AUTOCONHECIMENTO: SERÁ REALMENTE POSSÍVEL MANTER UMA INTIMIDADE GENUÍNA  E UMA COMUNICAÇÃO HONESTA ANO APÓS ANO?

Em toda evolução há fracassos antes que algo novo surja. Todas as alegrias e tristezas que os casais enfrentam para se ver face a face  são uma experiência rica, que pode nos levar adiante num território não mapeado. Aprender a se relacionar conscientemente vai muito além da nossa satisfação pessoal. Quando o casal não honra nem aprecia um ao outro, prejudicam seu casamento e criam um vórtice de dor que atravessa gerações. Por isso convido você a ler o artigo completo a seguir e entender como foi a evolução dos relacionamentos ao longo da evolução da humanidade e assim ter condições de corrigir erros de percurso baseado em toda essa experiência.

RELACIONAMENTOS  CONSCIENTES

John Welwood*

Com os problemas que os casais enfrentam hoje, as pessoas se perguntam como agir num empreendimento tão difícil. Será realmente possível estabelecer intimidade genuína e comunicação honesta, e mantê-las ano após ano? Ou isso será apenas uma fantasia? Agora que permanecer solteiro tornou-se uma alternativa mais aceitável, qual é o objetivo de atravessar o tumulto e a luta que um relacionamento de longo prazo impõe?

Até recentemente, família, sociedade e religião determinavam a forma e a função do relacionamento e do casamento em particular. A família escolhia ou vetava o parceiro. O casal tinha um conjunto definido de papéis dentro de uma família ampla de pais, avós, primos, tios e tias. A família tinha lugar num clã, que era parte de nações maiores que compartilhavam valores sociais, morais e religiosos. Situado no centro dessa rede ampla, o casamento tinha contexto e propósito bem definidos; dava apoio à sociedade e a sociedade o apoiava.

Nas palavras do antigo livro chinês da sabedoria, o I Ching, “a família é a sociedade em embrião [e] o alicerce da família é o relacionamento entre marido e mulher”.

Hoje, pela primeira vez na história, as relações de um casal carecem de diretrizes claras e de um significado social atrativo. Nunca antes os casais tinham sido unidades tão autônomas, separados da família maior, da comunidade e de valores compartilhados, como também de ensinamentos espirituais que ajudavam a encontrar um lugar no Cosmo. Se, como afirmou Margareth Mead, “não há sociedade no mundo onde as pessoas permaneceram casadas sem enormes pressões da comunidade para fazê-lo”, o que manterá os casais juntos, agora que as pressões desapareceram?

Como restaram poucas razões extrínsecas convincentes para duas pessoas compartilharem uma jornada de vida, só as qualidades internas de amor e conexão podem manter um casal unido. Isso significa que as pessoas devem se analisar como nunca antes. É importante avaliar como é essa nova situação. Estamos em território desconhecido. Se estamos com dificuldade de encontrar o nosso caminho, podemos parar de nos culpar; a culpa não é nossa.

Infelizmente, a maioria de nós tem pouca consciência do que temos de enfrentar. Iludidos por imagens populares de casamentos fáceis e destituídos de percepção histórica, presumimos que o casamento foi legado da forma como conhecemos, ou que os casais de antigamente tinham uma chave que nós perdemos. Contudo, ao olhar para a história dos relacionamentos, não encontramos harmonia. O que a história do casamento revela é desentendimento e mesmo brutalidade. Ao longo da maior parte da história ele raramente foi uma instituição harmoniosa.

Nossas dificuldades com os relacionamentos refletem um problema de todas as épocas e extratos sociais: a necessidade de resolver o conflito entre suas duas metades – os modos masculino e feminino de ser. A consciência, que evolui integrando elementos aparentemente contraditórios, dará um salto enorme quando transformar o velho antagonismo homem-mulher numa aliança criativa. Nossas lutas com a intimidade, que parecem tão desencorajadoras, são– a partir dessa perspectiva evolutiva mais ampla – o principal veículo para esse importante avanço.

Sem uma noção de história, presumimos que nossas tentativas de combinar o amor romântico, o prazer do sexo e o compromisso monogâmico num mesmo relacionamento são naturais. Contudo, nenhuma sociedade tentou ou foi bem-sucedida em reunir amor, sexo e casamento. A dificuldade de uni-los levou pensadores como Margaret Mead a concluir: “O casamento norte-americano ideal é […] uma das formas mais difíceis de casamento que a raça humana já tentou.” Sem entender a enormidade disso, vamos ter ressentimentos quando nossos relacionamentos não funcionarem. Para encontrar rumo ter uma visão clara de como proceder, precisamos entender que tentamos fazer algo nunca feito antes.

Perspectivas históricas

Nas origens da humanidade, há pouca evidência de que o amor entre casais tivesse um lugar importante, e não conseguimos detectar claramente o papel original do casamento. As antigas sociedades se centravam no poder mágico do feminino, a Grande Mãe, a fértil fonte de vida. Como os homens não eram percebidos como pais das crianças, não tinham papel importante na família. A palavra matrimônio – literalmente “herança da mulher” – veio a significar casamento presumivelmente porque um homem tinha que se casar com uma mulher para ter uma propriedade. A propriedade era das mulheres (porque  provavelmente foram as primeiras a cultivar a terra e a organizar comunidades para cuidar das crianças) e era transmitida pelo lado feminino Quando os homens dominaram a agricultura, as ferramentas e o armazenamento de alimentos, indo de caçadores a lavradores, desenvolveram um novo modo de consciência, menos dependente das rotinas de sobrevivência do corpo e da terra. À medida que esse novo modo ganhou ascendência, foi usado contra o feminino, estabelecendo uma forma institucionalizada de domínio que hoje é conhecido como sistema patriarcal.

A Grécia antiga pouco fez para melhorar a relação homem-mulher. Os homens se casavam para procriar, ter uma dona de casa obediente e adquirir propriedades, mas davam pouco valor ao amor da esposa. Platão foi o primeiro a proclamar a enobrecedora virtude do amor, mas o objeto apropriado desse amor não era a mulher, e sim os homens jovens.

Embora os antigos romanos tivessem mais apetite erótico como casal, tinham pouca noção de amor baseado no respeito mútuo. O pai possuía esposa e filhos como propriedade e podia legalmente fazer o que quisesse com eles, inclusive condená-los à morte, sob certas circunstâncias. Durante os últimos anos do Império Romano as mulheres ganharam mais direitos, mas o casamento se desintegrou quando homens e mulheres buscaram cada vez mais o prazer sexual fora de suas fronteiras.

Após esta fase, era de se esperar que o Cristianismo tornasse salutar as relações entre casais. Porém, os antigos cristãos mostravam um grande desprezo pelas mulheres, o sexo e o casamento. Os gregos reuniram amor e sexo homossexual; os romanos uniram sexo e casamento; e o Cristianismo antigo separou os três. A Igreja considerava o celibato um ideal; tolerava o casamento com relutância, mas advertia, nas palavras de São Jerônimo: “Aquele que ama ardentemente sua própria esposa é um adúltero.” Aparentemente o homem era virtuoso se amasse o próximo, mas execrado se amasse a esposa.

Como um homem podia amar a descendente de Eva, culpada pela queda da humanidade? A literatura  eclesiástica descrevia a mulher em termos como “portal do inferno, confusão para o homem, besta insaciável, uma ansiedade contínua, uma guerra incessante, uma ruína diária”. Durante a Inquisição a Igreja estabeleceu o terror contra a mulher que detivesse propriedades e poder.

Um frade do século XV, em suas Regras de Casamento, exortou os maridos: “Repreenda-a severamente, intimide-a e aterrorize-a. E se isso ainda não funcionar […] pegue uma  vara e bata-lhe com força”.

No período medieval as mulheres eram consideradas propriedade. Os casamentos eram arranjados entre famílias; os pais escolhiam a esposa dos filhos com base nas posses, no status e na linhagem. O pai era um pequeno rei e a família, os súditos.

Quando o respeito pelo feminino tinha atingido um ponto tão baixo, houve uma grande mudança: a propagação do amor romântico – algo radicalmente novo – pelos trovadores de Provença no século XII. O feminino voltou a ser objeto de veneração. As regras do jogo entre homens e mulheres mudaram da conquista para o galanteio. Pela primeira vez a ternura e a gentileza, o respeito, a fidelidade e os sentimentos românticos se tornaram ideais nas relações. Nunca antes a sociedade havia  aprovado, o sequer concedido, essa legitimidade ao sentimento romântico.

Contudo, o amor cortês continuou a dividir amor e sexo, assim como amor e casamento. O cavalheiro se apaixonava por uma dama casada. Este tipo de “amor puro” era incompatível com o sexo. Os amantes podiam se tocar, beijar e acariciar, mas o ato sexual era considerado falso amor. Nas palavras de um trovador, “pouco ou nada sabe do serviço de mulheres quem deseje possuir sua dama inteiramente”. Com a conquista sexual descartada, as provações para conquistar o amor de uma dama tornaram-se uma senda de caráter, desenvolvimento e purificação. A qualidade refinada do amor era o que permitiria ao homem realizar o ideal de se tornar um cavalheiro. Apesar das inovações radicais, era uma noção de relacionamento romântico distorcida e idealizada.

Duas principais influências sobre a poesia amorosa trovadoresca parecem ser responsáveis por isso: a heresia dos cátaros, uma seita cristã que adorava o divino feminino e “Os antigos romanos tinham pouca noção de amor baseado no respeito mútuo. O pai possuía esposa e filhos como propriedade. Durante os últimos anos do Império Romano as mulheres ganharam mais direitos, mas o casamento se desintegrou quando homens e mulheres buscaram cada vez mais o prazer sexual fora de suas fronteiras.” condenava o contato sexual com mulheres (o amor era algo celestial, não manchado pelo desejo); e a tradição sufi de poesia devocional escrita para Deus, personificado e adorado como o amado. Ela proporcionou um molde ao amor secular por uma mulher. tornaram-se uma senda de caráter, desenvolvimento e purificação. A qualidade refinada do amor era o que permitiria ao homem realizar o ideal de se tornar um cavalheiro. Apesar das inovações radicais, era uma noção de relacionamento romântico distorcida e idealizada.

Até hoje podemos ver essa distorção em letras de canções de amor. O“ amor puro” se mantinha separado da realização sexual, e também era considerado incompatível com o casamento, como mostra uma famosa decisão dos Tribunais do Amor, que estabeleciam as convenções do romance: “Declaramos que o amor não pode exercer poderes entre duas pessoas que sejam casadas. Os amantes dão tudo ao outro livremente, se qualquer compulsão ou necessidade mas as pessoas casadas têm o dever de ceder aos desejos do outro.”

Assim, amor e casamento, paixão celestial e realização terrena foram estabelecidos como uma trágica contradição, que ao longo do tempo inúmeros amantes atormentados só conseguiram resolver através da morte.

Somente na era vitoriana a sociedade tentou unir amor e casamento. Como os trovadores, os vitorianos idealizavam a mulher e viam seu amor como enobrecedor da natureza mais abjeta do homem, não como amante clandestina, mas como esposa. Porém, as mulheres tinham que pagar um alto preço por esse status: a negação da sexualidade. A mulher que desfrutasse ou mesmo fizesse alusão ao sexo era considerada decaída; não podia servir como “anjo da casa”, que elevava os homens e a sociedade com suas virtudes. Ao tentar introduzir o amor romântico no casamento, os vitorianos retiraram completamente o fogo da relação. O prazer sexual estava relegado às casas de prostituição vitorianas.

Na Revolução Industrial, no final do século XIX, os pais saíam de casa para trabalhar, e a antiga estrutura de autoridade patriarcal se esfacelou. Os filhos buscaram liberdade na escolha de parceiros. Um método radical – o namoro – apareceu nos anos 1920, dando um golpe fatal no controle dos pais. Ao mesmo tempo, uma nova consciência feminina surgiu e as mulheres buscaram direitos. As mulheres geralmente percebem melhor que os homens como o amor, o sexo e o compromisso podem aprofundar uma relação. Quando as mulheres finalmente puderam mostrar o que elas queriam do casamento, as relações entraram em uma nova era.

“O mito de  Eros e Psique aponta a separação entre amor e consciência. O casamento tradicional tem sido como o amor no escuro, e só pode pros- seguir no piloto automático. Agora que não funciona mais, estamos passando as provações de Psique.”

O próximo passo

Será possível ter um compromisso profundo e duradouro junto com o amor romântico, a liberdade individual e a paixão sexual num mesmo relacionamento? Estamos buscando uma meta impossível? O que exatamente estamos tentando realizar?

Ao olhar para a história, fica claro que a maioria dos casais tentou viver sem compartilhar intimidade. Hoje, porém, buscamos um relacionamento pleno, mental, emocional, sexual e espiritualmente. Isso é extremamente saudável. Apesar das dificuldades, a tentativa de reunir amor, sexo e casamento é um avanço essencial no caminho evolutivo. Se bem-sucedida, resulta em algo novo: intimidade genuína, onde dois parceiros dividem aspirações e sentimentos profundos e se conhecem mais plenamente.

Esse tipo de intimidade é um passo importante na cura da oposição  masculino-feminino e na união das duas metades da humanidade. Precisamos dessa cura para sobre viver e ficar em paz. O mundo sofre um grave desequilíbrio; milhares de anos em busca de explorar a terra e o feminino  criaram uma ferida profunda na consciência humana. Ninguém consegue escapar de seus efeitos, que perpassam nossa vida interna e externa. Internamente há uma divisão entre mente e corpo, intelecto e sentimento, poder e ternura, fazer e ser. Externamente vemos a destruição da natureza em todo o planeta. Se o potencial evolutivo do amor é curar divisões e trazer plenitude, fica claro, ao olhar para a história, que ele ainda precisa ser realizado. A genuína união entre masculino e feminino deve ocorrer no plano interno, dentro de nós, e externo, entre casais.

O casamento moderno, apesar de contribuições como igualdade e flexibilidade de funções, levou a becos sem saída. O casamento tradicional sufocava a liberdade, mas nos anos a lamparina ele foge, e ela enfrenta uma série de provações para reencontrá-lo. Depois das provações o casal se une de maneira ampla, e seu amor prossegue à luz do dia.

O mito aponta a separação entre consciência (Psique) e amor (Eros). O casamento tradicional tem sido como o amor no escuro, e só pode prosseguir no piloto automático. Agora que não funciona mais, estamos passando as provações de Psique.

Aprender a se relacionar conscientemente vai muito além da nossa satisfação pessoal. Quando o casal não honra nem aprecia um ao outro, prejudicam seu casamento e criam um vórtice de dor que atravessa gerações. Os filhos reproduzem essa dor em suas próprias famílias e no mundo. Juntando essas feridas e seus efeitos, tem-se toda uma sociedade em sofrimento. Assim, encarar o outro de forma honesta é um passo essencial na limpeza da desordem no planeta. Se pudermos encarar nossas dificuldades com os relacionamentos como parte de uma evolução humana e planetária, podemos parar de nos repreender pelos fracassos e usar o sofrimento de maneira consciente, como ferramenta para despertar. Em toda evolução há fracassos antes que algo novo surja. Todas as alegrias e tristezas que os casais enfrentam para se ver face a face são uma experiência rica, que pode nos levar adiante num território não mapeado.

As gerações futuras encontrarão seu caminho mais facilmente com o que fazemos agora. Se nós enfrentarmos esses desafios, usando-os como oportunidade de explorar nossos poderes mais profundos e de expandir a visão de quem somos, podemos  desenvolver a sabedoria que nossa era precisa, e ver nascer uma nova visão de amor e comunidade – ajudando a nos iluminar como indivíduos e, nesse processo, a moldar um novo mundo.

Fonte: Revista Sophia –ano 19-nº 89

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