AS MUHERES CARREGAM NOS OMBROS A GRANDE RESPONSABILIDADE DE RECONSTRUIR AS CIDADES E REFORMULAR AS RELAÇÕES SOCIAIS PÓS -GUERRArelações,

Qual é o papel que as mulheres desempenham nos períodos pós-guerra?

Com os homens convocados para os combates, papel feminino se torna fundamental para a reconstrução de um país

INTERNACIONAL

Letícia Sepúlveda, do R7

Cerca de 60 mil mulheres ajudaram na reconstrução da Alemanha após Segunda GuerraCerca de 60 mil mulheres ajudaram na reconstrução da Alemanha após Segunda Guerra FOTO: CHRONOS HISTORY

Quando as tropas inimigas saem das áreas de guerra, um grande rastro de destruição é deixado para trás. Cabe às pessoas que permaneceram o trabalho de reconstruir as cidades e reformular as relações sociais, inevitavelmente afetadas após os conflitos armados. Historicamente, as mulheres carregam nos ombros essas responsabilidades.

Com a convocação dos homens para atuarem nas áreas de conflito, as mulheres que permanecem no âmbito doméstico mais uma vez são atreladas ao papel de “cuidadoras”, seja dos filhos, dos idosos e até mesmo das cidades devastadas nos combates.

“As consequências da guerra na vida das mulheres sempre foram aumentar ainda mais os efeitos patriarcais que elas já enfrentam”, aponta Diana Assunção, historiadora e fundadora do grupo de mulheres “Pão e Rosas”.

A especialista explica que as consequências dos conflitos atingem ainda mais as mulheres que trabalham fora e dentro de casa (com atividades relacionadas à família), conceito chamado de “dupla jornada de trabalho”. Para além de seus afazeres particulares, elas começam a lidar com as responsabilidades de toda uma comunidade.

A busca e a perda de empregos

As guerras ainda tiveram um papel importante na entrada feminina nos postos de trabalho. Em 1920, após a Revolução Russa, as mulheres já representavam 46% da força de trabalho industrial no país. Entretanto, no mesmo período, 4 milhões de homens retornaram ao trabalho e substituíram essas trabalhadoras. Em outubro de 1921, elas representavam 60% dos desempregados.

A professora do departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Cristina Wolff explica que o mesmo ocorreu durante o período da Segunda Guerra Mundial. “As mulheres da classe média precisaram sair de suas casas para substituir os homens em muitos postos.”

“Quando os conflitos acabaram, elas foram chamadas a voltar para as atividades domésticas e isso levou a um sentimento de perda de liberdade e autonomia”, completa. A partir daí, movimentos sociais começaram a atuar para que as mudanças sociais relacionadas às mulheres persistem.

Reconstrução

As mulheres também desempenharam um papel importante na reconstrução das cidades, aspecto que continua a persistir nas guerras atuais. Apesar do fenômeno não ter ocorrido em massa na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, um artigo do portal Deutsche Welle, revela que em Berlim cerca de 60 mil mulheres, cerca 5% da população feminina na época, recolheram os destroços causados pela devastação da guerra.

Entre os conflitos, as mulheres também contribuem para a reconstrução das sociedade, como acontece atualmente na Síria. Em Ruanda, após a guerra civil de 1994, a participação social das mulheres foi determinante para a reconstrução do país, o que levou a uma maior participação política femina. Segundo dados do Fórum Econômico Mundial, em 2018 as mulheres eram parte de 67% do Parlamento.

“Quando temos a situação em que os países disputam território, é muito importante que se tenha uma organização independente das mulheres junto com a classe trabalhadora”, ressalta Diana Assunção. “O papel das mulheres ucranianas e russas será o de unidade para enfrentar a guerra.”

O território ucraniano está sendo amplamente devastado pelas tropas russas desde o início da invasão, em 24 de fevereiro. De acordo com a prefeitura de Mariupol, 90% da cidade foi destruída pelos ataques russos, sendo que 40% de sua infraestrutura é “irrecuperável”.

Esquecimento

Apesar de todo o seu papel durante e após os conflitos, o esforço feminino muitas vezes é esquecido ou pouco citado.

“O imaginário da guerra aproxima esses momentos à realidade masculina devido ao – machismo estrutural das nossas sociedades. As mulheres são pensadas como ‘as que cuidam’, em um ‘papel secundário’, que não reflete o seu esforço”, explica a professora Cristina Wolff.

Para Diana Assunção, as atividades das mulheres são esquecidas porque nossa sociedade patriarcal busca apagar o papel das mulheres trabalhadoras, rebeldes e revolucionárias. É apagado porque a história sempre pode servir de exemplo para as futuras gerações.”

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