mercado secundário (como corretoras que não são listadas como dealers), como também poderá comprar títulos privados em posse de qualquer instituição.

Eis o que está escrito na PEC:

Art. 8º O Banco Central do Brasil, limitado ao enfrentamento da calamidade pública nacional de que trata o art. 1º, e com vigência e efeitos restritos ao período de sua duração, fica autorizado a comprar e vender:

I – títulos de emissão do Tesouro Nacional, nos mercados secundários local e internacional; e

II – os seguintes ativos, em mercados secundários nacionais no âmbito de mercados financeiros, de capitais e de pagamentos, desde que, no momento da compra, tenham classificação em categoria de risco de crédito no mercado local equivalente a BB- ou superior, conferida por pelo menos uma das três maiores agências internacionais de classificação de risco, e preço de referência publicado por entidade do mercado financeiro acreditada pelo Banco Central do Brasil:

a) debêntures não conversíveis em ações;

b) cédulas de crédito imobiliário;

c) certificados de recebíveis imobiliários;

d) certificados de recebíveis do agronegócio;

e) notas comerciais; e

f) cédulas de crédito bancário.

§ 1º Respeitadas as condições do inciso II do caput deste artigo, será dada preferência à aquisição de títulos emitidos por micro, pequenas e médias empresas.

Ou seja, o Banco Central agora adquiriu uma verdadeira bazuca. A PEC permitirá que qualquer instituição financeira em posse de títulos emitidos por empresas privadas possa revender esses títulos para o Banco Central, que agora pode criar dinheiro para comprar estes títulos.

Em tese, ao criar este mercado adicional e extremamente líquido para títulos privados, as empresas não mais terão problemas de financiamento. Dado que o Banco Central agora poderá comprar estes títulos no mercado secundário, então foi criada liquidez para estes títulos no mercado secundário. Investidores agora estarão mais dispostos a financiar essas empresas comprando seus títulos emitidos no mercado primário, pois poderão com mais facilidade revendê-los no mercado secundário, onde agora o Banco Central atua.

A PEC ao menos restringe os tipos de papeis que poderão ser comprados e vendidos pelo Banco Central. Como especificado acima, o BC só poderá comprar papeis que sejam classificadas como “BB- ou superior” no mercado local; que tenham comprovação de qualidade de crédito dada por pelo menos uma das três maiores agências internacionais de classificação de risco; e cujo preço de referência tenha sido publicado por entidade do mercado financeiro credenciada pelo Banco Central.

Este “cuidado” foi incluído com o intuito de evitar brechas que permitiam que o BC comprasse “créditos podres”, como dívidas vencidas e de difícil recuperação.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, estimou que a instituição poderá comprar até R$ 972 bilhões em papeis de empresas privadas.

Os verdadeiros socorridos

A economia moderna se sustenta em um dinâmico sistema interconectado de crédito, formado por poupadores e tomadores de poupança, em geral intermediado pelos bancos.

Quase toda empresa depende dos bancos para seu capital de giro e financiamento geral. Por sua vez, os bancos se ancoram nos bancos centrais, de cuja solidez depende o sistema.

O crédito tem crescido continuamente ao longo das décadas devido a uma crescente alavancagem de bancos e assim passou a se equilibrar, como uma pirâmide invertida, sobre uma quantidade muito pequena de reservas de caixa e de capital.

Crises como a do coronavírus geram uma súbita demanda adicional de caixa por todos (bancos, indivíduos e empresas), o que, por sua vez, tende a causar pânico.

A raiz do problema é a enorme alavancagem perante a pequena quantidade de liquidez de curto prazo e de capital. Há conflito de interesses: os brasileiros preferem que haja bastante capital e liquidez nos bancos, mas estes discordam e têm interesse em aplicar os recursos e aumentar os lucros.

No auge da crise de liquidez, tornam-se inevitáveis medidas de exceção envolvendo injeção de liquidez. Walter Bagehot, economista e autor do clássico livro sobre o mercado de crédito “Lombard Street” (1873), é o autor mais citado em crises. Bagehot (pronuncia-se “badget”) defendia que o Banco Central deve fornecer liquidez abundante, mas apenas a bancos solventes e a juros punitivos, e não por meios como compra de crédito privado.

O ideal seria que a liquidez adicional viesse de liberações de reservas preexistentes, e não de dinheiro criado “ex nihilo”, ou seja, do nada, pelo Banco Central. Nesse sentido, o BC acertou ao liberar, no final de março, parte dos compulsórios sobre depósito a prazo, uma jabuticaba brasileira.

Eis o principal ponto: há espaço de sobra para liberação adicional de liquidez em compulsórios e por relaxamento de exigências de capital e liquidez, o que torna desnecessária a compra de crédito privado sob o argumento de incremento de liquidez.

Por isso, a real motivação parece ser um socorro a bancos e gestores de fundos que emitem ou carregam esses papéis privados, e que agora estão em dificuldades porque o valor de mercado destes papeis desabou e, ao mesmo tempo, está havendo resgates recordes nestes fundos.

Ou seja, não é um socorro ao brasileiro, que tipicamente não tem ativo financeiro; e, quando detém, em geral é uma aplicação em caderneta de poupança ou em títulos pós-fixados que não sofreram perdas. Tampouco parece ser um socorro a empresas. É um socorro a bancos e a fundos de investimentos.

Dada a baixíssima liquidez desse mercado, há enorme espaço para abusos por meio de compras a um preço distinto do “preco justo”, utilizando, por exemplo, como referência preços pré-crise.

Problemas

A compra de créditos privados no Brasil ainda não configura um QE, ou afrouxamento monetário tupiniquim, pois o QE ocorre apenas após os juros nominais serem reduzidos a zero. Ademais, um QE pode ser executado exclusivamente com títulos públicos.

Outro grande problema é que, ao comprar os títulos privados, a qualidade dos ativos em posse do Banco Central piora, e a moeda nacional tenderá a se desvalorizar mais perante as fortes. Uma moeda depende, dentre outras coisas, da qualidade dos ativos em posse da instituição que emite essa moeda. Essa é uma das definições de “qualidade da moeda”. Se um Banco Central emite moeda comprando ativos ruins, então a qualidade dessa moeda será afetada.

E piora: o Banco Central tampouco poderá reverter essa injeção monetária executando a operação contrária, como na política monetária tradicional. Se o BC expandiu a base monetária comprando um título privado de uma empresa que futuramente venha a falir, será impossível ele vender esse título e fazer o devido enxugamento da base monetária.

Caso ocorra em escala maciça, a própria capacidade do Banco Central de fazer política monetária estará em cheque.

Para concluir

Por fim, mas não menos importante: quais as consequências de uma maciça injeção de dinheiro no mercado secundário em um cenário de restrição da oferta?

Na melhor das hipóteses, o dinheiro fica empoçado no sistema bancário ou apenas circulando no mercado financeiro. Se ele vazar para a economia real, teremos um cenário de mais dinheiro correndo atrás de menos bens e serviços.

O leitor conhece o resto da história.

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: A SAGA DE HONG KONG – COMO OCORREU O MILAGRE ECONÔMICO

Nesta edição da coluna ECONOMIA desta segunda-feira estamos postando a 2ª parte da história de como ocorreu o milagre econômico de Hong Kong. Esta segunda parte narra essa história a partir da década de 1950 até os dias atuais. Então, ao ler esse artigo você vai conhecer, em detalhes, os segredos dessa civilização milenar e a resiliência para chegar onde chegou! 

Como ocorreu o milagre econômico de Hong Kong – da pobreza à prosperidade

A fantástica transformação

 

Artigo originalmente publicado no início de 2014. Com as recentes e violentas intervenções do governo chinês, tudo isso pode se perder

Leia a primeira parte aqui.

Com milhões de refugiados chineses, sofrendo com um embargo comercial e com sua infraestrutura estrangulada, a Hong Kong do início da década de 1950 parecia confirmar os prognósticos pessimistas feitos no século XIX.

No entanto, esta enxurrada de refugiados era composta por milhões de indivíduos que, embora completamente pobres, fugiram para Hong Kong em busca de liberdade.  E embora Hong Kong não possuísse a infraestrutura adequada para recebê-los, ela fornecia ampla liberdade para qualquer indivíduo que quisesse colocar seus talentos empreendedoriais em ação.

Não havia na ilha as mesmas restrições cambiais vigentes no Reino Unido e em grande parte da Europa — o que significava que o dólar de Hong Kong, que era ancorado à libra esterlina, era livremente conversível em outras moedas —, e a quantidade de regulamentações sobre a economia era desprezível.

A combinação entre mão-de-obra à procura de trabalho e empreendedores com conhecimento e algum capital oriundos de Xangai — até então a grande cidade capitalista chinesa — forneceu a matéria-prima para o crescimento industrial iniciado na década de 1950.  A economia começou a prosperar.

Os empreendedores de Hong Kong criaram rapidamente um número impressionante de pequenas e médias empresas durante este período, especialmente no setor têxtil.  Estes empreendimentos, os quais acabaram se diversificando e se ramificando para setores como vestuário, plásticos e eletrônicos, produziam principalmente para atender a crescente demanda da Europa e dos EUA por bens manufaturados e baratos.

Essa rápida industrialização da década de 1950 foi possível porque ocorreu em condições nas quais 1) os direitos de propriedade eram respeitados, 2) o poder judiciário era independente e os tribunais, imparciais, e 3) a interferência econômica das autoridades coloniais era mínima.

Como o último governador britânico de Hong Kong, Christopher Patten, escreveu em seu livro de memórias, East and West, os refugiados do comunismo que correram para Hong Kong chegaram à única cidade livre da China; era de fato “a única sociedade chinesa que, por um breve período de 100 anos, viveu um ideal jamais vivenciado em nenhum outro momento da história da sociedade chinesa — um ideal em que nenhum homem tinha de viver com medo de uma batida à porta da sua casa à meia-noite”.

Hong Kong tinha um governo limitado e competente, que se restringia a manter a lei e a ordem, e a permitir o funcionamento da economia de mercado.  Era um governo que honrava completamente a filosofia confuciana: “Deixe as pessoas locais serem felizes e atraia migrantes longínquos.”

Mais impressionante ainda foi o fato de que, enquanto o Reino Unido estava criando um estado altamente intervencionista e assistencialista em casa, sua colônia desfrutava uma política econômica fundamentalmente de livre mercado.

No entanto, houve um responsável pela prolongada existência desta política de livre mercado.  Houve uma pessoa que seguidamente contrariou ordens do governo britânico e, com isso, permitiu a prosperidade de Hong Kong.

Sir John Cowperthwaite, o homem que permitiu a prosperidade de Hong Kong

O nome de Sir John James Cowperthwaite (1915—2006) deveria ocupar para sempre o topo do panteão dos grandes libertários.  Enquanto vários de nós apenas escrevemos sobre ideias libertárias, este cidadão de fato as transformou em política pública para milhões de cidadãos.

Cowperthwaite foi nomeado secretário das finanças de Hong Kong para o período de 1961 a 1971.  Escocês e discípulo fiel de Adam Smith, ele era assumidamente um economista na tradição da Escola de Manchester, ardorosa defensora do livre comércio.

Na época, com a Grã-Bretanha indo a passos firmes rumo ao socialismo e ao assistencialismo, Cowperthwaite permaneceu inflexível: Hong Kong deveria se manter fiel aos princípios do laissez-faire.  Tendo praticamente controle completo sobre as finanças do governo de Hong Kong, ele se recusou a impor qualquer tipo de tarifa de importação e sempre insistiu em manter os impostos no nível mais baixo possível.

Ele era um liberal-clássico, bem ao estilo dos liberais do século XIX.  Era fiel adepto da ideia de que os países deveriam se abrir unilateralmente para o comércio, sem esperar contrapartidas.  Ele já estava em Hong Kong desde 1941, fazendo parte do Serviço Administrativo Colonial.  Com a invasão japonesa, ele foi enviado para Serra Leoa.  Ao voltar para Hong Kong, em 1946, os britânicos lhe pediram para elaborar planos e programas para que o governo pudesse estimular o crescimento econômico.  Cowperthwaite apenas respondeu dizendo que a economia já estava se recuperando sem nenhuma ordem do governo.

Mais tarde, ao ser efetivamente nomeado secretário das finanças, em 1961, ele se tornou um defensor inflexível daquilo que passou a rotular de “não-intervencionismo positivo” e passou a pessoalmente controlar a política econômica da colônia.

Cowperthwaite transformou Hong Kong na economia mais livre do mundo.  Durante o seu mandato, o livre comércio foi instituído plenamente, pois Cowperthwaite se recusava a obrigar os cidadãos a comprar bens caros produzidos localmente se eles podiam simplesmente importar produtos mais baratos de outros países.  O imposto de renda sempre teve uma alíquota única, de 15%.  A total escassez de recursos naturais em Hong Kong — havia apenas a enseada onde está o porto — e o fato de que a ilha tinha de importar até mesmo toda a sua comida tornam o sucesso de Hong Kong ainda mais fascinante.

“Para toda a nossa economia, é preferível confiarmos na ‘mão invisível’ do século XIX a aceitarmos que as canhestras mãos de burocratas manipulem os delicados mecanismos do mercado”, declarou Cowperthwaite em 1962.  “Em específico, não podemos deixar que burocratas danifiquem os principais mecanismos da economia, que são a livre iniciativa e a livre concorrência”.

Ele não aceitava protecionismo nem para as chamadas “indústrias infantes“: “Uma indústria infante, quando protegida e mimada, tende a permanecer infante, e jamais irá crescer e se tornar eficiente”.  Também acreditava firmemente que, “no longo prazo, o agregado das decisões individuais dos empreendedores, exercitando seu juízo individual em uma economia livre, mesmo cometendo erros, tende a ser bem menos danoso do que as decisões centralizadas de um governo; e certamente o eventual dano tende a ser contrabalançado mais rapidamente.”

Desde os dias de John Maynard Keynes, a ciência econômica vem sendo atormentada pela ideia de que a ação humana deve ser destilada em números, os quais se transformam em uma “pretensão ao conhecimento” para aspirantes a planejadores centrais.  Nas várias faculdades de economia atuais é difícil saber quando acaba a matemática e quando começa o real conhecimento econômico.  Para Cowperthwaite, no entanto, a compilação de estatísticas para planejamento econômico era um anátema.  Ele simplesmente se recusou a coletá-las.  Quando Milton Friedman lhe questionou, em 1963, a respeito da “escassez de estatísticas”, Cowperthwaite respondeu: “Se eu deixá-los coletar estatísticas, irão querer utilizá-las para planejar a economia”.

Perguntado qual era a coisa mais premente que os países pobres deveriam fazer, Cowperthwaite respondeu: “Eles deveriam abolir seus institutos de estatísticas econômicas”.  Ele acreditava que, se estatísticas fossem coletadas em Hong Kong, elas estimulariam o governo britânico a implantar políticas supostamente corretivas, o que inevitavelmente afetaria a capacidade da economia de mercado funcionar corretamente.  Isso gerou consternação no governo britânico.  Uma delegação de burocratas foi enviada a Hong Kong para descobrir por que as estatísticas não estavam sendo coletadas.  Cowperthwaite literalmente mandou-os de volta a Londres no primeiro avião.

O desprezo de Cowperthwaite pela teoria econômica em voga (keynesianismo) e sua abordagem não-intervencionista eram garantia de conflitos diários tanto com o governo britânico quanto com empresários.  Os britânicos haviam elevado a alíquota do imposto de renda em Cingapura; quando ordenaram a Hong Kong que fizesse o mesmo, Cowperthwaite recusou.  Ele era contrário a dar subsídios e a conceder benefícios especiais para empresas.  Quando um grupo de empresários pediu a ele que providenciasse fundos para a construção de um túnel através da enseada de Hong Kong, ele respondeu dizendo que, se o túnel fosse economicamente sensato, o setor privado iria construí-lo.  O túnel foi construído privadamente.

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O legado de Cowperthwaite

Não obstante sua postura contrária, há estatísticas sobre a Hong Kong daquela época.  Durante sua década como secretário das finanças, os salários reais subiram 50%, e a fatia da população vivenda na pobreza extrema caiu de 50 para 15%.  O mais impressionante é que Hong Kong fez tudo isso sem contar com nenhum outro recurso que não fosse sua população.  A colônia não possuía nenhuma terra agrícola e nenhum recurso natural.  E até mesmo o único recurso que ela possuía — as pessoas — não era exatamente muito culto.  Com efeito, a maior parte da massa de refugiados que chegou a Hong Kong na década de 1950 seria vista apenas como um fardo para o estado.

Também digno de menção é todo o contexto mundial vigente à época.  A transformação de Hong Kong ocorreu exatamente quando os social-democratas controlavam a Europa e quando o democrata Lyndon Johnson e seu programa da Grande Sociedade dominava a política americana, o que refletia o consenso entre as elites políticas da Europa e dos EUA de que assistencialismo e políticas econômicas intervencionistas eram a única direção sensata para as sociedades avançadas.  Mesmo nos países em desenvolvimento, políticas econômicas intervencionistas, como a industrialização por meio da substituição de importações — que se baseava na imposição de altas tarifas de importação para proteger as indústrias domésticas — eram a norma.

A pequena Hong Kong, portanto, conseguiu adotar e manter políticas de livre mercado e de livre comércio que iam totalmente contra as políticas dos governos britânico, europeus e americanos, e contra o consenso de economistas desenvolvimentistas em todo o mundo.  E fez tudo isso enquanto ainda era pobre e estava perigosamente ao lado de uma poderosa e imperialista ditadura comunista.

É difícil argumentar contra o sucesso.  Após a aposentadoria de Cowperthwaite, em 1971, sucessores menos adeptos aos seus princípios se mostraram mais propensos a aumentar os gastos assistencialistas, mas todos os aumentos foram financiados por meio da venda de terras, e não de aumento de impostos.  As alíquotas tributárias estão hoje exatamente no mesmo valor em que Sir John James Cowperthwaite as deixou.

O avanço

As políticas de livre comércio, de não-intervenção do estado na economia, de orçamentos governamentais rigidamente equilibrados, de imposto de renda de pessoa física com alíquota única (15%), de mercado de trabalho bastante flexível, de livre fluxo de capitais, de não-restrição a investimentos estrangeiros (estrangeiros podem investir livremente em empresas locais e também deterem 100% do capital) se mantiveram inalteradas após a saída de Cowperthwaite.

Esta política econômica, a qual promoveu a concorrência e o espírito empreendedorial, criou as condições para o acelerado crescimento econômico vivenciado por Hong Kong nas décadas seguintes.  Entre 1961 e 2012, o PIB real per capita de Hong Kong foi multiplicado por um fator 9.  Hoje, o PIB per capita de Hong Kong, em termos de paridade do poder de compra, é o 7º maior do mundo.

Ou seja, em apenas algumas décadas, Hong Kong, sem recursos naturais, sofrendo dos mesmos problemas enfrentados por todos os outros países em desenvolvimento, e cuja renda média per capita era de apenas 28% da dos residentes do Reino Unido, deixou de ser uma favela a céu aberto e se tornou uma das economias mais ricas do mundo, superando em muito a renda média per capita de sua metrópole.

De economia industrial a uma economia de serviços

O primeiro estágio do desenvolvimento de Hong Kong baseou-se na indústria manufatureira.  No entanto, as reformas econômicas feitas na China e a política de abertura ao investimento estrangeiro adotada por Deng Xiaoping a partir de 1978 alteraram profundamente a natureza da economia de Hong Kong nas décadas seguintes.

O setor manufatureiro começou a declinar e a perder peso na economia no final de década de 1970 em decorrência de aumentos nos preços da terra — uma inevitabilidade para um local tão pequeno e povoado — e nos salários.  No entanto, a crescente integração econômica entre Hong Kong e China permitiu à ilha realocar sua produção para as zonas econômicas especiais na província adjacente de Guangdong, na China.

Estas zonas, que foram criadas no início de 1980, ofereceram aos investidores de Hong Kong a oportunidade de aumentar sua competitividade ao recorrerem a uma mão-de-obra barata e abundante (chinesa) ao mesmo tempo em que ainda usufruíam as mesmas condições não-intervencionistas do governo chinês quanto recebiam em Hong Kong.  De 1978 a 1997, o comércio entre Hong Kong e China cresceu a uma taxa média anual de 28%.  Ao final de 1997, o investimento direto feito por Hong Kong representava 80% de todo o investimento estrangeiro direto em Guangdong.

Estes novos desenvolvimentos alteraram significativamente a economia de Hong Kong.  A participação da indústria na economia declinou de 31% em 1980 para 14% em 1997 e 8% em 2008; o setor de serviços, por outro lado, aumentou sua participação consideravelmente, de 68% em 1980 para 86% em 1997 e 92% em 2008.

Desde 1997, a economia de Hong Kong se tornou um pólo para serviços de alto valor agregado (finanças, administração, logística, consultoria empresarial, comércio etc.).  Atualmente ela atrai tanto empresas chinesas que querem entrar no mercado internacional quanto empresas de todo o mundo que querem ter acesso aos mercados da China e do resto da Ásia.

A manutenção das instituições de livre mercado

Já no início da década de 1980, a perspectiva de uma iminente devolução de Hong Kong à soberania chinesa produziu grande incerteza com relação à manutenção das instituições que tornaram o território uma região rica e próspera.  Esta preocupação, no entanto, foi rapidamente abrandada.

Na Declaração Conjunta Sino-Britânica, assinada no dia 9 de dezembro de 1984, foi estabelecido que Hong Kong deixaria de ser um território sob controle britânico no dia 1º de julho de 1997.  O princípio do “um país, dois sistemas” também foi acordado nesta data.  Com a exceção das relações exteriores e da defesa nacional, o acordo concedeu ampla autonomia ao território e permitiu a Hong Kong manter seu sistema capitalista e seu estilo de vida por um período de 50 anos, até 2047.

Hong Kong hoje é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China.  Ela preservou o grosso do seu sistema político, judicial, econômico e financeiro que caracterizou a colônia quando estava sob controle britânico.  O poder judiciário é independente do poder político e continua a operar sob o sistema do direito consuetudinário herdado dos britânicos.  Os direitos de propriedade são garantidos na Constituição da Região Administrativa Especial de Hong Kong.  Seus cidadãos desfrutam amplas e fundamentais liberdades individuais.

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Conclusão

Em 1960, a renda média per capita de Hong Kong era de apenas 28% da renda média per capita da Grã-Bretanha.  Atualmente, é de 140%.  Ou seja, de 1960 a 2012, a renda per capita de Hong Kong deixou de ser de aproximadamente um quarto da da Grã-Bretanha e passou a ser mais de um terço maior.  É fácil falar destes números.  Muito mais difícil é se dar conta de sua significância.

Compare a Grã-Bretanha — o berço da Revolução Industrial, a potência econômica do século XIX em cujo império o sol jamais se punha — a Hong Kong, uma mera restinga de terra, superpovoada, sem nenhum recurso natural, exceto uma enseada.  No entanto, em menos de quatro décadas, os residentes desta restinga de terra alcançaram um nível de renda um terço maior do que aquele desfrutado pelos residentes de sua metrópole.

O retorno de Hong Kong à China era inevitável, assim como era inevitável a determinação do governo chinês em preservar o capitalismo de Hong Kong.  O interesse da China em preservar sua galinha dos ovos de ouro era claro: a China sempre utilizou Hong Kong — a qual ela podia atacar e tomar à força a qualquer momento — como um meio de acesso aos mercados estrangeiros e também como fonte de capital.  Houve épocas em que 80% das receitas externas da China entrava através de Hong Kong.  A China também queria demonstrar a Taiwan que uma reunificação pacífica era possível.

O perigo sempre foi o de a liderança chinesa não entender a relação entre o hardware de Hong Kong (a economia capitalista) e o seu software (uma sociedade pluralista).  É o seu software que permite que seu hardware funcione tão bem.  Até o momento, os novos governantes de Hong Kong vêm se comprovando notavelmente aptos a dar continuidade ao funcionamento harmônico entre o hardware e o software.  A grande questão é se isso permanecerá assim no futuro.

Não foram apenas os britânicos que fizeram de Hong Kong um sucesso.  Foi principalmente a população de Hong Kong, de operários de fábricas a empreendedores, quem transformou uma ilha estéril em potência econômica.  Essas pessoas foram capazes de fazer isso porque o governo de Hong Kong, na maior parte do tempo, as deixou em paz.  Hong Kong está longe de ser perfeita, e longe de ser um paraíso libertário.  Mas permanece sendo um dramático exemplo de como a genialidade humana e o talento empreendedorial podem trazer prosperidade a uma sociedade originalmente pobre.

Por que Hong Kong sempre foi tão livre?  Em parte, Hong Kong teve a sorte de ser governada por homens que entendiam que sua função era bastante limitada.  Não era exatamente o ideal liberal-clássico, mesmo sob Cowperthwaite, mas ainda assim foi a sociedade que mais significativamente se aproximou deste ideal no século XX.  E a combinação entre a incapacidade do governo britânico em fornecer instituições democráticas e sua falta de interesse em Hong Kong permitiu àqueles homens manter suas políticas econômicas, mesmo enquanto sua própria Grã-Bretanha natal experimentava o desastre econômico do socialismo light dos anos 1950-70.  Hong Kong também se beneficiou do exemplo das desastrosas políticas econômicas da China na década de 1960.  Com tantos residentes chineses fugindo do comunismo e se refugiando em Hong Kong, a demanda por liberdade era alta.

Hong Kong é um dos mais formidáveis e conclusivos exemplos de uma sociedade que teve grande êxito em fugir do subdesenvolvimento e enriquecer recorrendo à liberdade econômica.  Hong Kong teve sorte em ter tido essa liberdade.  E a sua população provou que a liberdade funciona.

Fonte: Mises Brasil

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ECONOMIA: A SAGA DE HONG KONG – COMO OCORREU O MILAGRE ECONÔMICO

Nesta edição da coluna ECONOMIA desta terça-feira estamos postando em duas partes a história de como ocorreu o milagre econômico de Hong Kong. Esta primeira parte narra essa saga desde os primórdios, quando a mega cidade de hoje ainda era uma favela a céu aberto. Então, ao ler esse artigo você vai conhecer, em detalhes, os segredos dessa civilização milenar e a resiliência para chegar onde chegou! 

Como ocorreu o milagre econômico de Hong Kong – os primórdios

Uma favela a céu aberto

Foto de Hong Kong, em 1962

Artigo originalmente publicado no início de 2014

Por vinte anos consecutivos, o Índice de Liberdade Econômica, compilado pelo The Wall Street Journal e pela Heritage Foundation, classifica Hong Kong como a economia mais livre do mundo.  Este último ranking da Heritage confirma o que o Fraser Institute, do Canadá, também afirmou em seu último Índice, o qual também classificou a economia de Hong Kong como a mais livre do mundo.  O Banco Mundial, por sua vez, classifica a “facilidade de se fazer negócios” em Hong Kong como a melhor do planeta.

Embora faça parte da China desde que a Grã-Bretanha cedeu seu controle em 1997, Hong Kong é governado em termos estritamente locais.  Até o momento, o governo chinês tem se mantido razoavelmente fiel à sua promessa de deixar a economia de Hong Kong em paz.

O que torna a economia de Hong Kong tão livre são aqueles detalhes que soam como música aos ouvidos de qualquer indivíduo que ama a liberdade: corrupção relativamente baixa; um judiciário eficiente e independente; respeito pleno aos direitos de propriedade; império das leis; um sistema tributário extremamente simples e com baixas alíquotas tanto para pessoas físicas quanto para jurídicas, e uma carga tributária total de apenas 14% do PIB; ausência de impostos sobre ganhos de capital, de renda de juros e até mesmo de renda obtida no exterior; ausência de impostos sobre vendas e sobre valor agregado; um aparato regulatório quase invisível; um orçamento governamental equilibrado, sem déficits, e com uma dívida pública praticamente inexistente.  Ah, e tarifas de importação em praticamente zero.  Isso mesmo, zero!

Dizer que uma economia é a “mais livre” é o mesmo que dizer que ela é “a mais capitalista”.  Capitalismo é o que ocorre naturalmente quando você permite que pessoas pacíficas cuidem de suas próprias vidas.  Não é necessário elaborar nenhum mecanismo artificial comandado por burocratas de carreira confortavelmente instalados em suas torres de marfim.  Não é necessário inventar nenhum esquema mirabolante e aparentemente sofisticado.  Basta apenas deixar as pessoas em paz.

Se formos acreditar naquilo que dizem os críticos do capitalismo, então Hong Kong tem necessariamente de ser um inferno repleto de pobreza, exploração e desespero.

Mas não.  Muito pelo contrário, aliás.

Talvez seja por isso que os socialistas não gostam de falar sobre Hong Kong: não apenas é a economia mais livre do mundo, como também é uma das mais ricas.  Sua renda per capita, 2,64 vezes maior do que a média mundial, mais do que duplicou nos últimos 15 anos.  As pessoas não fogem de Hong Kong; elas correm para Hong Kong.  Ao final da Segunda Guerra Mundial, a população de Hong Kong era de 750.000.  Hoje é quase dez vezes maior: 7,1 milhões.

A colônia

Hong Kong é um ótimo exemplo do que acontece com a economia de um local que não é explorado por políticos.  Hong Kong é produto do abandono político.  Isso mesmo: Hong Kong jamais teria se tornado a potência econômica que é hoje caso os políticos britânicos ou chineses tivessem demonstrado algum interesse pelo local no século XIX.

A Grã-Bretanha adquiriu a ilha de Hong Kong em 1842 (territórios adicionais viriam depois) por meio de um acordo entre um representante britânico — o capitão Charles Elliot — e um negociador chinês — o marques Ch’i-ying — como forma de solucionar um pequeno conflito que havia se iniciado em decorrência de contendas comerciais.  (Uma das contendas envolvia uma compensação por causa de um confisco chinês do ópio britânico, mas a pendenga era mais ampla do que essa questão do ópio, e pesquisas recentes questionam a acurácia de se rotular toda essa questão como sendo uma mera “guerra do ópio”).

O acordo resultante foi impopular tanto para a Corte Imperial chinesa quanto para o governo britânico.  As autoridades chinesas não gostaram de ter de ceder um pedaço de terra para os britânicos e se preocuparam com o impacto sobre suas receitas tarifárias em decorrência da criação de um porto controlado pelos britânicos.  Adicionalmente, os chineses tinham desprezo pela obsessão dos britânicos com o comércio.  Já o governo britânico enxergava Hong Kong como uma localização ruim e pouco promissora em relação às possíveis alternativas, como a ilha de Formosa.

No entanto, a precária comunicação vigente no século XIX acabou forçando os dois governos a delegar a autoridade da resolução da contenda aos seus representantes locais.  O resultado foi aquilo que o excelente livro de Frank Welsh, A History of Hong Kong, rotulou de “uma fonte de constrangimento e aborrecimento para seus progenitores desde seu surgimento no cenário internacional”.  (Doravante, todas as citações serão do livro de Welsh).

Os primórdios

As primeiras avaliações do potencial de Hong Kong foram pessimistas.  O então futuro primeiro-ministro britânico Lord Palmerston, naquela que talvez seja a pior previsão já feita por um diplomata britânico, concluiu que se tratava de “uma ilha estéril e inaproveitável, a qual jamais será um pólo para o comércio”.  O então tesoureiro lotado em Hong Kong, Robert Montgomery Martin, que também escrevia prolificamente sobre as possessões estrangeiras britânicas, fez eco à análise de Palmerston em 1844, afirmando que “não há nenhum comércio visível em Hong Kong. . . . É difícil encontrar uma empresa na ilha.  As poucas pessoas aqui se aventuraram estariam felizes se conseguissem recuperar metade do dinheiro que gastaram na ilha e fossem embora. . . .  Não parece haver a mais mínima probabilidade de que, algum dia, sob quaisquer circunstâncias, Hong Kong venha a se tornar um local propício ao comércio”.

No entanto, algum comércio começou a surgir em decorrência do estabelecimento de armazéns de mercadores britânicos.  Mas as políticas adotadas inicialmente pela Grã-Bretanha em relação ao seu novo território quase nada fizeram para promover o crescimento econômico.  Com efeito, uma investigação parlamentar de 1847 sobre a situação econômica de Hong Kong descobriu que o domínio britânico havia inicialmente levado consigo um governo empenhado em usar a ilha para coletar o “máximo possível de receitas”, o que afetou severamente o comércio.  E concluiu que “pode se datar desta época os reveses sofridos por Hong Kong”.

Após isso, a Grã-Bretanha fez relativamente muito pouco com sua nova colônia, se concentrando apenas em manter a ordem pública e ampliar o império das leis.  O resultado foi essencialmente um Porto de Tratado, muito semelhante àqueles que as potências europeias estabeleceram na China sob o Tratado de Nanquim em 1842-43.  Um dos motivos para esta política relativamente sem interferências da Grã-Bretanha foi a persistência da visão adquirida pelos primeiros oficiais coloniais britânicos de que os chineses residentes em Hong Kong não queriam ou não apreciavam as legislações britânicas.  Esta atitude foi ilustrada de maneira bem clara no depoimento prestado pelo Coronel John Malcolm, que estava lotado em Hong Kong, para um comitê do Parlamento britânico em meados do século XIX.  Malcolm relatou que “os chineses são um povo peculiar e não gostam de sofrer interferências.  Eles não nos entendem; eles não conseguem entender nossos métodos; e quando são recomendados a fazer primeiro uma coisa e só depois outra, eles se assustam e não mais nos procuram”.

Se era ou não uma característica “peculiar” dos chineses não gostar de governos arbitrários, o fato é que a Grã-Bretanha parou de expedir ordens conflitantes e incompatíveis, e a tendência geral passou a ser a de deixar as pessoas em paz.  Ambas estas políticas foram adotadas com o intuito de estimular.  Como consequência, deram à colônia o benefício de regras claras e simples desde seus primórdios.

Um centro comercial natural?

O que a Grã-Bretanha criou em Hong Kong?  A combinação entre o excelente porto e o primado das leis fez de Hong Kong um centro comercial natural.  Mas Hong Kong não era o melhor local para se comercializar na China.  Já no início do século XX, Xangai vinha crescendo em importância e, consequentemente, abocanhando uma fatia do comércio que até então passava por Hong Kong.  Xangai possuía uma população mais educada e mais preparada, estava em uma localização mais conveniente, desfrutava uma proteção europeia por causa de tratados de concessões feitos pelo governo chinês, e sofria relativamente pouca interferência do governo chinês devido ao declínio do poder imperial.

Por volta de 1910, Xangai já havia se tornado um centro comercial significativamente mais importante do que Hong Kong.  Com os britânicos optando por Cingapura — que era mais fácil de ser defendida — como centro do poder naval britânico na região, Hong Kong acabou perdendo o que restava de sua já pequena importância para o governo britânico.  Como resultado, a colônia definhou e foi para o esquecimento, tornando-se mais conhecida como um centro de prostituição e de jogatina.

Mas houve algo que a Grã-Bretanha não criou em Hong Kong: um governo democrático.  Ao contrário do que ocorreu na maioria das outras colônias britânicas, em Hong Kong não se permitiu que nenhuma instituição democrática local se desenvolvesse, pois os britânicos não estavam dispostos a dar à maioria chinesa uma voz na administração.  Como resultado, concluiu Welsh, “Hong Kong continuaria tendo uma administração tão antidemocrática quanto qualquer governo chinês, mas com a importante diferença de que a autoridade final seria a lei, e não os caprichos de algum ditador”.

O governo central imperial chinês nunca defendeu a liberdade econômica ao longo de sua história, e o período compreendido entre o final do século XIX e início do século XX não foi nenhuma exceção.  À medida que o poder do governo central foi se esvanecendo, déspotas e chefes militares regionais começaram a estabelecer centros de poder rivais, mas igualmente predatórios.  Os poderios europeu, americano e japonês também se expandiram na China, tentando ampliar o acesso de suas respectivas empresas ao mercado chinês.  Mas tais poderios não criaram nenhuma liberdade econômica para a população chinesa dentro de suas esferas de influência.

Neste cenário, a estabilidade política de Hong Kong começou a atrair cada vez mais emigrantes que saíam da China.  A população da colônia cresceu de 600.000 em 1920 para mais de um milhão em 1938.  À medida que as condições foram se deteriorando na China com a invasão japonesa e com os conflitos entre os déspotas regionais, o Kuomitang (nacionalistas) e os comunistas, uma média de 5.000 migrantes por dia passou a aportar em Hong Kong.

Quando a ocupação japonesa terminou, em 1945, a economia de Hong Kong estava devastada.  O golpe comunista na China, em 1949, acelerou a fuga de migrantes para Hong Kong.  Em março de 1950, a cidade já tinha 2,3 milhões de pessoas.

Para piorar, embargos ao comércio com a China em 1951, durante a Guerra da Coréia, afetaram severamente a condição de entreposto comercial de Hong Kong, justamente a atividade sobre a qual se baseava uma grande fatia da economia local.

No entanto, havia um aspecto positivo: o golpe comunista na China e a consequente fuga de chineses para Hong Kong forneceu à colônia não apenas um número significativo de mão-de-obra, como também um grande capital humano, formado por empreendedores que conseguiram fugir do exército de Mao.  Adicionalmente, a vitória dos comunistas na China fez com que Xangai deixasse de ser um concorrente para Hong Kong.

Superpovoada, refém de embargos comerciais, e com um contínuo influxo de refugiados, o que praticamente estrangulou a infraestrutura da colônia, Hong Kong teve de se reinventar.

A ilha passaria por uma transformação radical no início da década de 1960, com a adoção de políticas econômicas que criaram a potência econômica que Hong Kong hoje.  Os detalhes desta transformação serão abordados no próximo artigo.

Fonte: Mises Brasil

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